Em uma tarde clara no sudoeste da China, o homem de 38 anos dirigia tranquilamente quando o veículo acelerou repentinamente para 93 quilômetros por hora, bem acima do limite de velocidade de 60 km/h, e invadiu o canteiro central. Em outra ocasião, ele relatou que o U8 mudou bruscamente de faixa, realizando uma manobra de direção “fantasma”, quase colidindo com o tráfego que vinha em sentido contrário.
“Dei um voto de confiança às tecnologias e ao orgulho da nossa indústria local”, disse Zhou, que está há um ano em conversas com a empresa em busca de uma solução para as falhas recorrentes, incluindo perda de sinal de navegação e aceleração involuntária. Ele pediu para ser identificado apenas pelo sobrenome por motivos de privacidade.
Olho de Deus
Zhou não é o único insatisfeito. Compradores têm recorrido às redes sociais com uma série de reclamações sobre o “Olho de Deus”, ampliando as dificuldades de uma empresa cujas vendas caíram 36% nos dois primeiros meses do ano — chegando a perder a liderança do mercado automotivo chinês para a Geely.
De forma mais ampla, o episódio levanta dúvidas sobre os limites de algumas das tecnologias da BYD e ilustra um possível efeito colateral de incorporar sistemas avançados aos veículos antes que todos os problemas sejam resolvidos.
Com grande alarde, a BYD anunciou no ano passado que o “Olho de Deus” não seria exclusivo de veículos premium, mas se tornaria um item de série em toda sua linha — até mesmo nos modelos hatch mais acessíveis.
A estratégia foi desenhada para consolidar o domínio da BYD no maior mercado automotivo do mundo ao oferecer tecnologia avançada sem custo adicional, enquanto rivais cobram caro por funcionalidades semelhantes.
Embora a BYD tenha ampliado com sucesso as vendas de veículos elétricos em um ritmo sem precedentes entre concorrentes, o desempenho da maior fabricante mundial de veículos elétricos (EVs) no campo das tecnologias de direção de ponta ainda está em evolução.
Redes sociais chinesas populares, como o Xiaohongshu, estão repletas de publicações de usuários anônimos que reclamam de falhas de direção, problemas na tela de navegação e atrasos em funções como navegação com memória em vias urbanas nos modelos de mercado de massa.
A equipe da Yangwang, marca premium da BYD, informou em comunicado que resolveu o caso de Zhou. “A Yangwang valoriza consistentemente o feedback dos usuários e permanece comprometida em fornecer melhores produtos e serviços”, afirmou.
As dificuldades de adaptação não são exclusivas da BYD. Nos Estados Unidos, a Tesla enfrenta uma investigação crescente sobre seu sistema de direção parcialmente automatizada, comercializado como “Condução Autônoma Total”, após uma série de acidentes fatais. O recurso de assistência ao motorista BlueCruise, da Ford, também está sob análise de reguladores de segurança veicular dos EUA após dois acidentes fatais envolvendo a tecnologia.
A aparente frequência de falhas no “Olho de Deus” também pode refletir uma questão de escala. Enquanto sistemas como a condução assistida da Tesla em vias urbanas são opcionais, o “Olho de Deus” é padrão em um grande número de modelos da BYD, tornando os desafios técnicos inerentes à direção semiautônoma mais visíveis e disseminados.
Ainda assim, os problemas contrastam com a previsão do presidente da BYD, Wang Chuanfu, de que o recurso avançado de assistência ao motorista se tornaria “indispensável nos próximos dois a três anos, assim como o cinto de segurança ou o airbag”.
