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Dólar fraco eleva ganhos das bolsas emergentes

Alta do Ibovespa em dólar alcança 17% no ano contra 1,4% do S&P 500 americano

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Para o presidente Donald Trump, o dólar funciona como um ioiô que ele pode puxar para cima ou para baixo. Para investidores em ações, porém, esse brinquedo parece quebrado — e a moeda americana mais fraca virou o mais novo obstáculo na hora de precificar papéis na bolsa nos EUA.

A conta não é simples. Um dólar em queda está longe de ser veneno puro para o mercado acionário dos Estados Unidos. Exportadores tendem a encontrar compradores com mais facilidade, e multinacionais se beneficiam de receitas externas mais fortes quando convertidas para a moeda local.

Mas há efeitos colaterais. Ativos americanos ficam menos atraentes, o que reduz o fluxo de recursos para empresas dos EUA e direciona dinheiro a mercados internacionais. Fabricantes americanos passam a pagar mais caro por insumos produzidos no exterior, o que pode importar inflação para produtos finais vendidos internamente.

Trump insiste que não está preocupado com o dólar, apesar da recente desvalorização — comentário que assustou operadores de câmbio e levou, mais tarde, o secretário do Tesouro, Scott Bessent, a reiterar a política histórica de Washington de defesa de uma moeda forte.

O dólar até reagiu na sexta-feira (30), com o maior avanço desde maio, mas segue bem abaixo do nível de um ano atrás — algo que não passa despercebido aos investidores.

Dólar fraco eleva ganhos nos mercados emergentes

A fraqueza da moeda americana estimula uma rotação de recursos das ações dos EUA para mercados internacionais, onde os retornos em moeda local superaram com folga os índices americanos.

Em 2026, o S&P 500 acumula alta de 1,4%, pouco atrás do ganho de 3,2% do Stoxx Europe 600. Mas, ao considerar a queda do dólar, o índice americano fica bem mais para trás. O benchmark europeu sobe 4,4%, as ações no Japão avançam 7,2% e, no Brasil, o salto chega a expressivos 17%.

“Muita gente, tanto nos EUA quanto fora, está olhando para oportunidades fora do mercado americano, porque você encontra avaliações mais baixas e ainda pode ter o vento favorável do câmbio”, afirmou Zaccarelli.

A dinâmica não é nova. No ano passado, vários desses mercados já haviam superado o S&P 500 em moeda local — e atropelaram o índice quando os retornos foram ajustados pelo dólar.

Esse desempenho relativo pode se retroalimentar. À medida que investidores estrangeiros veem seus ativos nos EUA perderem valor em moeda local, cresce a disposição de retirar recursos de empresas americanas.

“Você quer estar posicionado em moedas que estão se fortalecendo”, disse Michael Rosen, presidente e diretor de investimentos da Angeles Investment Advisors, gestora que administra cerca de US$ 47 bilhões.

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Ações americanas na berlinda

“Um dólar em enfraquecimento é, no saldo geral, negativo para o mercado acionário dos EUA”, disse Chris Zaccarelli, diretor de investimentos da Northlight Asset Management.

Segundo ele, investidores devem reajustar seus portfólios para dar mais peso a ações americanas voltadas à exportação. E há números que sustentam essa tese. Desde o pior momento do mercado, em 8 de abril, uma cesta do Barclays com empresas beneficiadas por um dólar fraco disparou 70%, contra alta de 39% do S&P 500. Já um grupo de companhias favorecidas por um dólar forte avançou apenas 11%.

Entre as vencedoras do dólar fraco estão Lam Research, Freeport-McMoRan e News Corp., todas com grande parte das receitas no exterior. Esse grupo sobe 8,1% apenas em janeiro, enquanto o índice do dólar da Bloomberg recuou 1,3%.

A desvalorização do dólar, porém, não é só vantagem para mercados externos, especialmente para economias exportadoras como Taiwan, Coreia do Sul e partes da Europa. Gigantes como Samsung e Taiwan Semiconductor Manufacturing Company (TSMC) podem ver suas margens pressionadas com a queda das receitas em moeda local.

Ainda assim, um dólar mais fraco costuma funcionar como um poderoso impulso macroeconômico, ao baratear o financiamento em moeda americana e aliviar as condições financeiras globais. Importações precificadas em dólar — de energia a matérias-primas — ficam mais baratas, ajudando empresas a preservar ou até ampliar margens.

“Coreia do Sul e Taiwan historicamente se beneficiam de um dólar fraco”, disse Gary Dugan, CEO da Global CIO Office. “Cingapura também pode ganhar com a entrada de capital, à medida que investidores globais buscam moedas fortes associadas a ativos que pagam rendimento, como os fundos imobiliários.”

Empresas do Stoxx 600 geram quase 60% de suas vendas no exterior, muitas delas nos EUA, segundo dados do Goldman Sachs. Em comparação, esse percentual varia de 15% a 28% entre companhias dos EUA, da China e de mercados emergentes em geral.

Diante disso, investidores europeus têm priorizado empresas mais voltadas ao mercado doméstico.

“Minha estratégia é buscar companhias que produzem localmente e não são obrigadas a converter e repatriar lucros”, disse Gilles Guibout, gestor da BNP Paribas AM. “É uma forma de privilegiar ações menos expostas às oscilações do dólar.”

Uma análise de estrategistas do Citigroup mostra que uma valorização de 10% do euro frente ao dólar pode reduzir o lucro por ação das empresas europeias em cerca de 2%. Setores como commodities, alimentos e bebidas, saúde, luxo e automóveis estão entre os mais sensíveis.

Moeda americana vai continuar a enfraquecer

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Ainda assim, o dólar fraco não determina sozinho o rumo das ações ou dos lucros corporativos nos EUA. Nos últimos 25 anos, a correlação entre variações da moeda americana e o crescimento anual do lucro por ação das empresas foi de apenas 0,04 em base trimestral, segundo a Bloomberg Intelligence.

“Apenas movimentos muito abruptos de alta ou queda do dólar tiveram impacto relevante nos lucros dos índices”, escreveu o analista Nathaniel Welnhofer, da BI.

E investidores podem estar justamente atravessando um período de queda acentuada — apesar da recuperação da moeda na sexta-feira, após Trump indicar Kevin Warsh para comandar o Federal Reserve. A Bannockburn Capital Markets projeta uma desvalorização de 8% a 9% do dólar neste ano.

Uma queda dessa magnitude é algo com que os mercados não lidam seriamente há anos. Desde pelo menos os anos 1980, a posição oficial de Washington é que um dólar forte atende aos interesses do país — posição reiterada por Bessent na semana passada.

Ainda assim, o Bloomberg Dollar Spot Index já recuou quase 10% desde a posse de Trump, refletindo a deterioração do sentimento do mercado em relação à moeda americana. Tarifas, pressão sobre o Fed para cortar juros e uma postura externa mais agressiva ajudaram a azedar o humor dos investidores.

“É um governo que claramente quer um dólar mais fraco, e os mercados vão acabar entregando isso a ele”, disse Rosen. Os investidores já estão refazendo as contas com esse cenário em mente.

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