{"id":14963,"date":"2020-07-22T11:00:00","date_gmt":"2020-07-22T14:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/investnews.com.br\/?p=14963"},"modified":"2020-07-22T19:19:57","modified_gmt":"2020-07-22T22:19:57","slug":"reforma-tributaria-em-vez-de-criar-imposto-seria-melhor-revisar-os-gastos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/investnews.com.br\/economia\/reforma-tributaria-em-vez-de-criar-imposto-seria-melhor-revisar-os-gastos\/","title":{"rendered":"Reforma tribut\u00e1ria: &#8216;Em vez de criar imposto, seria melhor revisar os gastos&#8217;"},"content":{"rendered":"\n<p>Em vez de aumentar impostos para conter os efeitos dram\u00e1ticos da pandemia, seria mais eficiente fazer uma revis\u00e3o dos gastos p\u00fablicos. \u00c9 o que defende Solange Srour, economista-chefe da gestora ARX Investimentos. Mestre em economia pela PUC-Rio, ela acredita que <strong>a atual reforma tribut\u00e1ria proposta pela equipe econ\u00f4mica de Paulo Guedes est\u00e1 sendo desenhada pelos motivos errados &#8211; n\u00e3o para gerar efici\u00eancia e produtividade, e sim para cobrir o buraco criado pelo crescente aumento dos gastos p\u00fablicos<\/strong>. Segundo ela, a reforma proposta anteriormente, articulada entre o governo e o Congresso, era mais eficiente que o modelo apresentado para o p\u00f3s-pandemia, que contribui para aumentar a ainda mais a carga tribut\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p>O ministro da Economia,&nbsp;Paulo Guedes, <a href=\"https:\/\/investnews.com.br\/economia\/entenda-ponto-a-ponto-a-proposta-da-reforma-tributaria-de-paulo-guedes\/\" class=\"rank-math-link\">entregou a primeira fase da proposta do governo federal ao Congresso<\/a>, propondo unificar o PIS e Cofins, dois tributos federais que incidem sobre o consumo, em um \u00fanico imposto. Eles dariam origem a um tributo chamado Contribui\u00e7\u00e3o sobre Bens e Servi\u00e7os (CBS). <\/p>\n\n\n\n<p>Ficaram para depois pontos mais pol\u00eamicos, como a tributa\u00e7\u00e3o de <a href=\"https:\/\/investnews.com.br\/guias\/dividendos-o-que-sao-como-funcionam\/\">dividendos<\/a> e mudan\u00e7as no <a href=\"https:\/\/investnews.com.br\/guias\/imposto-de-renda-o-que-e\/\">Imposto de Renda<\/a>. Guedes sinalizou  tamb\u00e9m que apoia a cria\u00e7\u00e3o de um imposto sobre pagamentos eletr\u00f4nicos, que <a href=\"https:\/\/investnews.com.br\/flash\/nova-cpmf-de-guedes-recria-polemica-na-reforma-tributaria-avancos-com-vacina\/\" class=\"rank-math-link\">vem sendo comparado \u00e0 extinta CPMF<\/a>, para compensar a perda de arrecada\u00e7\u00e3o durante a crise. &#8220;Pode n\u00e3o ser uma CPMF, mas \u00e9 ineficiente e diminui um problema para criar outro&#8221;, diz Solange.<\/p>\n\n\n\n<p>Sobre o desequil\u00edbrio fiscal crescente, Solange avalia que, se nada for feito para conter os gatos, o estrago n\u00e3o vai demorar para aparecer. Para a economista, <strong>o mercado ainda d\u00e1 o benef\u00edcio da d\u00favida para o Brasil em meio a um cen\u00e1rio de juros baixos e ampla liquidez<\/strong> de recursos internacional, mas o descontrole fiscal pode ter um custo alto para o Brasil l\u00e1 na frente, algo que n\u00e3o est\u00e1 sendo levado em conta no momento. \u201cQualquer chacoalh\u00e3o l\u00e1 fora, algum problema maior com EUA, China ou Europa, o Brasil vai sofrer mais por n\u00e3o estar fazendo sua li\u00e7\u00e3o de casa em compara\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses\u201d, diz.