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Trump dá ultimato ao Irã e ameaça bombardear usinas se Hormuz não reabrir

Com prazo de 48 horas, presidente dos EUA ameaça atacar usinas iranianas e amplia tensão no Oriente Médio

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O presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, deu ao Irã um prazo de dois dias para reabrir o Estreito de Hormuz ou ver suas usinas de energia serem bombardeadas, elevando o tom de uma guerra que, já em sua quarta semana, não mostra sinais de desescalada.

Trump, num indicativo da pressão que enfrenta para conter a disparada dos preços do petróleo, disse que o Irã precisa “abrir totalmente, sem ameaças” a via marítima vital para o fluxo global de energia. Ele deu ao país 48 horas “a partir deste exato momento”, em uma postagem na Truth Social publicada no fim da noite de sábado (21).

Os militares iranianos responderam dizendo que vão mirar “toda a infraestrutura de energia, tecnologia da informação e dessalinização pertencente aos EUA e ao regime israelense na região” caso a infraestrutura de combustíveis e energia do Irã seja atacada, segundo a agência semioficial Tasnim. A TV estatal iraniana publicou relatos semelhantes.

A retórica indica que nenhum dos lados está disposto a recuar. A guerra — iniciada com ataques de Israel e dos Estados Unidos ao Irã em 28 de fevereiro — já desencadeou uma crise inédita no fornecimento de petróleo e gás. As ameaças mais recentes vieram depois de uma semana de ataques pesados contra infraestrutura energética crucial no Oriente Médio, aprofundando o risco de efeitos mais duradouros sobre a economia global.

Os fluxos de petróleo e gás provavelmente levarão tempo para voltar ao normal mesmo depois da reabertura do Estreito de Hormuz, já que muitos locais de produção foram danificados. Os bloqueios também estão provocando escassez de fertilizantes e nutrientes agrícolas, o que eleva a perspectiva de disrupções graves na produção de alimentos.

Estados Unidos e Israel continuaram, no domingo, a atacar alvos no Irã, que por sua vez segue lançando mísseis e drones contra Israel e países árabes do Golfo.

Mais de 4 mil pessoas morreram em toda a região, segundo governos e organizações não governamentais, sendo mais de três quartos das vítimas no Irã. No Líbano, onde Israel intensificou a ofensiva contra militantes do Hezbollah apoiados por Teerã, o número de mortos já supera 1 mil. Dezenas de pessoas morreram em Israel e em países árabes.

Os ataques com mísseis iranianos contra Israel se intensificaram nos últimos dias. No sábado, cerca de 115 pessoas ficaram feridas nas cidades de Arad e Dimona, no sul do país — esta última conhecida por dar nome a uma instalação de pesquisa nuclear nas proximidades. A mídia iraniana afirmou que o ataque foi uma retaliação a uma ofensiva contra a instalação nuclear de Natanz.

“Esta é uma noite muito difícil na luta pelo nosso futuro”, disse o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, acrescentando que estava reforçando as equipes de resgate nas áreas atingidas.

Donald Trump está com terno escuro e gravata vermelha, e aponta para à esquerda

Falando no domingo, Netanyahu pediu que líderes de outros países se juntem à guerra e afirmou que alguns já começam a dar sinais nessa direção. “Fico feliz em dizer que consigo ver alguns deles começando a se mover nessa direção”, afirmou.

A nova ameaça de Trump ao Irã veio um dia depois de ele dizer que estava pensando em “reduzir” as operações militares e que a responsabilidade por vigiar Hormuz caberia a outros países. Isso exemplifica os sinais contraditórios enviados pelo presidente ao longo da guerra, deixando governos e mercados correndo para acompanhar os desdobramentos.

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O tráfego por Hormuz — por onde normalmente passa cerca de um quinto da oferta mundial de petróleo e gás natural liquefeito — praticamente parou desde o início da guerra. O barril do Brent disparou para mais de US$ 112, o maior nível em quase quatro anos. Também subiram os preços da gasolina nos Estados Unidos, dos fertilizantes e de vários metais transportados por Hormuz.

Autoridades iranianas relutam até mesmo em discutir a reabertura do estreito, enquanto concentram esforços em sobreviver à ofensiva de EUA e Israel, segundo uma pessoa envolvida em contatos diretos e de alto nível com Teerã.

Alguns países, no entanto, vêm encontrando formas de fazer cargas atravessarem o corredor. A Marinha iraniana escoltou um navio-tanque indiano de gás natural liquefeito pelo estreito após articulação diplomática de Nova Déli. O Irã afirmou que a passagem está aberta a todos, exceto embarcações ligadas a países inimigos.

Até agora, Estados Unidos e Israel evitaram em grande parte atacar usinas de energia e instalações de água do Irã. Israel chegou a bombardear depósitos de combustível em Teerã duas semanas atrás, provocando nuvens de chuva ácida e atraindo críticas veladas dos Estados Unidos, que avaliaram a ação como um erro estratégico capaz de voltar a população iraniana contra a ofensiva.

Israel e Estados Unidos falaram em mudança de regime nos primeiros dias da guerra, mas agora enfatizam objetivos mais limitados, como destruir as capacidades nuclear e de mísseis do Irã. O regime iraniano não parece perto de colapsar, e autoridades vêm se reagrupando em torno das lideranças remanescentes, segundo avaliações de inteligência ocidentais e pessoas familiarizadas com o assunto.

O Irã tem cerca de 100 usinas termelétricas a gás natural em operação, segundo dados compilados pela Bloomberg. Entre as maiores estão a usina de Damavand, perto de Teerã; a de Ramin, ao norte de Ahvaz, no oeste do país; e a de Kerman, em Chatroud, no sudeste.

Os ativos energéticos do Oriente Médio vêm entrando cada vez mais no centro do conflito à medida que os ataques se ampliam. Israel bombardeou o campo de gás de South Pars na quarta-feira passada, e o Irã retaliou com ataques contra a maior instalação de gás natural liquefeito do mundo, no Catar, além de outros ativos energéticos no Golfo.

Os preços do petróleo em Londres subiram mais de 50% desde o início da guerra, reacendendo temores de inflação global. A disparada dos preços — especialmente da gasolina — traz riscos políticos para Trump dentro dos Estados Unidos, faltando apenas oito meses para as eleições legislativas de meio de mandato.

Os Estados Unidos estão produzindo volumes recordes de petróleo e gás no mercado doméstico, mas regiões como Europa, China e Japão dependem mais dos recursos energéticos do Oriente Médio.

O ministro da Defesa de Israel, Israel Katz, afirmou no sábado que a campanha conjunta será intensificada de forma significativa, um dia depois de Teerã lançar mísseis balísticos contra a base militar conjunta de EUA e Reino Unido em Diego Garcia — a quase 4 mil quilômetros do Irã.

A base não sofreu danos, segundo uma pessoa a par do assunto que falou sob condição de anonimato. Ainda assim, o ataque demonstrou uma capacidade que vai além do que se sabia até então sobre o arsenal iraniano.

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Os esforços de Trump para mobilizar aliados dos Estados Unidos na reabertura do estreito ao tráfego comercial em larga escala têm sido, em grande medida, rejeitados. Em resposta, o presidente americano atacou verbalmente membros da Otan, chamando-os de “covardes” por não aderirem à operação.

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