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Estudo mostra que ‘fila única’ para UTIs evitaria mortes por Covid-19 no Brasil

Modelo criado por Samy Dana e especialistas é atualizado e traz novas projeções sobre mortes e períodos de picos do coronavírus no Brasil e em estados como Amazonas, São Paulo e Rio de Janeiro

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A criação de uma “fila única” para as vagas de UTI nos sistemas público e privado ajudaria estados como o Rio de Janeiro a evitar muitas mortes pela Covid-19. Já no Amazonas, onde a situação é mais crítica, nem este modelo proposto por especialistas seria capaz de combater um “colapso” do sistema de saúde.

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É o que conclui a mais nova versão de um estudo feito pelo economista Samy Dana e pelo matemático e estatístico Alexandre Simas. O documento, que tem como co-autores José Gallucci, Bruno Filardi, Rodrigo Rodriguez, foi encomendado pela Easynvest. Clique aqui para visualizar a versão mais recente do estudo.

Os autores compararam as possíveis mortes pela Covid-19 e o pico da doença em três estados brasileiros (São Paulo, Rio de Janeiro e Amazonas) e também no Brasil. Para isso, consideraram dois cenários possíveis, supondo que o isolamento permaneceria em vigor. Com essa separação, os autores conseguiram medir o impacto social da fila única. E constataram cenários bem diferentes em cada estado, já que não existe mobilidade de leitos entre eles, pelo menos até o momento.

Veja os 2 cenários:

  • Fila separada: pessoas com plano de saúde têm acesso à rede privada, mas caso ela esteja lotada, podem utilizar o sistema público; pessoas sem plano só têm direito aos leitos disponíveis pelo SUS.
  • Fila única: pacientes graves, com ou sem plano de saúde, teriam o mesmo acesso a leitos das redes pública ou privada, em um sistema unificado. Para isso, o sistema público pagaria a rede privada pelo uso dos leitos, neste modelo já proposto por grupos de especialistas.

Veja abaixo as principais conclusões do estudo sobre as mortes por Covid-19 no Brasil:

São Paulo (fila única)

SP mortes fila única
sp pico fila unica
  • Pico de mortes: entre 30 de abril e 5 de maio de 2020
  • Mortes por dia: de 139 a 569 (mediana de 210 mortes)
  • Número de mortes acumuladas: entre 6.374 e 14.371 (mediana de 8.994 mortes)

Conclusão: Neste cenário, a ocupação de leitos de UTI está em um nível confortável com o isolamento atual. Estariam disponíveis 70% do total de leitos (15.753) para pacientes da Covid-19, o que totalizaria 11.027 leitos. “Como os leitos costumam ser amplamente ocupados por pessoas envolvidas em acidentes de trânsito, o isolamento contribui para que mais leitos estejam disponíveis”, dizem os autores. O modelo mostra que os leitos de UTI são usados por 10 dias entre os pacientes que morrem pelo novo coronavírus e 14 dias para os que sobrevivem à doença.

São Paulo (fila separada)

filas separadas sp
sp pico separada
  • Pico de mortes: entre 30 de abril e 6 de maio de 2020
  • Mortes por dia: 143 a 408 (mediana de 216 mortes)
  • Número de mortes acumuladas: entre 6.598 e 13.320 (mediana de 9.267 mortes)

Conclusão: O cenário mediano indica que utilização de leitos de UTI pública alcançará o nível de 80% de ocupação no estado durante o pico, considerando como cenário 5.063 leitos de UTI pública disponíveis para a Covid-19. “Na banda superior faltam leitos públicos de UTI, o que mostra que não há tanto conforto em São Paulo se não houver fila única de UTI”, diz o estudo. 

O cenário mediano indica a ocupação de leitos de UTI privada está em um nível         confortável com o isolamento atual, com 5964 leitos disponíveis. Mesmo na banda superior vemos bastante folga, caso o isolamento seja mantido. Supondo leitos de UTI públicos e privados infinitos (quantos leitos seriam necessários para não ter uma sobrecarga do sistema) seriam necessários de cerca de mais 5000 leitos para a rede pública para ter um conforto maior.

