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Mercado de petróleo entra em fase crítica e redefine vencedores no setor de energia

Petrolíferas não reagiram da mesma forma à escalada da guerra – diferentemente das empresas de refino, as maiores beneficiadas

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A guerra com o Irã elevou os preços do petróleo em 27% desde que começou, com o benchmark internacional ultrapassando US$ 90 na sexta-feira (6) pela primeira vez desde 2024. A maior parte desses ganhos ocorreu por causa do receio de que a demanda global começaria a superar a oferta, mesmo com os produtores de petróleo mantendo a produção nas mesmas taxas que antes da guerra. Isso está começando a mudar.

O mercado de petróleo entrou em um novo estágio de crise: a oferta está começando a desaparecer, ameaçando uma escassez que poderia rapidamente levar os preços acima de US$100 por barril. O Irã está ampliando seus ataques na região, e a infraestrutura de petróleo está entre os alvos.

O Iraque disse que está reduzindo mais da metade de sua produção e o Kuwait foi forçado a fazer o mesmo depois que seus tanques de armazenamento de petróleo atingiram o limite, de acordo com uma reportagem publicada na sexta-feira no The Wall Street Journal.

Esses países não conseguem exportar petróleo porque o Estreito de Ormuz, no Golfo Pérsico, foi efetivamente bloqueado devido à guerra. Cerca de 20% do petróleo mundial é transportado através desse estreito.

“O cenário energético de pesadelo está chegando”, escreveu na sexta-feira o economista da Capital Economics David Oxley, que acredita que uma interrupção prolongada no estreito resultará em petróleo a US$ 100 por barril. Isso também elevaria ainda mais os preços da gasolina, depois de já terem subido 34 centavos por galão na última semana.

Os produtores vinham conseguindo manter o fluxo de petróleo e armazenar qualquer excesso em tanques em terra ou em navios no mar. Não mais. Cerca de 1,5 milhão de barris por dia de petróleo estão fora de operação no Iraque, segundo Natasha Kaneva, chefe de estratégia global de commodities do J.P. Morgan.

Kaneva diz que o Kuwait reduziu a produção de suas refinarias em 600 mil barris por dia, retirando barris que normalmente seriam exportados. Para colocar isso em contexto, a oferta global total de petróleo é de cerca de 107 milhões de barris por dia, mas pequenas mudanças na produção têm grande impacto nos preços.

Além disso, apenas cerca de 78 milhões de barris são petróleo bruto, a fonte dos combustíveis que mantém o mundo funcionando (grande parte do restante são líquidos de gás natural, que são usados principalmente na produção de produtos químicos).

Os cortes de produção no Oriente Médio derrubam uma suposição fundamental que os operadores do setor de petróleo tinham antes da guerra.

A maioria dos analistas acreditava que o Irã não atacaria a infraestrutura regional de petróleo e nem bloquearia o estreito. Se as exportações de petróleo fossem interrompidas, isso prejudicaria sua própria receita e suas relações de longo prazo com potências regionais como a Arábia Saudita.

Claramente, agora todas as apostas estão suspensas. O Irã está ampliando seus ataques na região, e a infraestrutura de petróleo está entre os alvos.

“O regime iraniano está lutando por sua sobrevivência”, escreveu Robin Brooks, pesquisador sênior da Brookings Institution. “Como não tem esperança de se igualar militarmente aos Estados Unidos e Israel, sua única estratégia é elevar os preços do petróleo o máximo possível, na esperança de que a opinião pública nos Estados Unidos se volte contra esta guerra.”

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As ações de empresas de petróleo não subiram de forma generalizada com a escalada da guerra. As grandes petrolíferas – algumas das quais têm operações no Oriente Médio – registraram ganhos modestos ou nenhum ganho.

Entre as grandes empresas, a francesa Total Energies parece ter a maior produção no Oriente Médio, e suas ações na verdade têm caído. A ExxonMobil estava ligeiramente em queda na semana, embora tivesse subido fortemente para novos recordes em antecipação à guerra. A principal empresa de serviços petrolíferos SLB, que opera no Oriente Médio, caiu quase 9%.

Os grandes vencedores no setor de energia incluem as refinarias, que se beneficiaram da escassez global de combustíveis. Navios-tanque estrangeiros não conseguem chegar aos seus destinos por causa da guerra, e refinarias asiáticas começaram a limitar suas próprias exportações para garantir que haja oferta doméstica suficiente.

Além disso, compradores estão pagando mais por combustível de processadores americanos, elevando as margens. As ações da refinaria americana Valero Energy, por exemplo, subiram 10%.

Entre os produtores de petróleo, empresas de shale – petróleo extraído de rochas de xisto, formações rochosas muito compactas – dos Estados Unidos têm subido na bolsa devido à sua presumida segurança. Os produtores de shale podem entrar para compensar parte da produção perdida no Oriente Médio, embora poucos tenham se comprometido com isso até agora.

A partir daqui, a situação pode se tornar muito mais drástica. A Arábia Saudita tem mais capacidade de armazenamento do que o Kuwait, mas sua capacidade disponível também pode começar a se esgotar.

“Estamos em contagem regressiva para a próxima onda de paralisações de produção, impulsionadas por gargalos nas exportações e restrições nas refinarias”, escreveu Kaneva.

“Na trajetória atual, interrupções de cerca de 1,5 milhão de barris por dia podem subir para cerca de 3 milhões até o fim de semana; até o final da próxima semana, os cortes podem ultrapassar 4 milhões e potencialmente se aproximar de 6 milhões se o armazenamento de produtos refinados atingir a capacidade.”

No caso de a oferta desses produtores maiores do Golfo ser interrompida, os preços poderiam subir mais US$ 30 por barril, estima Kaneva. Há precedentes para que subam ainda mais. Nos primeiros dias do ataque da Rússia contra a Ucrânia, os preços saltaram para US$ 127.

Argumenta-se que esta guerra é mais perigosa para o mercado de petróleo do que a russa. Em 2022, a produção russa continuou fluindo. Desta vez, as torneiras estão começando a ser fechadas.

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