<br><\/p>\n\n\n\n<p>Em entrevista ao <strong>InvestNews,<\/strong> a economista-chefe da ARX fala sobre a perspectiva para um desemprego estrutural daqui a alguns meses, acredita que \u00e9 preciso resgatar a antiga agenda de reformas iniciada no governo de Michel Temer e descarta a possibilidade de juros pr\u00f3ximos a zero no Brasil, diante do risco fiscal com o aumento da d\u00edvida p\u00fablica em rela\u00e7\u00e3o ao PIB. Leia a entrevista:<\/p>\n\n\n\n<p><strong>InvestNews &#8211;<\/strong> <strong>Qual a import\u00e2ncia de propor uma reforma tribut\u00e1ria em um momento de crise econ\u00f4mica e descontrole fiscal e at\u00e9 diante do risco de se flexibilizar o teto de gastos?<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Solange Srour &#8211;<\/strong> Antes da pandemia, a reforma tribut\u00e1ria n\u00e3o pretendia aumentar a carga tribut\u00e1ria e iria gerar efici\u00eancia, diminuir o lit\u00edgio, simplificar a vida do empres\u00e1rio. Isso era visto pelo mercado como gerador de produtividade, pela simplifica\u00e7\u00e3o e pelo custo das empresas para entender o sistema tribut\u00e1rio. Levaria n\u00e3o a uma mudan\u00e7a de trajet\u00f3ria fiscal porque n\u00e3o traria uma perspectiva melhor ou pior para a trajet\u00f3ria d\u00edvida\/PIB, mas traria uma maior confian\u00e7a ao longo do tempo. No p\u00f3s-Covid, sa\u00edmos dessa crise com um problema fiscal muito maior e uma demanda social por aumento de gastos. <\/p>\n\n\n\n<p>Tivemos programas de sustenta\u00e7\u00e3o da renda, o coronavoucher, e de sustenta\u00e7\u00e3o do emprego. Tudo isso vai expirar e n\u00e3o poderemos fazer gastos extraordin\u00e1rios. A reforma tribut\u00e1ria agora est\u00e1 sendo discutida num contexto de aumentar a carga tribut\u00e1ria para pagar estes gastos. Ela perde o charme de ser uma reforma para aumentar a produtividade e vai para outro lado de o pa\u00eds se tornar menos competitivo. Para conseguir cobrir esses gastos, esse aumento ser\u00e1 mal visto pelos investidores, tanto em termos de confian\u00e7a quanto de vir para o Brasil. O governo diz que pode diminuir a carga da pessoa jur\u00eddica e aumentar dividendos, mas por tr\u00e1s tem a carga tribut\u00e1ria. Acho que desvirtua um pouco o objetivo inicial da reforma.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O ministro Paulo Guedes v\u00ea com bons olhos a cria\u00e7\u00e3o de um imposto sobre pagamentos eletr\u00f4nicos para compensar a desonera\u00e7\u00e3o da folha salarial, que vem sendo comparado a uma nova CPMF. Qual sua vis\u00e3o sobre esse imposto?<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>Por mais que seja para compensar a desonera\u00e7\u00e3o, ele vai aumentar a carga tribut\u00e1ria de qualquer maneira. Ele pesa na efici\u00eancia e produtividade da economia, porque voc\u00ea vai pagar imposto para comprar um bem pela internet. As pessoas v\u00e3o se deslocar para as lojas f\u00edsicas em um momento em que o com\u00e9rcio eletr\u00f4nico cresce mais rapidamente e de maneira menos custosa para as pessoas e as empresas. <\/p>\n\n\n\n<p>Estamos discutindo desonera\u00e7\u00e3o da folha, aumento de benef\u00edcios sociais, mas n\u00e3o o ponto mais importante que \u00e9 a qualidade dos gastos. Pod\u00edamos estar revisando os gastos p\u00fablicos. A parte que n\u00e3o \u00e9 eficiente poderia ir para programas como a desonera\u00e7\u00e3o da folha, que \u00e9 extremamente cara. \u00c9 positivo, mas em vez de aumentar imposto, seria melhor revisar os gastos p\u00fablicos. O governo poderia propor uma reforma administrativa que traz ganhos fiscais. Este imposto que ele quer criar pode n\u00e3o ser uma CPMF, mas \u00e9 ineficiente e diminui um problema para criar outro. O Brasil gasta muito e vamos aumentar ainda mais os gastos. \u00c9 f\u00e1cil ver que o Brasil gasta mal, \u00e9 s\u00f3 ver quanto o Brasil gasta em educa\u00e7\u00e3o em compara\u00e7\u00e3o com o resto do mundo. Gastamos muito e gastamos mal.