A solução para os problemas de Henry Ford era pouco convencional, até beirando o radical para alguns de seus colegas. Contrariava todos os seus instintos de empresário.

Mas, uma vez tomada a decisão, ele desencadeou uma revolução.

“Nova era industrial é inaugurada pela divisão de lucros da Ford com seus operários”, escreveu o jornal Detroit Free-Press em 6 de janeiro de 1914, depois que a Ford Motor dobrou seu salário mínimo para US$ 5 por dia (cerca de US$ 165 em valores atuais), ante US$ 2,34. “Plano para dividir US$ 10 milhões em lucros entre 26.500 empregados é estupendo.”

O Five-Dollar Day, parte golpe publicitário, parte tática empresarial implacável, deu o pontapé inicial numa revolução do consumo que catapultou a economia americana à dominância global no século 20 e ainda a impulsiona hoje.

A coisa começou com uma premissa simples.

“Nossa teoria, de que o homem que varre o chão merece US$ 5 por oito horas de trabalho, não é apenas bom negócio, é justiça social”, disse Ford em meio à aclamação popular generalizada.

A ideia de que empregados bem remunerados se tornam ávidos consumidores que, em ciclo virtuoso, sustentam empresas lucrativas, guiou a indústria americana por boa parte do século 20.

“Mais do que qualquer outra companhia, a Ford foi identificada com uma nova era de capitalismo de salários altos”, escreve Michael Lind em Land of Promise: An Economic History of the United States. “O que ficou conhecido como ‘fordismo’ foi celebrado mundo afora como método de assegurar que a demanda de massa acompanhasse a produção em massa.”

O fordismo incluía melhores condições de trabalho e benefícios, e foi praticado por corporações da General Electric e da AT&T até a McCormick Spice (rede de temperos) e a Sears Roebuck (rede de varejo de departamentos).

Mas empregados bem tratados saem caro, e nem todo mundo está disposto a pagar.

“Se o Ford quer se divertir, tudo bem”, disse Joseph J. Cole, fabricante de automóveis rival. “Ele pode bancar. Os outros não.”

E aí está o problema.

O trabalho industrial nos primórdios era repetitivo, fisicamente desgastante e mentalmente debilitante. Isso, somado a salários baixos, condições péssimas e práticas brutais de gestão, limitava o apelo da atividade. Os homens fugiam aos montes.

Na fábrica da Ford em Highland Park, no Estado de Michigan, em 1913, o absenteísmo médio era de 10% ao dia, e o turnover anual chegava a 370%. Isso minava a eficiência, e a máxima de Ben Franklin de que “tempo é dinheiro” vale especialmente para as margens apertadas da produção em massa.

Retenção

O plano de participação nos lucros foi uma tentativa de resolver esse problema custoso. Foi ideia de John R. Lee, conselheiro de Ford e um dos primeiros adeptos da gestão “científica”.

“Um homem que sai de um lar equilibrado, que não teme pelo sustento dos que dependem dele e que não vive em constante pavor de perder o emprego por razões fora de seu controle é o fator econômico mais poderoso que podemos ter na forma de um ser humano”, escreveu Lee.

Lee convenceu Henry Ford de que o plano ajudaria a atrair e reter trabalhadores confiáveis. Ferrenho antissindicalista, Ford também esperava que a medida desestimulasse tentativas de organização sindical.

Os concorrentes enxergaram a iniciativa como tentativa descarada da gigante do setor (quase metade dos 400 mil carros produzidos em 1913 saiu da Ford) de sufocar os rivais. E, de fato, esse pensamento passou pela cabeça de Henry Ford.

Críticos diziam que o “Departamento de Serviços” da companhia, criado para zelar para que os trabalhadores se mantivessem “sóbrios e diligentes”, não passava de uma polícia secreta.

Quanto à propaganda, o Wall Street Journal sugeriu que “dez milhões não comprariam a publicidade” que a Ford obteve com a iniciativa.

