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Navios começam a voltar ao Mar Vermelho em marco relevante para o comércio global

A decisão da Maersk de retomar rotas pelo Canal de Suez sinaliza maior confiança na segurança da região, mas pode pressionar fretes e receitas do setor

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Após mais de dois anos evitando o Mar Vermelho, as principais companhias globais de transporte de contêineres começam a retornar gradualmente a essa rota vital para o comércio leste-oeste, indicando que ela voltou a parecer segura para navegação.

A A.P. Moller-Maersk informou na quinta-feira (15) que está redirecionando um serviço regular pelo Canal de Suez, sinal de que a segunda maior transportadora do mundo está mais confiante de que os riscos de ataques ligados ao conflito na região diminuíram. Antes, a rota contornava o sul da África porque os houthis, baseados no Iêmen, atacaram navios que transitavam pela área em protesto contra a guerra de Israel em Gaza.

“Parece ser uma indicação de que podemos começar a ver uma normalização mais ampla após o Ano Novo Chinês”, afirmou Lars Jensen, diretor-presidente da Vespucci Maritime, referindo-se ao feriado que neste ano ocorre na segunda metade de fevereiro. “As outras transportadoras vão observar isso e provavelmente começar a planejar seu próprio retorno.”

Embora distâncias mais curtas ajudem o comércio global a fluir com mais eficiência, elas também aumentam, na prática, a capacidade do transporte marítimo, já que os navios precisam de menos tempo para realizar suas entregas — o que pode pressionar as tarifas spot de contêineres e a receita das empresas de navegação. Em 2023, mais de US$ 2 trilhões em comércio passaram pela região em navios, segundo dados da Clarkson Research Services Ltd.

Um serviço da Maersk que liga a Índia e os Emirados Árabes Unidos às costas Leste e do Golfo dos Estados Unidos passará por uma “mudança estrutural”, de acordo com um comunicado. Essa alteração começou com um navio no sentido oeste que deixou o porto de Jebel Ali, em Dubai, na quinta-feira. O primeiro navio no trajeto de retorno pelo Canal de Suez partiu de Savannah, no estado da Geórgia, no início desta semana.

A Maersk classificou o movimento como um “marco significativo”, acrescentando que há um plano de contingência “caso a situação de segurança se deteriore” e seja necessário voltar a contornar o Cabo da Boa Esperança para garantir a segurança da tripulação.

O sinal verde dado pela empresa sediada em Copenhague para um ciclo completo de operações ocorre após duas viagens individuais e movimentos semelhantes de concorrentes. Cinco navios operados pela MSC Mediterranean Shipping Co. SA e pela CMA CGM SA, com sede em Marselha, transitaram recentemente pelo Canal de Suez, segundo a Drewry Shipping Consultants.

A MSC, com sede em Genebra, é a maior transportadora do mundo, enquanto a CMA CGM ocupa a terceira posição. Porta-vozes de ambas, que são empresas de capital fechado, não responderam imediatamente aos pedidos de comentário. Juntas, as três maiores companhias respondem por cerca de 48% da capacidade global, de acordo com levantamento da Alphaliner.

‘Ponto de virada’

“Em geral, a Maersk tem sido a mais avessa a riscos entre as grandes transportadoras no que diz respeito a um retorno ao Mar Vermelho, portanto este é um ponto de virada”, disse Peter Sand, analista-chefe da Xeneta, uma plataforma digital de fretes com sede em Oslo. “Os serviços anunciados pela Maersk como retornando ao Canal de Suez envolvem navios menores, operando fora de uma aliança, mas o fato de ser a Maersk a tomar essa decisão é altamente significativo.”

Na semana encerrada no domingo, um pico de cinco semanas levou 26 navios porta-contêineres a cruzarem o canal egípcio, acima dos 10 da semana anterior, mas ainda bem abaixo da média semanal de cerca de 80 embarcações antes do início dos desvios no fim de 2023, segundo nota de pesquisa da Drewry.

Analistas alertam que a revisão completa de todos os cronogramas para o padrão normal deve levar vários meses para a frota global de contêineres e dependerá da manutenção da estabilidade na situação de segurança.

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“Isso marca um passo na direção certa, mas um retorno total pode não ser iminente”, afirmou Jorgen Lian, analista de ações da DNB Carnegie. “Tudo depende de como isso vai evoluir, porque ainda está, naturalmente, condicionado à ausência de novas hostilidades.”

Cinco meses

Sand estimou que pode levar de três a cinco meses para que os cronogramas do Canal de Suez sejam totalmente restabelecidos.

As companhias de navegação indicaram que farão a transição de forma gradual para evitar congestionamentos portuários causados por mudanças nos cronogramas e para impedir que o excesso de capacidade leve as tarifas spot a níveis não rentáveis. Elas também não querem prejudicar a confiabilidade das operações, mudando a rota e tendo de alterá-la novamente caso a situação de segurança piore.

Além das pressões do lado da oferta, o cenário de demanda está enfraquecendo para as transportadoras, já que o comércio global de bens deve desacelerar neste ano após um desempenho sólido em 2025. A Oxford Economics projetou na quinta-feira que o comércio mundial de bens crescerá 1,7% em 2026, uma desaceleração acentuada em relação aos 4,9% de 2025.

As tarifas de frete “já estavam sob pressão devido a dinâmicas desafiadoras de oferta e demanda e podem cair ainda mais”, escreveram analistas de transporte da Bloomberg Intelligence em nota de pesquisa.

Os desvios em relação ao Mar Vermelho, que absorveram cerca de 7% da capacidade global de contêineres, sustentaram as tarifas de transporte e reforçaram os ganhos das companhias nos últimos dois anos.

As ações da Maersk caíram mais de 5% na quinta-feira, enquanto a alemã Hapag-Lloyd AG — parceira da Maersk na aliança de compartilhamento de navios Gemini — recuou mais de 3%. Ambas voltaram a cair na sexta-feira.

“O impacto sobre a capacidade é modesto, mas o sinal é relevante”, escreveram analistas da Clarksons Securities, incluindo Frode Morkedal, em referência ao anúncio mais recente da Maersk. Ainda assim, permanece um risco estrutural, dado o potencial de mudanças na política do Irã em relação ao Estreito de Hormuz, acrescentaram.

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