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O aumento da d\u00edvida p\u00fablica em rela\u00e7\u00e3o ao PIB \u00e9 dado como certo. Essa trajet\u00f3ria pode nos levar a um cen\u00e1rio de volta a juros altos e hiperinfla\u00e7\u00e3o?<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>O aumento da d\u00edvida por conta dos gastos extraordin\u00e1rios n\u00e3o preocuparia se tiv\u00e9ssemos um grau de certeza maior de que a d\u00edvida\/PIB que vai fechar o ano perto de 100% entraria em trajet\u00f3ria de queda novamente. O problema \u00e9 que essa certeza hoje \u00e9 para o outro lado. Os gastos crescem muito mais que o PIB em termos reais. Mesmo ap\u00f3s a reforma da Previd\u00eancia, a folha salarial cresce e comprime todos os gastos discricion\u00e1rios que n\u00e3o t\u00eam mais como cair sem prejudicar o funcionamento da m\u00e1quina p\u00fablica. <\/p>\n\n\n\n<p>Sem uma reforma administrativa e de revis\u00e3o de gastos n\u00e3o vamos conseguir colocar a trajet\u00f3ria da d\u00edvida em queda. Fora isso, vem a demanda por mais gastos. O mercado hoje d\u00e1 o benef\u00edcio da d\u00favida para o Brasil, porque n\u00e3o tem uma fuga de capitais. As taxas de juros est\u00e3o muito baixas e teoricamente v\u00e3o ficar assim por muito tempo. Mas se o risco fiscal do Brasil n\u00e3o diminuir, ser\u00e1 dif\u00edcil o investidor ficar aqui enquanto l\u00e1 fora vai pagar uma taxa mais atrativa. Olhamos muito o curto prazo, embalados na liquidez externa e n\u00e3o colocando \u00eanfase no fato de que os gastos crescem muito mais rapidamente que o PIB. <\/p>\n\n\n\n<p>Do ponto de vista pr\u00e1tico, essa luz vai acender quando discutirmos o or\u00e7amento de 2021, porque ele precisa respeitar o teto de gastos e ao mesmo tempo incluir as demandas do Congresso de aumento de gasto social, programas de sustenta\u00e7\u00e3o de empregos que v\u00e3o precisar ser prorrogados. Esse momento ser\u00e1 cr\u00edtico e haver\u00e1 uma discuss\u00e3o s\u00e9ria no Brasil de derrubada ou n\u00e3o do teto que vai gerar uma preocupa\u00e7\u00e3o grande dos investidores. O teto de gastos hoje \u00e9 nossa \u00fanica \u00e2ncora.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Apesar da magnitude dessa crise econ\u00f4mica, que vem sendo comparada \u00e0 Grande Depress\u00e3o de 1930, vemos as bolsas subindo e o Ibovespa de volta aos 100 mil pontos. O mundo est\u00e1 subestimando a atual crise?<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>Quando h\u00e1 um ambiente internacional extremamente l\u00edquido, as taxas de juros s\u00e3o baixas no mundo todo e os bancos centrais continuam com discurso de expans\u00e3o monet\u00e1ria, os investidores buscam pr\u00eamio e no Brasil ainda tem pr\u00eamio. A bolsa brasileira estava muito descontada em rela\u00e7\u00e3o a outras bolsas e temos uma taxa de juros de longo prazo alta por conta do pr\u00f3prio risco fiscal. Pode ter um movimento por conta dessa euforia. At\u00e9 o c\u00e2mbio n\u00e3o aprecia tanto porque \u00e9 visto como hedge das posi\u00e7\u00f5es otimistas. Essa hist\u00f3ria s\u00f3 \u00e9 sustent\u00e1vel enquanto a liquidez durar. <\/p>\n\n\n\n<p>Qualquer chacoalh\u00e3o l\u00e1 fora, algum problema maior com EUA, China ou Europa, o Brasil vai sofrer mais por n\u00e3o estar fazendo sua li\u00e7\u00e3o de casa em compara\u00e7\u00e3o a outros pa\u00edses com uma situa\u00e7\u00e3o fiscal melhor. Essa euforia \u00e9 natural porque tem atividade voltando em v\u00e1rios pa\u00edses, promessa de vacina, confian\u00e7a de que as pol\u00edticas fiscais l\u00e1 fora n\u00e3o v\u00e3o sofrer uma redu\u00e7\u00e3o muito tempo. A gente est\u00e1 vulner\u00e1vel e quando essa festa acabar, a gente sofre mais.