Newsletter

Falhas no sistema ‘Olho de Deus’ da BYD aumentam debate sobre segurança

Tecnologia da BYD prometia direção quase autônoma ao identificar riscos na estrada, mas falhas recentes levantam dúvidas sobre sua confiabilidade

Por
Publicidade

Quando o empresário chinês Zhou desembolsou 1,1 milhão de yuans (R$ 835 mil) no fim de 2024 pelo principal modelo da BYD — o SUV Yangwang U8 — ele acreditava estar comprando o auge da engenharia chinesa. Entre os atrativos estava um sistema sofisticado capaz de identificar perigos na estrada e praticamente permitir que o carro dirigisse sozinho. O recurso, batizado de “Olho de Deus” em 2025, parece não ter cumprido sua promessa celestial.

Em uma tarde clara no sudoeste da China, o homem de 38 anos dirigia tranquilamente quando o veículo acelerou repentinamente para 93 quilômetros por hora, bem acima do limite de velocidade de 60 km/h, e invadiu o canteiro central. Em outra ocasião, ele relatou que o U8 mudou bruscamente de faixa, realizando uma manobra de direção “fantasma”, quase colidindo com o tráfego que vinha em sentido contrário.

“Dei um voto de confiança às tecnologias e ao orgulho da nossa indústria local”, disse Zhou, que está há um ano em conversas com a empresa em busca de uma solução para as falhas recorrentes, incluindo perda de sinal de navegação e aceleração involuntária. Ele pediu para ser identificado apenas pelo sobrenome por motivos de privacidade.

Olho de Deus

Zhou não é o único insatisfeito. Compradores têm recorrido às redes sociais com uma série de reclamações sobre o “Olho de Deus”, ampliando as dificuldades de uma empresa cujas vendas caíram 36% nos dois primeiros meses do ano — chegando a perder a liderança do mercado automotivo chinês para a Geely.

De forma mais ampla, o episódio levanta dúvidas sobre os limites de algumas das tecnologias da BYD e ilustra um possível efeito colateral de incorporar sistemas avançados aos veículos antes que todos os problemas sejam resolvidos.

Com grande alarde, a BYD anunciou no ano passado que o “Olho de Deus” não seria exclusivo de veículos premium, mas se tornaria um item de série em toda sua linha — até mesmo nos modelos hatch mais acessíveis.

A estratégia foi desenhada para consolidar o domínio da BYD no maior mercado automotivo do mundo ao oferecer tecnologia avançada sem custo adicional, enquanto rivais cobram caro por funcionalidades semelhantes.

Embora a BYD tenha ampliado com sucesso as vendas de veículos elétricos em um ritmo sem precedentes entre concorrentes, o desempenho da maior fabricante mundial de veículos elétricos (EVs) no campo das tecnologias de direção de ponta ainda está em evolução.

Redes sociais chinesas populares, como o Xiaohongshu, estão repletas de publicações de usuários anônimos que reclamam de falhas de direção, problemas na tela de navegação e atrasos em funções como navegação com memória em vias urbanas nos modelos de mercado de massa.

A equipe da Yangwang, marca premium da BYD, informou em comunicado que resolveu o caso de Zhou. “A Yangwang valoriza consistentemente o feedback dos usuários e permanece comprometida em fornecer melhores produtos e serviços”, afirmou.

As dificuldades de adaptação não são exclusivas da BYD. Nos Estados Unidos, a Tesla enfrenta uma investigação crescente sobre seu sistema de direção parcialmente automatizada, comercializado como “Condução Autônoma Total”, após uma série de acidentes fatais. O recurso de assistência ao motorista BlueCruise, da Ford, também está sob análise de reguladores de segurança veicular dos EUA após dois acidentes fatais envolvendo a tecnologia.

Publicidade

A aparente frequência de falhas no “Olho de Deus” também pode refletir uma questão de escala. Enquanto sistemas como a condução assistida da Tesla em vias urbanas são opcionais, o “Olho de Deus” é padrão em um grande número de modelos da BYD, tornando os desafios técnicos inerentes à direção semiautônoma mais visíveis e disseminados.

Ainda assim, os problemas contrastam com a previsão do presidente da BYD, Wang Chuanfu, de que o recurso avançado de assistência ao motorista se tornaria “indispensável nos próximos dois a três anos, assim como o cinto de segurança ou o airbag”.

Exit mobile version