Em discurso no Fórum Econômico Mundial, em Davos, nesta quarta-feira (21), após dias de tensões transatlânticas provocadas por seus planos, Trump disse buscar “negociações imediatas” para adquirir o território soberano dinamarquês por razões de segurança nacional.
O presidente descartou o uso de força militar, mas insinuou que levaria em conta a resposta da Europa às suas demandas ao avaliar, daqui para frente, o compromisso dos EUA com a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). “Vocês podem dizer sim, e ficaremos muito agradecidos, ou podem dizer não, e nós vamos nos lembrar”, afirmou o presidente.
A reação imediata da Dinamarca foi “não”.
“Não entraremos em negociações com base na renúncia a princípios fundamentais”, disse em Copenhague o ministro das Relações Exteriores da Dinamarca, Lars Løkke Rasmussen. “Isso é algo que jamais faremos.” Segundo ele, “é evidente” que os dinamarqueses rejeitam claramente a ideia de ceder a Groenlândia aos EUA.
Trump, porém, classificou o pedido como “pequeno” em comparação ao escudo de defesa que os Estados Unidos oferecem aos países da Otan há décadas. “O que estou pedindo é um pedaço de gelo, frio e mal localizado, que pode desempenhar um papel vital na paz mundial e na proteção global”, disse.
O discurso de Trump foi acompanhado de perto em busca de sinais de recuo em suas exigências de assumir o controle da maior ilha do mundo, após forte resistência de diversos aliados — do Leste Europeu aos países nórdicos, além de potências como Alemanha, França e Reino Unido. Líderes da União Europeia planejam uma cúpula extraordinária para discutir uma resposta às ameaças de Trump envolvendo a Groenlândia e tarifas associadas a países europeus que se oponham a ele.
Ainda assim, sua promessa de não usar a força deve provocar algum alívio em capitais europeias e em Wall Street. “Essa provavelmente foi a maior declaração que fiz, porque as pessoas achavam que eu usaria a força”, disse Trump. “Não preciso usar a força. Não quero usar a força. Não vou usar a força.”
O presidente da Finlândia, Alexander Stubb, disse à emissora YLE que a retirada da opção militar da mesa significa que “a catástrofe foi evitada”, e que o trabalho diplomático deve avançar no fortalecimento da segurança no Ártico.
No discurso, Trump dobrou a aposta em seus objetivos, criticando as democracias liberais europeias, as políticas de seus governos, a eficácia da Otan e atacando líderes individualmente, como Mark Carney, do Canadá, e Emmanuel Macron, da França.
Diante da inflexibilidade de Washington, o governo da Groenlândia já estaria se preparando para um cenário de invasão, embora isso ainda seja visto como improvável. O Exército do Canadá, por sua vez, modelou como responderia a uma invasão americana depois que Trump falou publicamente sobre o país como um possível 51º estado, segundo o jornal Globe and Mail.
O chanceler dinamarquês Rasmussen não assistiu ao discurso em Davos, pois participava de uma reunião do comitê de relações exteriores do Parlamento em Copenhague, mas disse ter sido informado sobre o conteúdo.
“O que fica claro após esse discurso é que a ambição do presidente [de possuir a Groenlândia] permanece intacta”, afirmou a jornalistas. “É positivo, isoladamente, que se diga que a força militar não será usada, mas isso não elimina o problema. O desafio continua.”
A Dinamarca planeja seguir pelo caminho diplomático acordado na semana passada em Washington, acrescentou Rasmussen, destacando que “em 2026, não se troca pessoas, negocia-se com pessoas”.
Em alguns momentos, o discurso de Trump saiu do roteiro. Ele afirmou que os EUA estabeleceram bases militares na Groenlândia de forma altruísta durante a Segunda Guerra Mundial, antes de reconhecer, instantes depois, que isso atendia aos próprios interesses do país. Também se referiu repetidamente à Groenlândia como Islândia.
O cerne do argumento de Trump, porém, foi que os EUA precisariam de controle total da ilha por ela ser crucial para a implantação do sistema de defesa antimísseis “Golden Dome”.
“A Groenlândia é um território vasto, quase totalmente desabitado, indefeso e situado em uma posição estratégica fundamental entre Estados Unidos, Rússia e China”, disse. “É exatamente onde fica, bem no meio.”
Ao apresentar a aquisição americana da Groenlândia como essencial para a segurança coletiva, Trump minimizou o risco que isso representaria para a Otan.
“Provavelmente não conseguiremos nada a menos que eu decida usar força e poder excessivos, situação em que seríamos, francamente, imparáveis”, disse. “Mas não vou fazer isso.”
Ao mesmo tempo, a ameaça velada de Trump de “lembrar” da Europa e da Otan caso não o ajudem a fechar um acordo ocorre em meio à postura agressiva do presidente russo Vladimir Putin, amplamente visto como alguém que pode ter ambições territoriais na Europa além da Ucrânia.
Em uma conversa após o discurso, Trump evitou detalhar que tipo de acordo imagina para o futuro da Groenlândia, reforçando a ideia de que o território é caro demais para a Dinamarca administrar e reiterando críticas à Otan.
“Vamos ver o que acontece. Só digo o seguinte: a Otan tratou os Estados Unidos de forma muito injusta”, afirmou. “Nunca pedimos nada. Nunca recebemos nada.”
Forças da Otan, inclusive dinamarquesas, acompanharam os EUA em diversas operações militares, como a missão no Afeganistão após os ataques de 11 de setembro de 2001 e a guerra do Iraque.
Trump argumentou que seria impraticável proteger um território que não estivesse sob controle americano.
“Quem diabos quer defender um contrato de licença ou um arrendamento?”, disse, acrescentando que “é preciso ter a propriedade para defendê-la”.
Ele também citou o apoio dos EUA à Ucrânia contra a invasão russa como exemplo do que considera uma relação transatlântica desigual, defendendo que o ônus do apoio a Kiev recaia sobre a Europa.
“Os Estados Unidos estão muito longe. Temos um oceano grande e bonito nos separando. Não temos nada a ver com isso”, disse Trump.
Nos últimos dias, líderes europeus vêm discutindo como responder às exigências de Trump, inclusive com retaliações econômicas, mas o presidente americano tem descartado essas ameaças, sugerindo que os aliados têm mais a perder ao se opor à sua agenda.
Ele também fez um alerta duro à Europa, dizendo que os governos do continente estão ficando para trás em relação aos EUA e que seus líderes precisam emular seu modelo para atender melhor seus cidadãos.
“Eu amo a Europa e quero ver a Europa prosperar, mas ela não está indo na direção certa”, afirmou.