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>O crescimento do desemprego veio abaixo do que se esperava at\u00e9 agora. As mudan\u00e7as previstas no mercado de trabalho ainda n\u00e3o aconteceram?<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>Um parte das pessoas saiu da estat\u00edstica dos que procuram emprego por causa das medidas de restri\u00e7\u00e3o social e isso vai perdurar por algum tempo ainda, porque o Brasil ainda n\u00e3o saiu das restri\u00e7\u00f5es e pode ter momentos de piora da pandemia como est\u00e1 acontecendo nos EUA. Enquanto as pessoas n\u00e3o puderem sair realmente de casa para procurar emprego, o desemprego n\u00e3o aparece. <\/p>\n\n\n\n<p>Mas tem as pessoas que est\u00e3o ocupadas mas tiveram redu\u00e7\u00e3o de sal\u00e1rio e jornada ou foram afastadas e continuam na folha de pagamento das empresas. Isso \u00e9 sustentado pelos programas do governo, mas se n\u00e3o forem prorrogados por mais tempo, uma parte dessas pessoas ser\u00e1 demitida porque a economia n\u00e3o vai voltar para o n\u00edvel antes da Covid-19 e v\u00e1rios ramos de atividade v\u00e3o mudar de perfil. <\/p>\n\n\n\n<p>Se as lojas t\u00eam plataformas digitais mais eficientes no passado, n\u00e3o v\u00e3o contratar tantos vendedores como antes. O mesmo para eventos sociais. Teremos mais reuni\u00f5es de neg\u00f3cios pelo Zoom, ent\u00e3o restaurantes, hot\u00e9is e o setor de viagens devem sofrer. \u00c9 um desemprego mais estrutural, que vai acabar ficando pelas mudan\u00e7as de comportamento e consumo. A tecnologia poupa m\u00e3o de obra e, para um pa\u00eds com m\u00e3o de obra pouco qualificada, fica mais dif\u00edcil as pessoas se realocarem nos setores cuja demanda vai crescer, como os mais digitalizados.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Retomamos as reformas no Congresso, mas n\u00e3o se sabe at\u00e9 onde elas ajudam o quadro fiscal. As sa\u00eddas dessa crise s\u00e3o diferentes das sa\u00eddas que buscamos na crise anterior?<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>Dever\u00edamos voltar para a mesma agenda do come\u00e7o do governo de Michel Temer. Foi muito ampla, quando aprovamos a reforma trabalhista, o fim dos subs\u00eddios do BNDES, a mudan\u00e7a na regula\u00e7\u00e3o do pr\u00e9-sal e come\u00e7amos a agenda de competi\u00e7\u00e3o do BC por mais concorr\u00eancia. Temos que retomar n\u00e3o s\u00f3 reformas fiscais, mas as que geram competi\u00e7\u00e3o e investimento. <\/p>\n\n\n\n<p>Temos que multiplicar o Marco do Saneamento para v\u00e1rios setores que precisam de uma nova regula\u00e7\u00e3o e aprofundar a reforma trabalhista, j\u00e1 que a folha de pagamentos \u00e9 a terceira maior despesa depois de Previd\u00eancia e juros. Se n\u00e3o faz agora, vai ter servidor se aposentando no curto prazo e os novos contratados estar\u00e3o sob a regra antiga. Traz uma inefici\u00eancia que afeta o setor privado, porque se metade da economia \u00e9 improdutiva, a outra metade que depende dela tamb\u00e9m n\u00e3o consegue ser. <\/p>\n\n\n\n<p>A