O índice Stoxx Europe 600 caiu 1,1% às 14h32 em Paris, com os setores mais expostos ao mercado americano — incluindo montadoras e ações de luxo — sofrendo fortes perdas. O setor de defesa avançou diante do aumento das tensões geopolíticas. Os futuros de ações dos EUA também recuaram, enquanto o mercado à vista permaneceu fechado por conta de um feriado.
Os indicadores de risco de crédito europeu subiram, esfriando o que já deveria ser um início de semana mais tranquilo para emissões de dívida, dado o feriado nos EUA. O índice iTraxx Crossover, que mede o risco de crédito de empresas com grau especulativo (junk), avançou até 8,5 pontos-base, segundo dados compilados pela Bloomberg. Um indicador semelhante para empresas com grau de investimento subiu até 1,8 ponto-base.
No sábado, Trump anunciou uma tarifa de 10% a partir de 1º de fevereiro sobre produtos de países europeus que se mobilizaram para apoiar a Groenlândia diante de ameaças dos EUA de tomar o território. Ele afirmou que as tarifas aumentariam para 25% em junho, caso não seja fechado um acordo para a “compra completa e total da Groenlândia”. O ministro das Finanças da Alemanha disse que Trump cruzou uma linha vermelha e pediu que a Europa prepare sua medida comercial de retaliação mais forte.
“Se olharmos estritamente para o aumento das tarifas, é algo que, do ponto de vista econômico, poderia ser absorvido”, disse Vincent Juvyns, estrategista-chefe de investimentos do ING em Bruxelas. “Mas a possibilidade de uma ruptura dentro do mundo ocidental teria consequências cuja dimensão eu não consigo medir.”
Em outras classes de ativos, o dólar americano caiu frente à maioria das moedas do Grupo dos Dez, enquanto o franco suíço — um tradicional porto seguro — se destacou. Títulos públicos de curto prazo lideraram os ganhos, com o rendimento do título alemão de dois anos recuando até quatro pontos-base, para 2,07%. Os futuros dos Treasuries de 10 anos dos EUA ficaram estáveis, indicando pouca variação nos rendimentos. O mercado à vista de títulos americanos está fechado.
Embora a expectativa fosse de desaceleração na emissão de bônus na Europa após o ritmo recorde recente, em função do feriado nos EUA, alguns emissores optaram por adiar suas operações e adotar uma postura de “esperar para ver” diante da incerteza, segundo pessoas familiarizadas com as transações.
Há apenas uma oferta no mercado primário em euros, do banco suíço Zuercher Kantonalbank, com rating AAA, tornando esta a segunda-feira mais fraca para emissões desde dezembro de 2024, de acordo com dados da Bloomberg.
O anúncio de Trump provocou uma reação imediata de líderes europeus. A União Europeia estaria em negociações para potencialmente impor tarifas sobre € 93 bilhões (US$ 108 bilhões) em produtos dos EUA, caso Trump leve adiante a ameaça da tarifa de 10%. A reação mais concreta e imediata da UE foi a decisão de suspender a aprovação do acordo comercial fechado com os EUA em julho.
Montadoras caem
Entre ações individuais, a gigante francesa do luxo LVMH caiu mais de 4%, na maior queda desde abril, enquanto as montadoras alemãs Volkswagen AG e Mercedes-Benz Group recuaram pelo menos 3% cada. A empresa de defesa Rheinmetall AG subiu mais de 2%.
“Uma escalada da guerra comercial entre EUA e Europa motivada pela Groenlândia pode apagar a maior parte do crescimento dos lucros europeus em 2026”, escreveu Laurent Douillet, estrategista sênior de ações da Bloomberg Intelligence. “Isso pode desencadear uma correção de alguns pontos percentuais”, acrescentou.
Economistas do Goldman Sachs Group estimam que uma tarifa americana de 10% reduziria o PIB real entre 0,1% e 0,2% nos países afetados, via menor comércio, com a Alemanha sofrendo o maior impacto. “O efeito pode ser maior caso haja impactos negativos sobre a confiança ou os mercados financeiros”, escreveram em nota.
A ameaça tarifária de Trump interrompe de forma indesejada a recente alta das ações europeias, que vinham superando seus pares americanos à medida que investidores direcionavam recursos para setores regionais, como defesa, mineração e fabricantes de equipamentos para chips. Como resultado, o índice europeu vinha mostrando sinais de superaquecimento e agora está no nível de sobrecompra mais elevado em 26 anos.
“O nervosismo é palpável. No fim das contas, há tantos problemas se acumulando — de cartões de crédito à independência do Fed e às tarifas — que realmente não vejo motivo para os mercados acionários continuarem rompendo novos recordes”, disse Alexandre Baradez, analista-chefe de mercado da IG em Paris.
Desde o início de 2025, o Stoxx Europe 600 acumulou alta de 36% em dólares até sexta-feira, o dobro do ganho do S&P 500 no mesmo período. O índice europeu agora é negociado a quase 16 vezes o lucro projetado, acima da média dos últimos 15 anos, reduzindo o desconto em relação aos pares americanos para cerca de 30%.
O Deutsche Bank AG prevê impacto limitado para o euro, em parte devido ao quanto os EUA dependem da Europa para capital. As tarifas também podem servir de catalisador para maior coesão política na UE, o que reduziria a chance de uma desvalorização sustentada do euro frente ao dólar nesta semana.
“O principal ponto a observar nos próximos dias será se a UE decide ativar seu instrumento anti-coerção, colocando sobre a mesa medidas que afetem os mercados de capitais”, escreveu George Saravelos, chefe global de pesquisa cambial do Deutsche Bank, em nota a clientes.
Ainda assim, diversos participantes do mercado expressaram confiança de que um confronto total será evitado. Muitos citaram o jargão popular entre investidores conhecido como “Trump Always Chickens Out” (Trump sempre recua).
“Vai ser mais um TACO”, disse David Kruk, chefe de trading da La Financière de l’Echiquier, acrescentando que mantém sua visão otimista para o ano.
Krishna Guha, chefe de estratégia para bancos centrais da Evercore ISI, observou que uma decisão iminente da Suprema Corte dos EUA pode limitar a capacidade de Trump de impor tarifas.
“Os mercados vão operar em modo aversão ao risco, mas apostando que ou a Suprema Corte vai retirar de Trump essa autoridade, ou ele acabará promovendo mais uma reversão do tipo TACO”, afirmou.
