Navios petroleiros à deriva no Golfo Pérsico podem ser o símbolo mais visível do impacto econômico da guerra, mas os efeitos começam a se espalhar para áreas menos óbvias, afetando agricultores americanos, fabricantes de chips na Ásia e produtores de medicamentos na Europa.
O conflito provocou um choque nas cadeias de suprimento que vem pressionando a economia global e elevando a inflação. Os Estados Unidos, até agora, parecem relativamente protegidos, em parte por conta de sua forte produção doméstica de energia e químicos. Embora os preços da gasolina tenham subido, não há filas em postos como na crise energética dos anos 1970.
Ainda assim, o economista Mark Zandi, da Moody’s, afirmou nesta semana que a guerra, combinada com o enfraquecimento do mercado de trabalho americano, elevou a probabilidade de uma recessão no próximo ano para um nível “desconfortavelmente alto” de 49%.
O restante do mundo enfrenta uma situação mais difícil. O maior impacto, em termos financeiros, vem da energia. A guerra interrompeu o acesso a cerca de 20% do petróleo global e a volumes semelhantes de gás natural liquefeito que normalmente passam pelo Estreito de Ormuz, que liga o Golfo Pérsico ao restante do mundo. Desde o início do conflito, o preço do petróleo subiu cerca de 50%.
Inflação em risco
Mas os efeitos sobre outras commodities começam a causar problemas relevantes. A ureia, fertilizante essencial, e o hélio, usado na produção de microchips, estão em falta. O alumínio, que já enfrentava déficit antes da guerra, está se tornando ainda mais escasso e caro com a redução da produção no Oriente Médio.
Alguns desses insumos foram diretamente afetados por ataques – instalações no Catar que produzem hélio, enxofre e gás natural liquefeito foram atingidas e podem ficar fora de operação por anos.
“Grande parte das pessoas está focada no mercado de energia, mas o impacto é muito mais amplo”, disse Chris Tang, professor da Universidade da Califórnia em Los Angeles. “As pessoas estão apenas começando a perceber isso.”
O impacto final sobre a economia global depende da duração da guerra, segundo economistas e especialistas em cadeias de suprimento.
Uma resolução rápida – em três a cinco semanas – elevaria a inflação, mas teria efeito limitado sobre o crescimento global. Já em um cenário mais prolongado, os riscos aumentam.
Caso o Irã consiga bloquear o Estreito de Ormuz por meses e o petróleo permaneça acima de US$ 100, o crescimento global pode ser reduzido em cerca de 1 ponto percentual neste ano, segundo estimativas de economistas.
Outros problemas
Algumas regiões enfrentam riscos mais severos e podem entrar em recessão mais rapidamente. Ásia e Europa são as mais expostas no curto prazo. Historicamente, cerca de 80% do petróleo e do gás natural que passam pelo Estreito de Ormuz têm como destino a Ásia.
Na região, governos já adotam medidas emergenciais. A Índia enfrenta escassez de gás usado para cozinhar e abastecer fábricas, e limitou o consumo industrial. Restaurantes chegaram a fechar por falta de combustível.
O Sri Lanka declarou feriados semanais para economizar energia, enquanto Bangladesh antecipou o fechamento de universidades e o Paquistão restringiu o uso de combustíveis por empresas.
Setores afetados
A crise também começa a afetar setores específicos. Na indústria de tecnologia, empresas de semicondutores na Coreia do Sul e em Taiwan enfrentam risco de escassez de hélio, gás essencial para a produção de chips.
O mercado de alumínio também foi afetado. Produtores no Oriente Médio, responsáveis por cerca de 9% da produção global, enfrentam dificuldades para exportar. Com a oferta reduzida, os preços tendem a subir, impactando produtos que vão de automóveis a painéis solares.
Na agricultura, o impacto é imediato. Os preços da ureia subiram mais de 30% desde o início da guerra, elevando o custo de produção para agricultores. Nos Estados Unidos, produtores de milho já enfrentam anos consecutivos de dificuldades financeiras, e a alta de custos pode pressionar ainda mais os preços dos alimentos.
Até mesmo a cadeia de suprimentos de medicamentos começa a sofrer. O Oriente Médio funciona como um hub logístico importante para a distribuição de remédios entre a Ásia e a Europa.
Com aeroportos fechados, empresas farmacêuticas estão sendo forçadas a buscar rotas alternativas, elevando custos e aumentando o risco de interrupções no fornecimento de medicamentos críticos.
Os efeitos completos da crise ainda não apareceram. O transporte marítimo entre o Oriente Médio e a Ásia leva cerca de duas semanas, e o conflito começou há pouco mais de duas semanas.
Ou seja, o impacto pode se intensificar nas próximas semanas, dependendo da duração do bloqueio no Estreito de Ormuz. “O tempo é o inimigo para o cenário macroeconômico”, disse Joyce Chang, do JPMorgan.
Mesmo com uma eventual resolução do conflito, analistas já esperam mudanças duradouras nas cadeias globais de suprimento, com maior diversificação de fornecedores e menor dependência do Oriente Médio.
