Newsletter

Ouro ultrapassa US$ 5 mil a onça com turbulência global intensificando corrida por proteção

Os ganhos expressivos do ouro reforçam seu papel histórico como termômetro do medo nos mercados

Por
Publicidade

O ouro rompeu pela primeira vez a marca de US$ 5.000 a onça, ampliando uma disparada vertiginosa impulsionada pela reformulação das relações internacionais promovida pelo presidente dos EUA, Donald Trump, e pela fuga de investidores de títulos soberanos e moedas.

O metal precioso chegou a subir até 2,5% nesta segunda-feira, para mais de US$ 5.111, com a fraqueza do dólar reforçando a demanda. Um índice da moeda americana caiu quase 2% em seis sessões, em meio a especulações de que os EUA possam ajudar o Japão a fortalecer o iene — o que aumentou preocupações sobre a independência do Federal Reserve e o caráter errático da formulação de políticas por Trump. A prata também disparou, atingindo um recorde acima de US$ 110 a onça.

Os ganhos expressivos do ouro reforçam seu papel histórico como termômetro do medo nos mercados. Após registrar o melhor desempenho anual desde 1979, o metal acumula alta de cerca de 18% neste ano, em grande parte devido ao chamado debasement trade, movimento no qual investidores se afastam de moedas e dos Treasuries. A venda em massa no mercado de títulos do Japão na semana passada é o exemplo mais recente da rejeição dos investidores a políticas de forte expansão fiscal.

Nas últimas semanas, ações do governo Trump — como ataques ao Fed, ameaças de anexar a Groenlândia e intervenção militar na Venezuela — também assustaram os mercados.

“O ouro é o inverso da confiança”, disse Max Belmont, gestor de portfólio da First Eagle Investment Management, que detém bilhões de dólares em ouro. “Ele é uma proteção contra surtos inesperados de inflação, quedas não antecipadas nos mercados e recrudescimento do risco geopolítico.”

O crescimento da dívida pública nas economias avançadas tornou-se outro pilar importante da alta do ouro. Alguns investidores de longo prazo, convencidos de que a inflação será o único caminho para a solvência dos Estados, passaram a comprar ouro como forma de preservar o poder de compra.

“As pessoas ficaram muito mais preocupadas com a trajetória da dívida de longo prazo nos últimos três anos”, disse John Reade, estrategista-chefe do World Gold Council. “Onde mais tenho visto os argumentos de desvalorização monetária e dívida ganharem força é entre family offices. Eles estão pensando na proteção de riqueza geracional, e não no curto prazo.”

Ainda assim, a velocidade da valorização do ouro tem levado alguns investidores a agir com cautela. A maioria dos gestores consultados em uma pesquisa do Bank of America Corp. considerou o ouro a operação mais congestionada do mercado, antes da escalada das tensões envolvendo a Groenlândia no início deste mês. Cerca de 45% dos entrevistados avaliaram o ouro como supervalorizado — empatando com maio de 2025 como o maior percentual já registrado.

A prata teve uma alta ainda mais acelerada, sustentada por forte demanda de investimento, inclusive de investidores de varejo, de Xangai a Istambul.

A aposta na desvalorização das moedas atingiu seu ápice no fim de 2025, quando investidores de destaque, como o CEO da Citadel, Ken Griffin, e o fundador da Bridgewater Associates, Ray Dalio, apontaram a alta do ouro como um sinal de alerta.

Agora, os investidores aguardam a escolha de Trump para a presidência do Fed, depois que o presidente americano afirmou ter concluído as entrevistas com os candidatos e reiterado que já tem um nome em mente. Um presidente mais dovish (inclinado a estímulos) aumentaria as apostas em novos cortes de juros neste ano — algo positivo para o ouro, que não rende juros — após três reduções consecutivas.

As compras por bancos centrais, que ajudaram a impulsionar a alta do ouro, também devem continuar. O Goldman Sachs Group Inc. estima aquisições de cerca de 60 toneladas por mês neste ano, volume equivalente a quase US$ 10 bilhões aos preços atuais. Grande parte dessas compras não é declarada e não aparece nas estatísticas econômicas.

Publicidade

O banco central da Polônia, o maior comprador declarado do mundo, aprovou recentemente planos para adquirir mais 150 toneladas — mais do que o total de reservas de países como México ou Brasil.

“Nosso principal objetivo é construir um portfólio adequado para estes tempos geopolíticos instáveis, que garanta à Polônia estabilidade, segurança e credibilidade”, disse Artur Sobon, membro do conselho de administração, à Bloomberg News. “O preço não é uma consideração primária para nós.”

A atratividade do ouro também aparece nos dados de posicionamento de especuladores, enquanto operadores de opções se preparam para mais altas em um mercado superaquecido, no qual poucos querem apostar contra a tendência. A reversão de risco de um mês — um indicador de sentimento e posicionamento — subiu para o nível mais alto desde abril de 2024.

“Embora as reversões de risco normalmente fiquem positivas durante fortes ralis do ouro, o movimento atual se destaca pelo tamanho e pela persistência”, disse Christopher Wong, estrategista do Oversea-Chinese Banking Corp. Segundo ele, isso mostra que o mercado de opções está “se posicionando para algo além de um salto de curto prazo nos preços, consistente com um prêmio geopolítico e de confiança embutido no ouro”.

O ouro subia 2%, a US$ 5.087,99 a onça, às 11h15 em Londres. A prata avançava 5,8%, para US$ 109,16. A platina atingiu um recorde, e o paládio também subiu. O índice Bloomberg Dollar Spot recuava 0,4%, após cair 1,6% na semana passada.

Exit mobile version