No acumulado deste ano, as ações preferenciais da companhia (PETR4) acumulam ganhos de 49,4%. Já o papel preferencial (PETR3) sobe 56,3% até agora. O Ibovespa, para se ter uma ideia, avança 12,6% no mesmo período.
Nos cálculos dos analistas do setor e gestores, US$ 70 o barril do petróleo Brent, referência global para a commodity, é preço mínimo para manter a Petrobras com forte geração de caixa e, portanto, como boa alternativa no setor de óleo e gás brasileiro.
Esse também é o piso para garantir que a empresa mantenha o pagamento dos dividendos ordinários. Com o Brent na casa dos US$ 80, analistas do BTG Pactual estimam um dividend yield (rentabilidade dos dividendos) de cerca de 9%.
Nesse contexto, a geração de caixa livre sobre o patrimônio (quanto caixa a empresa produz para cada real de patrimônio dos acionistas) fica em aproximadamente 10% para 2026. São números que se destacam frente a pares globais, que negociam com retorno total médio ao acionista de 5,5%.
Com a guerra do Irã e a escassez de petróleo globalmente, a matéria-prima ultrapassou os US$ 100. Se houver uma solução para o conflito, os preços devem se estabilizar em níveis mais baixos, mas não tão baixos a ponto de prejudicar a geração de caixa da Petrobras, sobretudo porque levaria tempo até que a produção global voltasse ao normal.
Imposto sobre exportações, aquisições e o ‘efeito Braskem’
Outro tema relevante para a empresa é o imposto sobre exportações. O governo adotou medidas para aliviar o impacto dos preços dos combustíveis com a alta do petróleo, entre elas um imposto de 12% sobre exportações de óleo cru.
Isso representa um custo direto para a Petrobras, grande exportadora da commodity, já incorporado nos modelos dos analistas. Ao mesmo tempo, o aumento do diesel nas refinarias em 11,6% — para aproximar os preços locais dos internacionais — representa uma receita adicional relevante para a empresa.
O aumento não resolve a defasagem em relação aos preços globais, mas, considerando que os custos de extração de petróleo e de refino seguem iguais, o aumento compensa em parte a incidência do novo imposto.
Além disso, considerados em conjunto, o ambiente atual de preços mais altos e o ajuste nos combustíveis melhoram materialmente a geração de caixa da Petrobras, mais do que compensando os custos adicionais.
Analistas também observam o movimento da Petrobras em torno de aquisições de etanol de milho e da necessidade de participar da reestruturação da Braskem. Essa participação poderia se dar por meio de uma injeção direta de recursos ou via ajuste de preços de nafta, em que a estatal precisaria rever quanto cobra pela matéria-prima vendida à Braskem.
Os dois fatores podem gerar impactos importantes sobre o fluxo de caixa e nos dividendos no curto prazo – um dos maiores riscos para o investimento na empresa agora porque os preços das ações não estão “embutindo” esses eventos atualmente.
Eleições: a maior dúvida
Como uma estatal, a Petrobras está sempre sujeita ao risco de ingerências do governo, especialmente em relação ao repasse dos preços do petróleo para o mercado interno – exatamente como aconteceu recentemente. Com a forte alta registrada no ano, é possível afirmar que parte do otimismo já está refletida nos preços, tornando os riscos ainda mais relevantes de serem monitorados.
Esse tema é o que mais divide opiniões no mercado. Enquanto alguns dos grandes fundos de investimento no país mantêm posição vendida, ou short – que ganha com a queda das ações – exatamente por esse elemento, há aqueles que enxergam pouca mudança de cenário.
Das duas, uma: ou o atual governo vence as eleições e, tal qual até aqui, não interfere tanto na companhia, ou muda-se o governo para uma linha mais liberal, o que significa um cenário potencial melhor.
Nesse segundo caso, analistas do BTG estimam que uma eventual compressão no custo de capital da empresa poderia levar o preço-alvo das ações a US$ 26 por ADR (a ação negociada no mercado americano), contra os US$ 21 do cenário-base atual.
“Acreditamos que é menos provável que o atual governo fará mudanças significativas para a Petrobras se reeleito”, afirma o BTG Pactual, em relatório. “Na verdade, as medidas anunciadas na semana passada reforçam a abordagem cautelosa do governo em relação à governança e aos preços dos combustíveis no mercado interno.”