{"id":744234,"date":"2025-12-29T06:00:00","date_gmt":"2025-12-29T09:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/investnews.com.br\/?p=744234"},"modified":"2025-12-27T11:02:07","modified_gmt":"2025-12-27T14:02:07","slug":"o-mundo-no-cheque-especial-quando-a-divida-publica-vira-um-problema-global","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/investnews.com.br\/economia\/o-mundo-no-cheque-especial-quando-a-divida-publica-vira-um-problema-global\/","title":{"rendered":"O mundo no cheque especial: quando a d\u00edvida p\u00fablica vira um problema global"},"content":{"rendered":"\n<p>Imagine que o mundo \u00e9 uma grande empresa onde as despesas crescem bem mais r\u00e1pido do que as vendas. E, para dar conta de seus compromissos, essa companhia precisa com frequ\u00eancia tomar empr\u00e9stimos \u2013 a um custo cada vez mais alto. Essa pode ser a descri\u00e7\u00e3o do que est\u00e1 em curso hoje na economia global. S\u00f3 que, na vida real, o governo \u00e9 justamente o departamento que mais utiliza o cart\u00e3o de cr\u00e9dito corporativo para sustentar as opera\u00e7\u00f5es e investimentos. E a fatura j\u00e1 est\u00e1 t\u00e3o alta que agora exige que ele dedique uma fatia cada vez maior de sua receita apenas para pagar os juros.<\/p>\n\n\n\n<p>A soma de todas essas d\u00edvidas \u2014 p\u00fablicas e privadas, de governos, empresas e fam\u00edlias \u2014 atingiu um novo recorde no terceiro trimestre de 2025: quase <strong>US$ 346 trilh\u00f5es<\/strong>, o equivalente a mais de tr\u00eas vezes o PIB mundial. O n\u00famero \u00e9 do Monitor de D\u00edvida Global, do Instituto de Finan\u00e7as Internacionais (IIF). S\u00f3 nos primeiros nove meses do ano, o estoque global avan\u00e7ou <strong>US$ 26 trilh\u00f5es<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>O principal motor segue sendo o setor p\u00fablico. A d\u00edvida dos governos chegou a <strong>US$ 105,8 trilh\u00f5es<\/strong> no terceiro trimestre \u2013 o equivalente a 95,4% do PIB. E tudo indica que esse n\u00famero ainda vai crescer. Grandes pot\u00eancias como Estados Unidos, Alemanha e China operam com d\u00e9ficits elevados e, mesmo assim, j\u00e1 sinalizam novos pacotes de est\u00edmulo fiscal para 2026. Por isso, o Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI) alerta que esse endividamento p\u00fablico pode chegar a 117% do PIB at\u00e9 2027 se nada for feito.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"799\" src=\"https:\/\/media.investnews.com.br\/uploads\/2025\/12\/grafico-divida.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-744266\" srcset=\"https:\/\/media.investnews.com.br\/uploads\/2025\/12\/grafico-divida.png 1024w, https:\/\/media.investnews.com.br\/uploads\/2025\/12\/grafico-divida-300x234.png 300w, https:\/\/media.investnews.com.br\/uploads\/2025\/12\/grafico-divida-768x599.png 768w, https:\/\/media.investnews.com.br\/uploads\/2025\/12\/grafico-divida-172x134.png 172w, https:\/\/media.investnews.com.br\/uploads\/2025\/12\/grafico-divida-150x117.png 150w\" sizes=\"auto, (max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<p>Falar de problema fiscal no Brasil pode soar como not\u00edcia velha \u2014 e, de fato, \u00e9. O que tem de novo agora \u00e9 que esse desequil\u00edbrio deixou de ser uma caracter\u00edstica quase exclusiva dos emergentes. Foram as economias maduras \u2014 como Estados Unidos, Fran\u00e7a e Reino Unido \u2014 os principais respons\u00e1veis pela acelera\u00e7\u00e3o recente. Pa\u00edses emergentes tamb\u00e9m bateram marcas hist\u00f3ricas, como China, Brasil e M\u00e9xico. Mas quem lidera o ranking de endividamento, segundo o IIF, s\u00e3o pa\u00edses desenvolvidos: o Jap\u00e3o, com d\u00edvida equivalente a <strong>211,9% do PIB<\/strong>, e a It\u00e1lia, com <strong>141%<\/strong>.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO Brasil sempre esteve no grupo dos pa\u00edses mais fr\u00e1geis do ponto de vista fiscal. O que mudou \u00e9 que agora os pa\u00edses desenvolvidos tamb\u00e9m passaram a enfrentar esse problema e a pagar um pr\u00eamio maior para rolar suas d\u00edvidas\u201d, afirma Tony Volpon, ex-diretor de Assuntos Internacionais do Banco Central.