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Carlos Kawall: na conta da inflação, câmbio pesa mais do que choque do petróleo

Cenário de inflação abaixo de 4% e Selic em 12,25% ao ano no fim de 2026 não estão descartados, diz ex-secretário do Tesouro e sócio da Oriz Partners

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A escalada do barril de petróleo acima de US$ 100 (antes do recuo no fim da tarde) reacendeu o debate sobre a inflação no Brasil e colocou em xeque a trajetória de cortes de juros que o mercado esperava.

Mas o cenário ainda não justifica alarme: ainda é possível esperar que a inflação ao consumidor medida pelo IPCA feche o ano abaixo de 4%, o que permite ao Banco Central reduzir a taxa Selic já a partir da reunião da semana que vem. A leitura é Carlos Kawall, ex-secretário do Tesouro Nacional e diretor da Oriz Partners.

A condição para o BC seguir com essa agenda, ele explica, é que o câmbio não se deprecie de forma persistente. Um dólar mais forte pode elevar a inflação porque encarece produtos importados e insumos cotados na moeda americana, como combustíveis, fertilizantes, alimentos e bens industriais.

Com custos maiores, parte desse aumento tende a ser repassada aos preços ao consumidor, impulsionando a inflação. Mas, com o câmbio comportado, não há sinais de que esse seja o caminho agora. Veja a seguir os principais trechos da entrevista ao InvestNews.

Como você enxergava o cenário para a inflação antes de o conflito se intensificar?

Até o final de fevereiro, nós tínhamos um quadro que era ainda desafiador, mas benigno na direção de uma inflação abaixo de 4% neste ano, talvez mais próxima até de 3,5%. O consenso do [relatório] Focus hoje [segunda] de manhã é 3,91%, com muita gente falando em 3,8%.

As principais dificuldades eram o mercado de trabalho muito apertado (desemprego baixo e salários altos, que geram inflação) e a inflação de serviços, que voltou a preocupar e a reverter uma tendência que até meados do ano passado era mais benigna.

Mesmo assim, o quadro vinha sendo sobretudo favorável: dólar mais fraco, inflação de alimentos baixa no ano passado com expectativas favoráveis para este ano, e perspectivas positivas para combustíveis.

E o que muda com o ataque ao Irã?

O grande problema agora é mais o Estreito de Ormuz e a questão da logística da região, e menos a produção do Irã em si. Estamos falando de 3 milhões de barris por dia em um mercado com oferta total por volta de 85 milhões a 90 milhões de barris, em que já havia excesso de oferta. Não me parece que isso por si só teria o efeito de gerar um preço permanentemente mais alto. Tudo vai depender de quão longo é o conflito.

Vale lembrar que nos últimos dois a três anos, desde que a guerra de Ucrânia e Rússia se acalmou, o mercado esteve estruturalmente sobreofertado, com aumento de produção nos Estados Unidos, no Canadá e no Brasil, fora da área de influência da Opep (a Organização dos Países Exportadores de Petróleo). E, nos próximos anos, provavelmente haverá também um aumento relevante de oferta da Venezuela.

Se a Petrobras decidir repassar a alta do petróleo, qual é a conta para o IPCA?

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A cada 10% de aumento dos preços da Petrobras, há algo como 0,15 a 0,20 ponto percentual [de impacto] no IPCA do ano. Mas tudo depende de o aumento ser permanente ou não, pode ser que suba e depois caia, pode ser que seja zero. São muitos “poréns” agora.

A presidente da Petrobras [Magda Chambriard] sinalizou cautela na semana passada, falando sobre não agir prematuramente diante da volatilidade, o que é correto. Mas vamos lembrar que é um ano eleitoral: do ponto de vista do governo, vai haver muita resistência a fazer um grande aumento de combustíveis. O impacto poderia ir de 0,1 ponto percentual a 0,2 ponto percentual ao longo do ano, talvez um pouco mais.

Isso muda muito a política monetária do Banco Central?

Não, porque é um choque de oferta. A política monetária não é feita para combater choque de oferta. Ela é feita para combater os efeitos secundários. Se isso se disseminasse para o câmbio, aí, sim, teríamos uma questão.

A decisão da semana que vem vai acontecer em um ambiente de bastante incerteza sobre a extensão do conflito. Minha visão é a de iniciar o ciclo com corte de 0,50 ponto percentual e chegar ao final do ano a 12,25% [ao ano]. Há até quem fale que o Banco Central possana semana que vem só cortar 0,25 ponto percentual. É uma possibilidade, mas não é meu cenário.

Vale lembrar que a última decisão do BC foi tomada com o dólar a R$ 5,35. Depois disso, o dólar chegou a bater abaixo de R$ 5,20. O quadro estava indo muito bem, havia até quem falasse em começar com 0,50 ponto percentual e depois acelerar a magnitude dos cortes.

Essa visão mais otimista acabou sendo revertida pelo conflito, mas não é como se o cenário tivesse se invertido.

Mas a contaminação para a inflação poderia se dar via outros caminhos, como fertilizantes e commodities?

Sim, pode haver outros impactos como esses, mas são mais indiretos e bem menos expressivos, além de se darem ao longo do tempo. O relevante é o comportamento do câmbio, que até aqui está bem controlado.

Se o câmbio começar a se depreciar de forma mais intensa e persistente, o Banco Central precisaria rever a estratégia?

Sim, com certeza. Esse é o grande ponto. Mas não parece que isso seja muito provável e há uma razão estrutural para isso. Dez anos atrás, o Brasil não exportava petróleo liquidamente. Quando acontecia um choque de preço, muitas vezes isso nem era repassado para o combustível por questões políticas, mas a importação ficava mais cara. Não tinha jeito de escapar.

Agora que o Brasil é um exportador, o viés para o câmbio é apreciar, e não depreciar, ainda que tenhamos um processo de busca por proteção em alguns momentos. É muito diferente.

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Portanto no saldo total essa alta pode até ser positiva para o Brasil?

Pode, sim. Se houvesse um aumento de 10% no preço do petróleo, haveria um efeito inflacionário dependendo do repasse. Mas há também uma apreciação do câmbio, que beneficia o custo dos bens importados, inclusive do próprio petróleo em reais, mitigando o aumento.

O país já teve esse exemplo em 2022, com a guerra da Rússia na Ucrânia. Nas primeiras semanas, todas as moedas caíram em relação ao dólar de maneira generalizada. Ao longo do tempo, houve uma diferenciação: países importadores sofreram mais, e exportadores de petróleo se beneficiaram. O real se apreciou.

O que o conflito atual fez foi tirar um quadro que estava indo muito bem, com o dólar abaixo de R$ 5,20. Se o preço do petróleo se mantiver alto, a performance do real deveria ser melhor do que a das demais moedas emergentes. Talvez o dólar não caia muito mais de onde está, mas também não deve subir muito.

O cenário de inflação abaixo de 4% e o espaço para corte de juros continuam valendo?

Sim. Não estou supondo que os preços vão se estabilizar nesses patamares. Pode haver uma alta do petróleo e depois pode ser que ele recue ao longo do ano. E a política da Petrobras em ano eleitoral vai ter um viés de não repassar integralmente se houver uma alta mais expressiva que dure algum tempo. Todos esses fatores me levam a acreditar que ainda temos espaço para uma inflação abaixo de 4% neste ano e com espaço para corte de juros.

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