Henry Ford descreveu o Five-Dollar Day em termos raramente usados por magnatas industriais.

“Acreditando, como acreditamos, que a divisão de nossos ganhos entre capital e trabalho é desigual, buscamos um plano de remediação adequado para nosso negócio”, disse Ford a repórteres reunidos em seu escritório.

Wall Street ficou cética, quase em pânico.

“Ford cometeu, em seu esforço social, equívocos econômicos, para não dizer crimes”, opinou o Wall Street Journal em 7 de janeiro de 1914. “Eles podem voltar a atormentá-lo, à indústria que ele representa e à sociedade organizada.”

Não houve atormentação. Concorrentes como a General Motors, então a segunda maior do setor, foram forçados a elevar salários, mesmo sem alcançar os US$ 5. Outros setores seguiram o exemplo.

Nos anos 1920, à medida que as técnicas de produção em massa se universalizavam, a economia americana decolou e a cultura de consumo tomou forma.

Além dos carros, maravilhas como geladeiras, rádios e máquinas de lavar se tornaram corriqueiras. Em 1916, Clarence Saunders inventou o supermercado de autosserviço com a rede Piggly Wiggly. Cinco anos depois, o White Castle abriu a primeira hamburgueria fast-food. Montgomery Ward, Macy’s e Sears, Roebuck prosperaram, junto com a RCA (eletrodomésticos e rádios) e o beisebol da liga profissional.

A Grande Depressão desacelerou, mas não interrompeu a cultura de consumo, com marcas como F.W. Woolworth e Paramount Pictures oferecendo alívio às massas. O “Século Americano” decolou de fato com a vitória na Segunda Guerra Mundial e a prosperidade do pós-guerra.

A ideia de que os trabalhadores eram ativos valiosos, a serem preservados, também pegou.

Henry Ford, em uma foto de 1907
Henry Ford, em uma foto de 1907 (Wikimedia Commons)

A jornada de oito horas, inaugurada pela Ford no Five-Dollar Day, virou padrão. Férias remuneradas foram introduzidas, assim como planos de aposentadoria. Programas de treinamento gerencial passaram a ser marca registrada de uma boa empresa.

Um produto do fordismo foi o Organization Man (Homem da Corporação), aquele profissional contratado, treinado e empregado por toda a vida pela mesma companhia, que se tornou, nas palavras de William H. White Jr. em seu best-seller de 1956, “a mente e a alma de nossas grandes instituições autoperpetuantes”.

Uma nova revolução

Mas o tapete foi puxado debaixo dos pés desses “homens da corporação” a partir dos anos 1970. O surgimento de mercados de mão de obra barata no exterior, somado à revolução do transporte por contêineres intermodais, criou uma nova equação de emprego.

A offshoring, ou transferência de manufatura e operações para o exterior, se provou mais barata do que investir em trabalhadores americanos. E os setores de serviços, que hoje dominam a economia dos EUA, tratam seus empregados como peças intercambiáveis.

Com seus “salários baixos e ausência de benefícios”, escreve o historiador econômico Lind, “o Walmart representou o antifordismo”.

A gig economy (economia de “bicos”) entrou para o vocabulário em 2009, à medida que cada vez mais pessoas passaram a juntar dois ou mais bicos de meio período, sem benefícios, para fechar o orçamento.

Ciclista entregador do iFood, de costas, pedalando em uma rua urbana ensolarada.

É uma realidade muito distante da do organization man e mais ainda do trabalhador ideal de John R. Lee, “aquele que não teme pelo sustento”. Hoje, muitos vivem no temor constante do sustento.

Vemos também emergir uma economia em formato de K, em que o crescimento da riqueza e do consumo é puxado pelos lares de renda mais alta. Os salários mal acompanham a inflação, e a confiança do consumidor está em mínima histórica.

Nada que um grande plano de participação nos lucros não pudesse resolver, se houvesse algum Henry Ford moderno por aí interessado em restaurar o equilíbrio entre capital e trabalho. Algum candidato?