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, a d\u00edvida bruta do setor p\u00fablico estava em 78,6% do PIB em outubro, pelos dados do Banco Central. Pelos crit\u00e9rios do Fundo Monet\u00e1rio Internacional (FMI), por\u00e9m, esse n\u00famero sobe para <strong>90,9% do PIB<\/strong>. A diferen\u00e7a est\u00e1 na inclus\u00e3o dos t\u00edtulos p\u00fablicos que ficam na carteira do pr\u00f3prio BC, usados principalmente nas opera\u00e7\u00f5es compromissadas \u2014 instrumento que ajuda a manter o custo do dinheiro alinhado \u00e0 Selic. Hoje, o estoque dessas opera\u00e7\u00f5es se aproxima de R$ 2 trilh\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Gastos, gastos, gastos<\/h2>\n\n\n\n<p>O caminho at\u00e9 esse n\u00edvel de endividamento passou, inevitavelmente, pela pandemia. Para atravessar a crise, governos adotaram programas de apoio social em larga escala, enquanto bancos centrais derrubaram os juros para perto de zero. No Brasil, a Selic chegou a 2%. O dinheiro barato virou um incentivo poderoso ao endividamento.<\/p>\n\n\n\n<p>Governos e empresas aproveitaram o momento para captar recursos, financiar projetos e expandir opera\u00e7\u00f5es. O problema veio quando o ciclo virou. Para conter a infla\u00e7\u00e3o provocada pelo excesso de liquidez, os juros voltaram a subir \u2014 e quem se endividou passou a conviver com um custo muito maior.<\/p>\n\n\n\n<p>Esse impacto ainda pesa nos balan\u00e7os de muitas empresas e, sobretudo, nas contas p\u00fablicas. Segundo o IIF, o aumento recente dos gastos militares nas grandes pot\u00eancias adicionou uma camada extra de press\u00e3o aos or\u00e7amentos em 2025, for\u00e7ando governos a esticar ainda mais contas que j\u00e1 estavam no limite.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"flourish-embed flourish-table\" data-src=\"visualisation\/26985732?1253931\"><script src=\"https:\/\/public.flourish.studio\/resources\/embed.js\"><\/script><noscript><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/public.flourish.studio\/visualisation\/26985732\/thumbnail\" width=\"100%\" alt=\"table visualization\" \/><\/noscript><\/div>\n\n\n\n<p>No setor privado, uma nova onda de endividamento tamb\u00e9m ganha forma, impulsionada pela corrida tecnol\u00f3gica. A d\u00edvida de empresas n\u00e3o financeiras se aproxima de US$ 100 trilh\u00f5es, com destaque para companhias ligadas \u00e0 <a href=\"https:\/\/investnews.com.br\/guias\/inteligencia-artificial\/\">intelig\u00eancia artificial<\/a> e \u00e0 transi\u00e7\u00e3o energ\u00e9tica. S\u00e3o setores que exigem investimentos pesados em infraestrutura \u2014 como centros de dados \u2014 e que t\u00eam recorrido cada vez mais aos mercados de cr\u00e9dito e t\u00edtulos, em vez de usar caixa pr\u00f3prio.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Bola de neve<\/h2>\n\n\n\n<p>Quando algu\u00e9m j\u00e1 muito endividado volta a pedir dinheiro emprestado, a rea\u00e7\u00e3o do credor \u00e9 previs\u00edvel: negar o cr\u00e9dito ou cobrar mais caro por ele. \u00c9 exatamente isso que vem acontecendo \u2014 e que torna o cen\u00e1rio fiscal global mais delicado.<\/p>\n\n\n\n<p>Essa percep\u00e7\u00e3o aparece com clareza nos juros de longo prazo. A T-note de 10 anos, t\u00edtulo do Tesouro americano que serve de refer\u00eancia para o mercado global, paga hoje mais de 4,10% ao ano, acima do juro b\u00e1sico dos Estados Unidos, atualmente entre 3,5% e 3,75%.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO mercado est\u00e1 cobrando um pr\u00eamio que n\u00e3o cobrava antes, porque v\u00ea o quadro fiscal piorando\u201d, diz Volpon. \u201cCom isso, o ambiente para rolar a d\u00edvida ficou muito mais dif\u00edcil.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, o juro longo tamb\u00e9m preocupa. As taxas de dez anos est\u00e3o pr\u00f3ximas a 13%. \u00c9 um n\u00edvel abaixo do da Selic, que est\u00e1 em 15%. Mas \u00e9 muito preocupante: imagine o quanto custa uma d\u00edvida que \u00e9 corrigida anualmente a uma taxa desse patamar.