carteira Verde e Amarela, que acabou caducando, \u00e9 uma reforma micro que poderia trazer uma melhor perspectiva para o PIB. A agenda de privatiza\u00e7\u00f5es e concess\u00f5es do governo deixou muito a desejar. E a reforma tribut\u00e1ria teria de ser de efici\u00eancia, n\u00e3o de aumentar imposto digital ou sobre o patrim\u00f4nio que n\u00e3o arrecada nada e s\u00f3 aumenta a evas\u00e3o fiscal. <\/p>\n\n\n\n<p>Tinha que acabar com buracos como o Simples e a pejotiza\u00e7\u00e3o. Mas pela discuss\u00e3o hoje, a reforma do governo vai ser um mini reforma, s\u00f3 juntar PIS e Cofins e a reforma da C\u00e2mara dificilmente ser\u00e1 aprovada porque inclui <a href=\"https:\/\/investnews.com.br\/guias\/o-que-e-icms\/\">ICMS<\/a>. Para esse ano, que tem elei\u00e7\u00f5es municipais, vai ser muito dif\u00edcil aprovar, s\u00f3 para o ano que vem e se for uma reforma muito enxuta. A reforma maior pode sair ano que vem, mas as chances s\u00e3o baixas.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Voc\u00ea considera vi\u00e1vel o plano do ministro Paulo Guedes de fazer pelo menos quatro privatiza\u00e7\u00f5es ainda este ano?<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o tem a menor chance. A pauta est\u00e1 muito congestionada. Primeiro tem uma discuss\u00e3o de curt\u00edssimo prazo que s\u00e3o os vetos. O governo veta muito porque n\u00e3o conversa com o Congresso, tem um risco alto de os vetos serem derrubados e s\u00e3o uma pauta bomba. Vamos passar semanas evitando maiores gastos. Depois entra a reforma tribut\u00e1ria com o programa Renda Brasil (substituto do Bolsa Fam\u00edlia), que precisa ser discutido quando o coronavoucher for extinto, sob o risco de o Congresso estender o aux\u00edlio at\u00e9 dezembro e ter uma d\u00edvida\/PIB maior ainda. Privatiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o tem como andar. Todas precisam de regulamenta\u00e7\u00e3o, muitas s\u00e3o judicializadas, como vemos o Senado entrando contra as privatiza\u00e7\u00f5es das subsidi\u00e1rias da Petrobras. \u00c9 bom que o processo comece, mas \u00e9 lento. Ainda mais que o governo \u00e9 contra vender qualquer coisa a pre\u00e7o de banana.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Como voc\u00ea avalia a ideia de transformar o aux\u00edlio emergencial, criado em car\u00e1ter de urg\u00eancia durante a pandemia, em um ajuda permanente?<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>Foi um programa feito em cima da hora para sustentar a renda dos trabalhadores prejudicados, mas n\u00e3o foi um programa focado. Ele cumpriu uma tarefa de emerg\u00eancia quando n\u00e3o dava tempo para debater. N\u00e3o tem como ser prorrogado porque ele n\u00e3o \u00e9 focado, muita gente que n\u00e3o precisava recebe. N\u00e3o tem desenho de incentivo \u00e0 sa\u00edda da pobreza, mesmo reduzindo a pobreza. Ele n\u00e3o cabe nas contas do Brasil e estouraria o teto. Os gastos de assist\u00eancia social hoje precisam ser revistos. Se tiver que aumentar tem que entender qual gasto o Brasil vai diminuir para aumentar este, mesmo que o valor total seja menor que o aux\u00edlio emergencial. \u00c9 uma discuss\u00e3o muito dif\u00edcil. <\/p>\n\n\n\n<p>O ideal \u00e9 tentar aumentar o valor do Bolsa Fam\u00edlia ou criar um programa maior focado n\u00e3o s\u00f3 nos extremamente pobres, mas nas demais linhas de pobreza, principalmente tendo recursos nos gastos atuais, sen\u00e3o corre-se o risco de gerar um entrave para o crescimento do Brasil. S\u00f3 se paga essa conta com mais impostos em uma espiral viciosa. Se o gasto \u00e9 crescente, n\u00e3o adianta s\u00f3 criar um imposto. Ele vai precisar aumentar cada vez mais. Estamos no caminho contr\u00e1rio do controle de gastos, n\u00e3o fazemos discuss\u00e3o de qualidade, s\u00f3 discutimos vincular e aumentar e deixar crescendo eternamente. A conta n\u00e3o vai fechar.