A Moller-Maersk, a Hapag-Lloyd e a francesa CMA CGM informaram que estão suspendendo a passagem ou redirecionando serviços para longe de Suez, refletindo temores de que rebeldes iemenitas apoiados pelo Irã retomem ataques a embarcações no sul do Mar Vermelho.
Autoridades egípcias observavam com cautela uma possível recuperação neste ano, depois que a Maersk e outras companhias haviam sinalizado anteriormente que retornariam integralmente ao atalho entre Ásia e Europa, amplamente evitado desde o fim de 2023.
O Cairo estima ter perdido cerca de US$ 9 bilhões em receitas potenciais de pedágio devido às interrupções causadas pelos houthis, que atacaram navios internacionais para pressionar Israel em razão da guerra em Gaza.
Os ataques dos EUA e de Israel contra o Irã “e as ações retaliatórias subsequentes levarão a uma maior instrumentalização do comércio e destruirão as esperanças de um retorno em larga escala do transporte de contêineres ao Mar Vermelho em 2026”, afirmou Peter Sand, analista-chefe da Xeneta, plataforma digital de fretes com sede em Oslo.
O desdobramento evidencia os fortes efeitos colaterais do mais recente conflito no Oriente Médio sobre economias distantes do epicentro da guerra. O Egito, maior país árabe em população e dependente de importações, tem se mostrado especialmente vulnerável a esse tipo de turbulência — fator que contribuiu para a obtenção de um pacote global de resgate de US$ 57 bilhões no início de 2024, quando a guerra em Gaza estava em curso.
Os militantes houthis do Iêmen haviam suspendido os ataques a navios após um cessar-fogo entre Israel e o Hamas em outubro. Horas depois de EUA e Israel lançarem ataques contra o Irã no sábado, a Associated Press citou dois oficiais rebeldes dizendo que o grupo retomaria as ofensivas. Até o momento, não há confirmação de que a ameaça tenha sido concretizada.
À medida que o conflito se ampliou com ataques iranianos com mísseis e drones em todo o Golfo, o principal índice acionário do Egito recuou e a libra egípcia caiu ao nível mais fraco desde julho. Importador de gás natural israelense, o país também busca garantir remessas alternativas de energia após Israel fechar temporariamente alguns campos.
Por que o Canal de Suez é importante?
Historicamente, o Canal de Suez figura entre as cinco maiores fontes de divisas do Egito, ao lado do turismo e das remessas de trabalhadores no exterior. Dados do Banco Central mostram que a receita atingiu o recorde de cerca de US$ 9,6 bilhões em 2023, antes de cair para aproximadamente US$ 3,6 bilhões no ano seguinte, com o afastamento do transporte marítimo internacional.
Com a receita do canal já “deprimida” nos últimos anos, é improvável que os anúncios mais recentes tenham impacto macroeconômico significativo, segundo Mohamed Abu Basha, chefe de análise macroeconômica do banco de investimento EFG Hermes.
“As receitas de remessas, exportações não petrolíferas, turismo e investimento estrangeiro direto têm compensado bem”, afirmou. Embora a arrecadação do canal estivesse começando a se recuperar nos últimos meses, isso ocorria “a partir de uma base muito baixa”.
O Bank of America afirmou na segunda-feira que o Egito está “vulnerável devido ao posicionamento concentrado e à exposição ao petróleo, mas o apoio do Golfo pode oferecer um amortecedor”. Apesar de o quadro de financiamento externo permanecer apertado, a recente concessão de cerca de US$ 2,3 bilhões em empréstimos pelo Fundo Monetário Internacional fornece “proteção no curto prazo”, disse o banco em relatório.