Rio de Janeiro: fila única

rj mortes fila unica
rj pico fila unica
  • Pico de mortes: entre 3 de maio a 10 de maio de 2020
  • Mortes por dia: 63 a 307 (mediana de 95 mortes)
  • Número de mortes acumuladas: entre 2.330 e 8.173 (mediana de 3.793 mortes)

Conclusão: O cenário mediano indica a ocupação de leitos de UTI está em um nível confortável com o isolamento atual se houver fila única. Estamos considerando como cenário que 70% do total de leitos (7.424) estão disponíveis para o COVID-19, a saber 5.197 leitos. “Vemos que na banda superior há a exaustão dos leitos disponíveis. Então, existe a possibilidade de faltar leitos, porém, havendo fila única de UTI, não é esperado que faltem leitos de UTI”.

Rio de Janeiro: fila separada

rj mortes fila separada
rj leitos
  • Pico de mortes: entre 2 de maio a 9 de maio de 2020
  • Mortes por dia: 61 a 230 (mediana de 145 mortes)
  • Número de mortes acumuladas: entre 2.929 e 8.694 (mediana de 5.355 mortes)

Conclusão: Há um aumento de cerca de 40% do número de mortes na mediana de filas separadas quando comparado com o cenário de fila única de UTI. O cenário indica que a utilização de leitos de UTI pública será de exaustão (não haverá leitos para todas as pessoas), considerando o total de 1.130 leitos disponíveis para a Covid-19. “O Rio de Janeiro é um que se fizer fila única pode fazer diferença significativa”, diz Alexandre Simas, um dos autores do modelo. Já a ocupação de leitos de UTI privada está em um nível extremamente confortável com o isolamento atual, considerando os 4066 leitos de UTI privada disponíveis.

Amazonas: fila única

  • Pico de mortes: entre 22 a 30 de abril de 2020
  • Mortes por dia: 16 a 67 (mediana de 41 mortes)
  • Número de mortes acumuladas: entre 611 e 1.644 (mediana de 951 mortes)

Conclusão: “Mesmo com fila única de UTI, vemos uma completa exaustão do sistema de saúde no estado do Amazona,  considerando como cenário que 360 leitos de UTI estão disponíveis para a Covid-19, juntando leitos públicos e privados”, diz o estudo.

Amazonas: fila separada

  • Pico de mortes: entre 26 e 30 de abril de 2020
  • Mortes por dia: 25 a 65 (mediana de 45 mortes)
  • Número de mortes acumuladas: entre 647 e 1.666 (mediana de 1.070 mortes).

Conclusão: “Aqui não vemos grandes diferenças entre a fila única de saúde e filas separadas devido à grande exaustão do sistema público de saúde e à baixa capacidade do sistema privado”.

Brasil

Brasil

Brasil: fila única

  • Pico de mortes: entre 11 a 16 de maio de 2020
  • Mortes por dia: 530 a 2.012 (973 no pico)
  • Número de mortes acumuladas: entre 24.800 e 84.400 (mediana de 38.780 mortes)

Brasil: fila separada

  • Pico de mortes: entre 10 e 17 de maio de 2020
  • Mortes por dia: 950 (mediana de 492 e 2311 mortes)
  • Número de mortes acumuladas: entre 21.700 e 99.200 (mediana de 42.472 mortes)

Metodologia do estudo

A tese que os autores defendem é de que os modelos que previram o número de mortes pelo novo coronavírus (Covid-19) no Brasil e no mundo estão errados. Os critérios usados para estimar as mortes teriam inflado o resultado final, em números absolutos. Por exemplo, os cálculos do Imperial College não levaram em conta a quantidade de casos subnotificados da doença, aqueles que não entram nas estatísticas. 

“Eles foram acusados no mundo inteiro de superdimensionar o número de mortes, mesmo nos cenários mais otimistas. Por isso, acreditamos que nosso modelo é mais correto”, explica Samy Dana durante a apresentação do estudo, que deve ser atualizado semanalmente, à medida que novos dados forem publicados. 