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A ideia do ministro Paulo Guedes de criar um tributo sobre os dividendos  distribu\u00eddos pelas empresas resolveria alguma coisa?<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>V\u00e1rios analistas dizem que a tributa\u00e7\u00e3o sobre lucros e dividendos no Brasil \u00e9 muito baixa, mas o que precisa ser comparado \u00e9 a al\u00edquota efetiva que as empresas pagam, porque antes de distribuir dividendos as empresas pagam Imposto de Renda de pessoa jur\u00eddica e CSLL. Ambos representam uma al\u00edquota efetiva perto de 34%, \u00e9 compar\u00e1vel ao resto do mundo. Tem que diminuir o imposto de pessoa jur\u00eddica para aumentar o de lucros e dividendos. <\/p>\n\n\n\n<p>O grande problema do imposto sobre empresas \u00e9 o sistema do Simples, que beneficia empresas menores mas as incentiva ao mesmo tempo a n\u00e3o crescer e n\u00e3o mudar o regime tribut\u00e1rio, o que \u00e9 extremamente ineficiente. E poss\u00edveis dedu\u00e7\u00f5es como a pejotiza\u00e7\u00e3o, que paga bem menos imposto que um trabalhador formal. Para aumentar imposto sobre lucros e dividendos tem que revisar imposto de pessoa jur\u00eddica e impostos jur\u00eddicos como o Simples. Simplesmente aumentar sem reduzir os outros n\u00e3o faz sentido.&nbsp;<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Por que o regime tribut\u00e1rio do Simples seria prejudicial?<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>O Simples \u00e9 importante porque \u00e9 um benef\u00edcio muito grande, mas ele distorce o investimento no Brasil. Essa discuss\u00e3o enfrenta uma barreira muito grande e nem \u00e9 discutida. Essa quest\u00e3o deve ser discutida, n\u00e3o s\u00f3 lucro e dividendo.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>Tempos atr\u00e1s<\/strong>,<strong> o mercado acreditava na possibilidade de o Brasil entrar numa espiral de juros ainda mais baixos e at\u00e9 perto de zero. Isso \u00e9 plaus\u00edvel?<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>Os analistas que demandam juros cada vez mais baixos olham a infla\u00e7\u00e3o e a ociosidade da economia de curto prazo. Mas o BC n\u00e3o tem como meta apenas a infla\u00e7\u00e3o. \u00c9 obriga\u00e7\u00e3o zelar pela estabilidade financeira. Em um pa\u00eds com um risco fiscal t\u00e3o grande, quando o BC determina a Selic tamb\u00e9m determina o rendimento dos t\u00edtulos de curto prazo. Estamos encurtando a d\u00edvida hoje, deixando cada vez mais ligada \u00e0 Selic. A pergunta \u00e9: ser\u00e1 que os investidores dom\u00e9sticos v\u00e3o carregar t\u00edtulos curtos brasileiros pagando juros t\u00e3o baixos sabendo desse risco fiscal? Ou ser\u00e1 que se o juro chegar muito perto de zero os investidores n\u00e3o v\u00e3o achar mais vantajoso sair do Brasil e aplicar em taxas de juros baixas no resto do mundo onde o risco fiscal \u00e9 menor? <\/p>\n\n\n\n<p>Conseguimos duramente ter uma moeda forte, sem fuga de capitais, mas isso pode ser perdido muito rapidamente. \u00c9 s\u00f3 estourar o teto e colocar juros muito baixos. Mesmo na situa\u00e7\u00e3o de hoje, sem fuga de capitais e ampla liquidez internacional, temos que olhar a infla\u00e7\u00e3o de