O yield de referência de 10 anos tem potencial para finalmente romper a faixa estreita de negociação recente e avançar rumo a 2% — ou até mais — neste ano, partindo dos atuais cerca de 1,8%, segundo alguns analistas. Enquanto isso, o spread entre os títulos de cinco e de 30 anos, um indicador de expectativas de inflação e pressão de oferta, atingiu seu nível mais amplo em cerca de quatro anos, e a diferença pode continuar aumentando.
O sentimento no maior mercado de dívida entre os emergentes mudou após uma sequência de dados positivos — de uma surpreendente retomada do crescimento a uma desaceleração na queda dos preços no atacado —, lançando novas dúvidas sobre a narrativa deflacionária que dominou as negociações nos últimos anos. Com países ao redor do mundo se ajustando à nova realidade de preços elevados do petróleo provocados pela guerra no Irã, alguns analistas sugerem que a alta nos yields chineses pode ter repercussões em todo o mercado de títulos emergentes.
“O trade da deflação chegou a um ponto de inflexão”, afirmou Lynn Song, economista-chefe para a Grande China no ING Bank. “Não é normal que uma economia com expectativa de crescer cerca de 4% na próxima década tenha yields de 10 anos abaixo de 2%.”
Algumas corretoras locais são ainda mais agressivas ao projetar altas expressivas nos rendimentos. A Kaiyuan Securities, por exemplo, prevê que o yield de referência retorne à faixa de 2% a 3% ainda neste ano, à medida que a inflação ganhe impulso.
Os sinais de reprecificação se intensificaram no mês passado, quando o yield do título de 30 anos — mais sensível à inflação — chegou brevemente ao nível mais alto desde setembro de 2024. Os dados mostraram uma alta nos preços ao consumidor, moderação na deflação industrial, além de um boom exportador em expansão e vendas no varejo mais fortes. O mercado de swaps de juros na China também emite sinais de redução nas expectativas de novos afrouxamentos pelo Banco Popular da China (PBOC).
A perspectiva mais favorável para a segunda maior economia do mundo levou bancos globais como Goldman Sachs e ANZ (Australia & New Zealand Banking Group) a retirar ou reduzir suas projeções de corte de juros pelo PBOC neste ano. Alguns desses bancos também revisaram para cima suas previsões de inflação para a China após o choque do petróleo decorrente do conflito no Oriente Médio.
Fotógrafo: Qilai Shen/Bloomberg
A mudança no mercado de títulos não se limitou à China. O rendimento médio dos títulos em moeda local de mercados emergentes subiu ao patamar mais alto em quase dois anos em março. Nações importadoras de energia registraram uma forte onda de venda, com yields saltando entre 50 e 100 pontos-base na Polônia, na África do Sul e na Tailândia.
Se a tendência de alta nos yields chineses se intensificar, pode haver implicações para outros mercados.
Adam Marden, cogestor da estratégia Dynamic Global Bond na T. Rowe Price, argumenta que “o impulso desinflacionário” vindo da China, que ajudou a conter a inflação global nos últimos anos, está agora se dissipando. Com a alta do petróleo somando-se às pressões inflacionárias, ele vê maior probabilidade de yields mais elevados e curvas de juros mais achatadas globalmente — o que pode criar um cenário mais desafiador para os bancos centrais.
É verdade que qualquer chamado “trade de reflação” nos títulos enfrenta desafios, como a possibilidade de um fim rápido da guerra no Irã — o que poderia aliviar significativamente os preços do petróleo — além de uma eventual nova fraqueza na demanda doméstica chinesa. O Morgan Stanley, por exemplo, avalia que a recuperação da inflação na China “dificilmente será sustentada” e projeta que o índice de preços ao produtor volte a uma deflação moderada em 2027.
Além disso, embora os títulos do governo chinês tenham se tornado um porto seguro para investidores durante a guerra no Irã — e haja até expectativas de que se tornem um ativo de reserva —, o mercado registrou quatro anos consecutivos de saída de capital estrangeiro. Se haverá um retorno sustentado de investidores internacionais é um fator determinante para confirmar se o mercado de fato atingiu um ponto de inflexão.
Por enquanto, porém, cresce entre os analistas — incluindo os do Citigroup e da Huatai Securities — a visão de que o índice de preços ao produtor da China voltará ao terreno positivo em breve.
Há sinais de que o impulso está se consolidando: empresas do setor químico à maior fabricante de destilados do país anunciaram reajustes de preços. Paralelamente, o mercado imobiliário chinês mostra sinais de estabilização após anos de queda, com retomada da atividade nas principais cidades em março.
“A inflação em alta na China provavelmente será um ponto de virada para o mercado de títulos”, afirmou Jeffrey Zhang, estrategista do Crédit Agricole CIB. “A tendência de reinclinação da curva de juros tende a se acelerar caso os próximos indicadores de inflação sugiram que as pressões de preço vindas do choque do petróleo superem as preocupações com a demanda.”
