Nenhum setor simboliza melhor a globalização nos EUA do que o automotivo. Em 2024, mais de 8 milhões de carros foram importados pelo país. Isso representa 51% dos 15,8 milhões de novos veículos que saíram das concessionárias para as ruas americanas no ano passado. E a partir de hoje, como você sabe, eles passam a ser taxados em 25% por lá.
Veja aqui a proporção de importados desde 2008, de acordo com um levantamento do Investnews a partir de dados do governo americano:
Para comparar: no Brasil, só 18,5% dos mais de 2,4 milhões de novos carros emplacados em 2024 foram importados, segundo as estatísticas da Anfavea. Nosso recorde é antigo: 24,9%, em 2011 — nem metade do patamar atual dos EUA.
Vale notar que “carro importado” é um conceito mais amplo do que parece à primeira vista. Não se trata apenas de BMWs, Porsches e cia. No Brasil, três em cada quatro importados são modelos de marcas generalistas (Volkswagen, Chevrolet, Ford…) produzidos na Argentina, no México e no Uruguai.
Nos EUA é a mesma coisa. O grosso dos importados são carros de montadoras americanas mesmo, que decidiram fabricar fora do país em busca de mão de obra mais barata e vantagens fiscais. Elas produzem carros americanos fora dos EUA para vender aos EUA — entram aí metade dos carros mais baratos do mercado deles, que custam menos de US$ 30 mil.
Boa parte desse movimento se concentrou, por questões logísticas e diplomáticas, nos vizinhos de porta: Canadá e México.
O grande incentivo aí foi o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta), que nasceu em 1994 e em 2018 foi substituído pelo Acordo EUA-México-Canadá (o USMCA).
Peças importadas
Um bom exemplo da globalização da indústria automotiva é a americaníssima picape F-150. Ela faz parte da linha F-Series da Ford, a mais vendida nos EUA, com quase 800 mil unidades por ano. A montagem é feita em três fábricas dos EUA (nas cidadezinha de Dearborn, vizinha de Detroit, no Michigan, e em Claycomo, no Missouri).
Mas a Ford tem fábricas em 12 países diferentes, que fazem diversas peças do carro. Duas deles estão há mais de 40 anos na cidade canadense de Windsor, no Canadá, e fazem motores que podem ser incluídos na produção do F150 e de outros modelos.
Aliás, dá pra cruzar o Rio Detroit e dirigir do centro de Windsor para o centro de Dearborn em menos de meia hora. Nem parece fronteira internacional.
Só que motores importados também vão receber a taxa de 25%. A ordem de Trump fala não só em carros inteiros; inclui, na letra fria, “partes fundamentais dos automóveis (motor, componentes elétricos, transmissão)”.
No México, a Ford também tem uma fábrica só para motores, e outra só para peças de transmissão. Elas estão mais distantes da fronteira com os EUA, mas seguem a mesma lógica: segmentar a produção entre fábricas da mesma empresa (ou de seus fornecedores) em países distintos. Significa que uma peça de veículo pode entrar e sair dos países várias vezes até o carro ficar pronto.
“Nós basicamente construímos a indústria ao redor dessa zona de livre comércio que existiu por tanto tempo”, explica Dan Hearsch, especialista da Alixpartners para o setor automotivo e industrial das Américas.
Como resultado, mesmo sem montadoras nacionais rivalizando por mercados ao redor do mundo, México e Canadá responderam por metade das importações de carros pelos EUA em 2024:
Agora, com o corredor polonês de tarifas, a livre circulação está seriamente ameaçada.
Bom, outros três países concentram 42% das importações nos EUA: a Coreia do Sul, que em 2024 assumiu o segundo lugar, com 19% do total, o Japão, com 17% e, em menor proporção, a Alemanha, origem de 6%.
Aqui, a importação tem um sentido mais “clássico”: esses três países têm uma série de montadoras de atuação global – Hyundai, Mercedes, Honda…
Elas também fabricam dentro dos EUA. Bastante. Dos 43 modelos da Honda vendidos no mercado americano em 2024, só um é montado no Japão. Outros 34 (ou 79% do total) são feitos nos EUA. Mas outros seis são montados no México e dois, no Canadá.
De todas as montadoras que vendem lá, só a Tesla tem 100% de seus modelos montados em território americano. E nenhum dos 544 modelos listados pelo governo americano tem todas as peças feitas nos Estados Unidos. Nem a Tesla.
Baderna tarifária
Por enquanto, a ordem executiva assinada por Trump no fim de março, com esse tarifaço, poupou as importações dentro do guarda-chuva do Acordo EUA-México-Canadá. Mas não para sempre. Essa espera é para que seja desenhado um sistema que identifique quais partes de um motor, por exemplo, foram fabricadas dentro dos Estados Unidos. Esse é o tamanho da bagunça.
E mesmo que cada peça do carro tenha nascido nos EUA e saiba cantar The Star-Spangled Banner de cor, também não significa que elas estejam imunes a tarifas.
Pois é. Aço e alumínio são matéria-prima da indústria automobilística, por óbvio. E estão sujeitos a outra taxa, também de 25%, caso venham de fora. Dependendo do tipo de aço, 90% do que os EUA consomem é forjado em outros países. Ou seja: não se trata de uma importação facilmente substituível. A de carros e peças, vimos aqui, também não é.
Enquanto durarem as tarifas, então, os carros serão mais caros para os americanos. Se tornarão bens de consumo menos acessíveis. Quem vive no Brasil sabe bem o que isso significa.