O dólar fechou em alta de 0,62% frente ao real cotado a R$ 5,1657. No ano, a moeda americana ainda acumula uma queda de 6,40%.
Se os efeitos do conflito no Oriente Médio começarem a se dissipar, como esperam gestores e analistas nesse momento, voltam a prevalecer os fatores estruturais que têm mantido a moeda americana mais fraca frente ao real.
O movimento de diversificação internacional para fora dos EUA atualmente em curso pode perder força enquanto durarem as incertezas sobre a oferta de petróleo e os impactos sobre os mercados globais. Mas a tendência é que essa “rotação de portfólios”, que alimentou o mercado brasileiro desde o ano passado, prossiga.
O dinheiro de fora tem sustentado o Ibovespa no território dos recordes e mantido o real mais forte frente ao dólar há meses. Os estrangeiros já colocaram R$ 35 bilhões na bolsa brasileira só nos dois primeiros meses de 2026, acima de tudo que entrou em 2025, de R$ 27 bilhões.
O J.P Morgan é uma das casas que enxerga uma duração mais curta do impacto da guerra sobre os ativos internacionais. O banco americano avaliou conflito entre EUA e Israel contra o Irã “como uma janela de oportunidade para aumentar a exposição em ações” de mercados fora dos Estados Unidos, em especial para os emergentes.
O banco também estima que eventuais altas nos preços do petróleo tendem a perder força diante do excesso de oferta no mercado.
A diversificação internacional para fora dos EUA teve início em meio às preocupações com o crescimento acelerado da dívida americana e, posteriormente, recebendo mais impulso com as turbulências causadas pelas tarifas impostas pelo presidente Donald Trump, no início de 2025.
Mas, desde o fim do ano passado, outros fatores entraram nessa equação. Muitos investidores passaram a reduzir a exposição às ações de tecnologia em meio aos desafios crescentes com a infraestrutura de inteligência artificial, que deve superar US$ 700 bilhões só em 2026. Essa rotação reforçou a procura por ações de exportadores de commodities e de infraestrutura básica para além dos EUA.
Dentro desse cenário, a bolsa brasileira deve continuar a subir até o fim de 2026, apontam analistas. A perspectiva é que o Ibovespa continue caminhado rumo aos 200 mil pontos, mesmo em meio ao choque geopolítico de agora.
Uma trajetória marcada por volatilidade
Os eventos no Oriente Médio são tratados como um aspecto de curto prazo e que não atingem a trajetória dos ativos até agora, mas isso não quer dizer que o caminho daqui para frente será uma linha reta. O principal efeito da guerra entre Irã e EUA é antecipar uma volatilidade esperada para meados do ano.
O grande ponto de atenção do lado doméstico são as eleições no Brasil, que começariam a entrar na conta dos mercados de bolsa e câmbio a partir de abril, prazo para que governadores, ministros, prefeitos e outras autoridades que pretendem se candidatar devem deixar os cargos ou renunciar a mandatos.
Na prática, o segundo trimestre marca o início da corrida eleitoral, quando ficam mais claros os nomes que vão concorrer. Como ocorre tradicionalmente em períodos eleitorais, esse é o momento em que tipicamente o noticiário sobre as eleições e as pesquisas de intenção de voto começam a provocar efeitos nos ativos.
Há também pela frente o início do ciclo de corte de juros no Brasil, que já tem data (quase) marcada para iniciar: 18 de março, conforme as sinalizações do Banco Central nas últimas decisões.
O mercado praticamente já dá como certo que o Banco Central vai cortar os juros na próxima reunião. Isso aparece nos contratos de opção de Copom, negociados na B3, que funcionam como previsões do mercado sobre a decisão do BC. Hoje, cerca de 97% dessas posições indicam expectativa de queda da Selic, e mais de 80% apontam para um corte de 0,5 ponto percentual.
Se o ciclo de cortes for mais acelerado, o câmbio pode reagir. Isso porque a diferença entre os juros do Brasil e dos Estados Unidos – que hoje atrai dólares para aplicações aqui – tende a diminuir. Com essa vantagem menor, o ingresso de capital estrangeiro perde força, enfraquecendo o real ou até empurrando o dólar para cima.