longo prazo. A economia est\u00e1 muito debilitada pelo choque de oferta e demanda, mas tivemos um choque cambial enorme e teremos c\u00e2mbio depreciado por mais tempo. O real continua a pior moeda entre os emergentes no ano. Isso pode ter impacto na infla\u00e7\u00e3o de m\u00e9dio prazo, ainda que o mercado n\u00e3o precifique, porque no curto prazo os choques s\u00e3o muito favor\u00e1veis. <\/p>\n\n\n\n<p>Quando tem um choque negativo de infla\u00e7\u00e3o, as infla\u00e7\u00f5es esperadas podem desancorar de forma r\u00e1pida. Hoje os choques s\u00e3o positivos porque a infla\u00e7\u00e3o vem surpreendendo para baixo, mas temos deprecia\u00e7\u00e3o do c\u00e2mbio importante e devemos estar atentos para as metas de infla\u00e7\u00e3o de m\u00e9dio prazo que t\u00eam ca\u00eddo. N\u00e3o vejo mais espa\u00e7o para a Selic cair. O problema n\u00e3o \u00e9 mais o n\u00edvel dos juros, mas fazer o cr\u00e9dito chegar na ponta. Por isso o BC vem redesenhando os programas de cr\u00e9dito.<br><\/p>\n\n\n\n<p><strong>A crise pol\u00edtica agravada pela tens\u00e3o entre o poder Executivo e outros poderes ainda representa um risco para a agenda econ\u00f4mica?<\/strong><br><\/p>\n\n\n\n<p>Essa crise pol\u00edtica piorou muito o risco da infla\u00e7\u00e3o, do fiscal e de o Brasil n\u00e3o aproveitar a liquidez internacional. Vimos uma melhora nas \u00faltimas semanas mas ela ainda \u00e9 tensa, j\u00e1 melhorou no passado e foi de muito curto prazo. \u00c9 importante tirar a tens\u00e3o dessa situa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica at\u00e9 o final do ano, um momento cr\u00edtico em que a discuss\u00e3o fiscal pode ficar mais pesada. Se a crise pol\u00edtica \u00e9 muito forte, n\u00e3o tem meio termo: ou melhora e o Brasil faz as reformas, ou a piora \u00e9 muito delet\u00e9ria. O \u00fanico ano para fazer alguma coisa \u00e9 2021, porque 2022 \u00e9 ano eleitoral. Temos pouco tempo e temos que aproveitar.<br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Economista-chefe da ARX Investimentos, Solange Srour critica a atual reforma proposta pelo governo, acredita que um novo imposto s\u00f3 muda o problema e defende a volta da antiga agenda iniciada no governo de Michel Temer.<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":15041,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[923,995,434,347,53,432,1719],"autor-wsj":[],"coauthors":[1495],"class_list":["post-14963","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia","tag-coronavoucher","tag-divida-publica","tag-impostos","tag-paulo-guedes","tag-pib","tag-reforma-tributaria","tag-teto-de-gastos"],"acf":[],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/posts\/14963","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/comments?post=14963"}],"version-history":[{"count":25,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/posts\/14963\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":15175,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/posts\/14963\/revisions\/15175"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/media\/15041"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/media?parent=14963"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/categories?post=14963"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/tags?post=14963"},{"taxonomy":"autor-wsj","embeddable":true,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/autor-wsj?post=14963"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/coauthors?post=14963"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}