Mais de 6 mil jatos no total — metade dos que estão em operação — podem ser afetados pela correção exigida, disse a fabricante europeia na noite de sexta-feira. Uma diretriz da autoridade de segurança aérea da Europa determinou que as atualizações de software devem ser feitas antes dos próximos voos regulares das aeronaves afetadas.
As companhias aéreas correram para implementar as atualizações nos A320, deixando temporariamente aviões em solo e desorganizando os planos de milhares de passageiros, em uma rara falha global envolvendo o jato mais vendido da Airbus.
A correção de software emergencial, emitida pela Agência de Segurança da Aviação da União Europeia na noite de sexta-feira, veio após um incidente recente envolvendo um jato da JetBlue, que mostrou que uma “radiação solar intensa” poderia corromper dados que ajudam a manter o funcionamento dos comandos de voo. Dependendo da idade da aeronave, as atualizações são um download simples ou exigem uma mudança de hardware bem mais trabalhosa.
“A Airbus reconhece que essas recomendações levarão a interrupções operacionais para passageiros e clientes”, disse a fabricante.
A descoberta é uma dor de cabeça significativa para a Airbus, considerando que a família A320 é, de longe, a aeronave mais utilizada da empresa, com mais de 11 mil em operação.
Companhias e passageiros já vinham enfrentando transtornos causados pelo mau tempo e pela recente paralisação do governo que levou a uma redução parcial dos movimentos de aeronaves. A FlightAware, que monitora atrasos e cancelamentos, mostrava 452 voos atrasados no sábado só na China Southern Airlines – 20% do total. A europeia EasyJet tinha 323 voos, ou 21%, afetados até o meio-dia no horário de Hong Kong.
Nos Estados Unidos, que vivem um período de viagens de Ação de Graças recorde, operadores de cerca de 1.600 jatos da família A320 tentaram implementar as correções minimizando ao máximo as interrupções. A Administração Federal de Aviação (FAA) disse que sua diretriz emergencial de aeronavegabilidade, que espelha a dos reguladores europeus, afeta aproximadamente 545 aviões registrados no país.
A American Airlines Group Inc. afirmou que, de suas 209 aeronaves afetadas, menos de 150 ainda precisavam da atualização até as 18h de sexta-feira, no horário central dos EUA. A indiana Indigo, que fez um pedido maciço de aviões A320, disse que um total de 200 aeronaves exigiam verificação e que 160 jatos haviam passado pelo procedimento até o meio-dia de sábado, no horário local, sem cancelamentos de voos.
A Avianca, da Colômbia, disse que mais de 70% de sua frota foi impactada e que estava suspendendo a venda de passagens até 8 de dezembro. A japonesa ANA Holdings Inc. cancelou 95 voos no sábado, afetando cerca de 13.200 passageiros.
A recomendação segue-se a um incidente perturbador em 30 de outubro, envolvendo um avião da JetBlue que voava de Cancún a Newark, em Nova Jersey, e sofreu uma falha de computador que provocou uma súbita e inesperada inclinação para baixo, sem comando dos pilotos. Ninguém ficou ferido, e o jato foi desviado para Tampa, na Flórida. Uma investigação revelou que um dos computadores de profundor e aileron da aeronave — conhecido como ELAC 2 — apresentou mau funcionamento.
“Uma avaliação técnica preliminar feita pela Airbus identificou um mau funcionamento do ELAC afetado como possível fator contribuinte”, disse o regulador europeu de segurança de voo. “Essa condição, se não corrigida, pode levar, no pior cenário, a um movimento não comandado do profundor que pode resultar em exceder a capacidade estrutural da aeronave.”
Segundo pessoas a par do assunto, a maior parte dos jatos pode receber uma atualização simples a partir da cabine, com tempo mínimo de inatividade. Mas cerca de 1.000 aeronaves mais antigas precisarão de uma atualização de hardware de fato e terão de ficar em solo durante todo o período de manutenção, disseram essas pessoas, que pediram anonimato para discutir conclusões não públicas.
A húngara Wizz Air Holdings Plc, uma companhia de baixo custo que opera uma frota composta apenas por Airbus, com cerca de 250 aeronaves, disse que implementou com sucesso as atualizações em todos os aviões afetados da família A320 durante a noite e que as operações de voo voltaram ao normal.
Voos foram cancelados na Austrália e na Nova Zelândia no sábado, causando transtornos, enquanto a Jetstar, subsidiária da Qantas Airways Ltd., e a Air New Zealand Ltd. deixaram alguns de seus A320 em solo para a atualização do software.
A Autoridade de Aviação Civil do Reino Unido disse que companhias que operam as aeronaves afetadas, em alguns casos, terão de alterar o software nos próximos dias ou permanecer em solo a partir de domingo, embora apenas algumas empresas britânicas sejam afetadas. A British Airways, maior companhia aérea do Reino Unido, com uma frota de quase 150 jatos da família A320, não terá impacto para os passageiros, disse o regulador.
O A320 concorre com o 737, da Boeing, e as duas famílias de jatos são os grandes cavalos de batalha da aviação comercial. A Airbus já vinha lidando com problemas de motor em seus A320neo mais novos, equipados com turbinas da Pratt & Whitney, que obrigaram centenas de aviões a serem retirados temporariamente de serviço para manutenção.
O A320 é operado com a chamada tecnologia fly-by-wire, que se baseia em comandos eletrônicos em vez de mecanismos hidráulicos. O sistema ELAC, cujo hardware é fabricado pela francesa Thales SA, ajuda a gerenciar parâmetros críticos de voo, como o trim do estabilizador, e garante que a aeronave permaneça dentro de seu envelope de voo previsto, evitando comandos excessivos ou acidentais.
A Airbus introduziu a aeronave em questão no fim dos anos 1980, e seu enorme sucesso tornou a fabricante europeia a número 1 global, ultrapassando a Boeing. A família A320 inclui hoje o modelo menor A319, o A320 “clássico” e o maior e cada vez mais popular A321. Há cerca de uma década, a Airbus passou a equipar o avião com motores novos e mais eficientes em consumo de combustível, a chamada opção de nova geração de motores, ou “neo”.
A correção anunciada hoje inclui tanto os A320neo quanto os modelos clássicos mais antigos da família A320, disse a Airbus.
O software de bordo é cada vez mais crítico para a estabilidade de voo em aeronaves modernas, embora um sistema com falha possa ter consequências catastróficas. A Boeing sofreu dois acidentes em rápida sucessão há alguns anos envolvendo o 737 Max, depois que um sistema de software chamado MCAS apresentou falhas em voo.
