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Inflação sobe em abril e aumenta dúvidas sobre novos cortes de juros

Composição do índice segue pressionada por alimentos, combustíveis e serviços, reforçando a cautela do Banco Central

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A inflação brasileira subiu em abril, o que reforça a percepção de que o Banco Central deverá manter cautela na condução da política monetária nos próximos meses. O movimento também aumenta as dúvidas sobre o espaço para novos cortes de juros neste ano, diante de uma inflação ainda resistente e com sinais de pressão disseminada na economia.

O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) subiu 0,67% em abril, segundo dados divulgados nesta terça-feira (12) pelo IBGE, praticamente em linha com a expectativa mediana do mercado, de 0,68%. Em 12 meses, a inflação acumulada avançou para 4,39%, ante 4,14% em março, aproximando-se do teto da meta contínua do Banco Central, de 4,5%.

Os principais vetores de alta vieram de alimentos e combustíveis. Os preços de alimentação e bebidas subiram 1,34% no mês, enquanto os custos de transporte avançaram com a alta da gasolina, ainda que em ritmo menor do que o esperado pelos analistas. O reajuste sazonal de medicamentos também contribuiu para pressionar o índice.

Embora o número tenha vindo próximo das projeções, economistas destacaram a piora qualitativa da inflação, com pressão persistente em serviços, alimentação e combustíveis — itens considerados mais sensíveis para as decisões do Banco Central.

Para Antonio Ricciardi, economista do Banco Daycoval, o resultado mantém o cenário de inflação pressionada observado nos últimos meses e reforça um sinal de alerta para o BC. Segundo ele, combustíveis seguem pressionados pelo conflito no Oriente Médio, enquanto alimentação continua refletindo fatores climáticos e custos mais elevados.

“A possível continuidade do conflito no Oriente Médio e um El Niño mais forte do que o esperado no segundo semestre fazem com que nossa projeção de 4,7% para o IPCA tenha viés de alta”, afirmou.

Itens ligados a serviços, como alimentação fora do domicílio, serviços intensivos em mão de obra e consertos automotivos, continuam pressionados, mantendo os núcleos de inflação em patamares elevados.

Na avaliação de Claudia Moreno, economista do C6 Bank, o IPCA de abril veio acima da projeção da instituição, de 0,63%, e mostrou uma inflação “alta para o mês”. A gasolina subiu 1,86%, enquanto a alimentação no domicílio avançou 1,64%, ambos com peso relevante no índice. Moreno afirmou que chuvas acima da média afetaram produtos in natura e que os efeitos do conflito no Oriente Médio sobre fretes e fertilizantes também podem ter contribuído para a alta dos combustíveis e dos alimentos.

O C6 Bank disse que as medidas de inflação consideradas mais importantes pelo Banco Central continuam pressionadas. Os chamados núcleos de inflação — que excluem itens mais voláteis — aceleraram nos últimos meses, enquanto os preços de serviços seguem em patamares elevados. Isso reforça a percepção de que a inflação continua disseminada pela economia, o que dificulta o processo de convergência para a meta.

O Itaú Unibanco também avaliou que o IPCA teve uma composição pior do que a esperada, com pressão persistente nos serviços e nos núcleos de inflação. Segundo o banco, o resultado reforça a percepção de uma inflação mais resistente, mesmo com juros elevados.

O Itaú projeta IPCA de 5,2% neste ano e afirma que o balanço de riscos para a inflação segue “assimétrico para cima”, ou seja, com maior probabilidade de novas altas do que de desaceleração dos preços. No mercado, o dado reforçou a percepção de menor espaço para flexibilização monetária no curto prazo. Os contratos de swap de juros com vencimento em janeiro de 2029 avançaram mais de 10 pontos-base após a divulgação do índice.

Petróleo

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O choque do petróleo provocado pela guerra no Irã também passou a entrar de forma mais clara nas projeções dos economistas. A alta das commodities energéticas eleva preocupações com combustíveis, fretes e custos de produção, aumentando o risco de novos repasses para a inflação nos próximos meses.

Nesse cenário, parte do mercado já começa a discutir se o Banco Central poderá interromper ou desacelerar o ciclo de afrouxamento monetário caso a inflação siga pressionada no segundo semestre.

A economista Adriana Dupita, da Bloomberg Economics, afirmou que as medidas de inflação mais acompanhadas pelo Banco Central — especialmente serviços e indicadores de núcleo — seguem em patamar elevado, acima de 5% ao ano, sem sinais claros de desaceleração. Segundo ela, esse quadro reforça a necessidade de cautela na condução da política monetária.

Já Andres Abadia, economista-chefe para América Latina da Pantheon Macroeconomics, afirmou que uma nova alta de juros no fim do ano “não pode ser descartada” caso as pressões inflacionárias continuem se espalhando pela economia.

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