<\/p>\n\n\n\n<p>Com juros mais altos, o d\u00e9ficit nominal \u2014 que \u00e9 o mesmo que ficar no vermelho todo m\u00eas depois de pagar todos os seus boletos mais o juro da sua d\u00edvida \u2014 n\u00e3o cede. Alguns governos passam, ent\u00e3o, a concentrar emiss\u00f5es em prazos mais curtos. O Tesouro americano, por exemplo, tem vendido cerca de US$ 40 bilh\u00f5es por m\u00eas em t\u00edtulos de curto prazo. O efeito \u00e9 de uma bola de neve: o juro sobe porque a situa\u00e7\u00e3o fiscal piora \u2014 e a situa\u00e7\u00e3o fiscal piora porque o juro permanece elevado.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Riscos no radar<\/h2>\n\n\n\n<p>O ano de 2026 imp\u00f5e um teste relevante \u00e0 estabilidade financeira global. Um verdadeiro pared\u00e3o de vencimentos exigir\u00e1 um esfor\u00e7o massivo de refinanciamento por parte de governos e empresas. Segundo o IIF, os mercados maduros ter\u00e3o de resgatar mais de US$ 16 trilh\u00f5es em t\u00edtulos, concentrados em d\u00f3lar, euro e libra. J\u00e1 os emergentes enfrentam um recorde de US$ 8 trilh\u00f5es em vencimentos, sendo a maior parte disso em moeda local.<\/p>\n\n\n\n<p>Para esses pa\u00edses, atrair capital privado de forma sustent\u00e1vel acaba sendo uma quest\u00e3o urgente \u2014 sobretudo para aqueles com acesso limitado aos mercados internacionais. A participa\u00e7\u00e3o do setor privado nos processos de renegocia\u00e7\u00e3o ser\u00e1 decisiva para que o fluxo de investimentos volte ap\u00f3s o pico de pagamentos.<\/p>\n\n\n\n<p>Em resumo, o sistema financeiro global se aproxima de uma prova de fogo: refinanciar d\u00edvidas em larga escala num ambiente de juros ainda elevados e novas press\u00f5es fiscais.<\/p>\n\n\n\n<h2 class=\"wp-block-heading\">Crise \u00e0 frente?<\/h2>\n\n\n\n<p>A grande quest\u00e3o \u00e9 se esse cen\u00e1rio pode desembocar em uma crise fiscal \u2014 isto \u00e9, no risco de calote soberano. O Brasil viveu algo semelhante nos anos 1980, quando o colapso da d\u00edvida externa levou \u00e0 desvaloriza\u00e7\u00e3o cambial e \u00e0 hiperinfla\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Para Volpon, esse risco \u00e9 baixo entre pa\u00edses desenvolvidos. Os juros j\u00e1 come\u00e7aram a cair nas grandes economias e, em algum momento, o al\u00edvio deve chegar tamb\u00e9m \u00e0s taxas de longo prazo.<\/p>\n\n\n\n<p>No Brasil, por\u00e9m, o desafio \u00e9 maior. Os juros seguem elevados e, embora o in\u00edcio do ciclo de cortes pare\u00e7a pr\u00f3ximo, ainda h\u00e1 muita incerteza sobre at\u00e9 onde a Selic pode cair. \u201cFaz muita diferen\u00e7a se ela vai para 12% ou para 9%\u201d, diz Volpon. \u00c9 nessa margem que o risco \u2014 ou o al\u00edvio \u2014 pode se definir.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Com d\u00edvida p\u00fablica perto de 100% do PIB, juros ainda elevados apertam as contas de governos ao redor do mundo<\/p>\n","protected":false},"author":112,"featured_media":744279,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"post-template-special.php","format":"standard","meta":{"_acf_changed":false,"inline_featured_image":false,"footnotes":""},"categories":[5],"tags":[155,995,236,283,354],"autor-wsj":[],"coauthors":[102473],"class_list":["post-744234","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-economia","tag-brasil","tag-divida-publica","tag-eua","tag-governo-federal","tag-juros"],"acf":[],"amp_enabled":true,"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/posts\/744234","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/users\/112"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/comments?post=744234"}],"version-history":[{"count":13,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/posts\/744234\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":744330,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/posts\/744234\/revisions\/744330"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/media\/744279"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/media?parent=744234"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/categories?post=744234"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/tags?post=744234"},{"taxonomy":"autor-wsj","embeddable":true,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/autor-wsj?post=744234"},{"taxonomy":"author","embeddable":true,"href":"https:\/\/investnews.com.br\/inv-api\/wp\/v2\/coauthors?post=744234"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}