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Ameaça de Trump sobre a Groenlândia reacende a tensão comercial entre EUA e Europa

Tarifas anunciadas contra países europeus rompem trégua firmada em julho

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A fixação de Donald Trump com a Groenlândia voltou com tudo e deixou uma gélida mensagem a líderes europeus e de outros países: nenhum acordo é definitivo.

Trump anunciou uma tarifa de 10%, que subiria para 25% em junho, sobre oito países europeus — incluindo a Dinamarca — depois que eles disseram que realizariam exercícios militares simbólicos da Otan na Groenlândia, em resposta às ameaças vindas de Washington.

Embora não seja certo que as tarifas entrem em vigor, a ameaça foi vista como uma escalada ousada e um insulto a aliados próximos, atropelando o acordo comercial entre EUA e União Europeia firmado apenas seis meses antes, no resort de Trump em Turnberry, na Escócia.

Os alvos europeus reagiram rapidamente. O primeiro-ministro britânico Keir Starmer classificou a ameaça como “completamente errada”. O presidente francês Emmanuel Macron chamou a medida de “inaceitável”. O premiê sueco Ulf Kristersson afirmou que seu país não será “chantageado”.

Um parlamentar europeu de alto escalão defendeu a suspensão da trégua comercial firmada com Trump em julho, e embaixadores dos países da União Europeia devem se reunir no domingo para discutir os próximos passos do bloco, segundo uma pessoa familiarizada com o assunto. Macron estaria tentando acionar o instrumento anti-coerção da UE — a ferramenta de retaliação mais poderosa do bloco — contra a ameaça tarifária, disse uma fonte próxima ao presidente francês.

A ofensiva tarifária também evidenciou algumas lições emergentes do segundo governo Trump: nada está fora de negociação, alianças são tratadas com desconfiança e poder e alavancagem são soberanos.

“Quem achava que o segundo ano seria um período de estabilidade tarifária deveria reconhecer que isso está se parecendo muito com o primeiro ano”, disse Josh Lipsky, presidente da área de economia internacional do Atlantic Council. “Haverá reação unificada: primeiro, porque a Europa está muito coesa em torno da Groenlândia; segundo, porque já pagou um alto preço político pelo acordo de Turnberry.”

A União Europeia é a maior fonte de importações dos EUA

As tarifas anunciadas por Trump atingiriam Dinamarca, Noruega, Suécia, França, Alemanha, Reino Unido, Holanda e Finlândia. O anúncio ocorreu no momento em que protestos tomavam as ruas da Dinamarca contra qualquer tentativa de controle americano sobre a Groenlândia.

Trump fez a ameaça mesmo depois de esses países — todos aliados históricos dos EUA e membros da Otan — anunciarem o envio de apenas algumas dezenas de soldados para exercícios conjuntos na ilha.

“Não estamos falando do Irã, estamos falando da Dinamarca”, disse Scott Lincicome, analista do instituto Cato. “Isso vai irritar muita gente.”

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Os senadores americanos Thom Tillis (republicano) e Jeanne Shaheen (democrata) divulgaram uma nota conjunta pedindo que o governo Trump “desligue as ameaças e ligue a diplomacia”.

Os presidentes do grupo do Senado voltado para a Otan escreveram: “Continuar por esse caminho é ruim para os EUA, ruim para as empresas americanas e ruim para nossos aliados”.

Não está claro se Trump realmente considera uma invasão da Groenlândia, embora ele tenha deixado essa possibilidade em aberto diversas vezes. Em entrevista à BBC exibida no domingo, o presidente da Câmara dos Representantes, Mike Johnson, disse não acreditar em intervenção militar e afirmou que a diplomacia “é o caminho”.

“A Groenlândia tem importância estratégica por sua geografia e localização — não só para os EUA, mas para todos que valorizam a liberdade”, disse Johnson. “Vivemos tempos perigosos.”

Mas um dos principais assessores de Trump, falando à Fox News na sexta-feira, acusou a Europa de se aproveitar dos EUA e afirmou que o destino da Groenlândia deveria refletir quem tem poder para protegê-la. Isso apesar de que, como parte da Dinamarca, qualquer ataque à ilha poderia acionar o Artigo 5 da Otan — a cláusula de defesa coletiva que obrigaria os próprios EUA a reagir.

“A Dinamarca é um país pequeno, com economia pequena e forças armadas pequenas. Eles não conseguem defender a Groenlândia”, disse Stephen Miller, vice-chefe de gabinete da Casa Branca. “Para controlar um território, é preciso ser capaz de defendê-lo, desenvolvê-lo e ocupá-lo. A Dinamarca falhou em todos esses testes.”

A Comissão Europeia afirmou que, por ser parte da Dinamarca, a Groenlândia também estaria protegida pela cláusula de solidariedade do tratado da União Europeia.

O resultado é que membros da Otan agora enfrentam pressão econômica de um país do próprio bloco para apoiar, ainda que indiretamente, uma possível tomada forçada de território — algo extraordinário mesmo para os padrões da política transacional de Trump.

Mudança de cálculo

Até agora, líderes europeus vinham tentando evitar confrontos diretos com Trump, priorizando acordos e concessões para preservar o apoio militar e de inteligência dos EUA à Ucrânia.

Mas a questão da Groenlândia pode mudar esse cálculo. A premiê italiana Giorgia Meloni, que vinha tentando equilibrar a relação com Trump, chamou a ameaça de tarifas de “erro” e defendeu a retomada do diálogo após conversar com o presidente americano.

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A Irlanda também reagiu com dureza. A ministra das Relações Exteriores, Helen McEntee, disse que a medida é “completamente inaceitável” e que o respeito à soberania e à integridade territorial é “inegociável”.

Até agora, muitos aliados acreditavam que ceder a Trump trazia previsibilidade econômica. Mas, segundo Lincicome, essa lógica se mostrou equivocada. “O único governo que conseguiu fazer Trump recuar foi a China — e isso aconteceu por meio de retaliações agressivas.”

As tarifas ligadas à Groenlândia podem nunca entrar em vigor. Trump pretende usar uma lei cuja constitucionalidade está sendo analisada pela Suprema Corte, o que pode limitar seus poderes para impor tarifas rapidamente.

Tanto Lipsky quanto Lincicome avaliam que a probabilidade de as tarifas entrarem em vigor em fevereiro é baixa. “Não é impossível, mas é improvável”, disse Lipsky. Ainda assim, não está claro o que a Europa poderia oferecer em troca para evitar a medida.

A ameaça também provocou reação dentro dos EUA. O deputado republicano Don Bacon disse que o Congresso deveria recuperar os poderes tarifários concentrados por Trump e afirmou que uma invasão da Groenlândia poderia levar ao impeachment.

O senador democrata Ron Wyden chamou a ameaça de “fantasia imperial sem sentido”. O líder democrata no Senado, Chuck Schumer, afirmou que seu partido apresentará um projeto para impedir Trump de impor as tarifas.

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