O objetivo do modelo não é rivalizar e sim ajudar governantes a saber o que fazer e também a ciência, acrescenta o economista. “Não somos contra a quarentena, nem estamos dizendo que ela não faz diferença. É só para as pessoas entenderem que é um trabalho científico”, diz.

O problema

Ao considerar os possíveis casos subnotificados, a taxa de letalidade da pandemia muda bastante. Samy Dana e Simas citam como exemplo a hipótese de haver 100 indivíduos infectados. Se houver duas mortes neste grupo, a mortalidade é estimada em 2%. Mas na hipótese de haver 39 casos não detectados para cada infectado, o número de casos totais subiria para 4 mil, o que derruba a taxa de letalidade para 0,05%.

“No Brasil nós temos um índice muito ruim de testagem. Na América do Sul, o Brasil só testa mais indivíduos que a Bolívia. O Chile, a Argentina e o Uruguai fazem mais testes que o Brasil. Estamos mais parecidos com a Guiana, para se ter uma ideia”, observa José Gallucci, professor da faculdade de medicina da USP e co-autor do estudo.

Outro problema, segundo os autores, é quando se aplica dados estatísticos europeus ao caso do Brasil para fazer previsões sobre o impacto da pandemia. Foram cometidos dois erros nestes tipos de estudo, na avaliação dos estudiosos: 

  1. Faixa etária: Desconsiderar o fato de que o Brasil tem uma proporção de jovens muito maior que na Europa (pirâmide invertida);
  2. Número de leitos: Desconsiderar o número de UTIs disponíveis. Enquanto o número de leitos a cada 100 mil habitantes é de 28,2 no Brasil, na Itália, que sofreu severamente com a doença, o número é de 12,5.

Estes dois fatores fazem com que a taxa de letalidade no Brasil seja bem menor que em diversos países da Europa, segundo o novo estudo. Em outras palavras, o modelo de Samy Dana e Simas defende que a proporção de mortos pela doença no Brasil foi superestimada.

“Não temos de fato o número real de pessoas infectadas. Esse modelo que foi construído abre mão desse dado e usa outras premissas para tentar estimar o número de óbitos e a relação de ocupação de leitos de UTI usando dados confiáveis”, afirma Rodrigo Rodriguez, co-autor do estudo. “Sobre o vírus, usamos premissas universais como taxa de infecção, tempo previsto de sintomas, que é mais ou menos igual em todos os lugares”, acrescenta.

A solução

Para contornar o problema, os autores tomam como base a metodologia do Report 13, do Imperial College, usando um modelo bayesiano. Segundo o estudo, o novo modelo se baseia no número de mortos em vez do número de infectados, que seria o dado mais confiável para trabalhar no Brasil.

Para isso, eles aplicaram uma técnica de simulação chamada HMC (Hamiltonian Monte Carlo), usando a premissa de que o modelo precisa ser flexível, dado o tamanho e as diferenças regionais do Brasil. Por exemplo, ele considera que a pirâmide etária do país varia bastante a depender da região, o que interfere no resultado. 

O número de leitos de UTI por habitante é outro que muda a depender das regiões do Brasil. Os autores acham importante levar isso em conta, já que as medidas de isolamento visam evitar superlotação no número de leitos disponíveis.

Pirâmide etária no Brasil

Para entender quais as chances de uma pessoa infectada perder a vida, o estudo calculou as probabilidades para cada faixa etária da população, usando o método IFR (do inglês, infection-fatality-ratio). 

“É importante observar como essa taxa aumenta vertiginosamente à medida que a faixa etária vai aumentando, mostrando a extrema relevância da pirâmide etária”, diz o estudo. Para indivíduos acima de 80 anos, este percentual seria de 7,8%, enquanto pessoas com menos de 60 anos teriam probabilidade abaixo de 1% de morrer vitimadas pela Covid-19.

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