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Ibovespa ignora o ‘payroll’, vai contra maré internacional e supera os 190 mil pontos

Ibovespa marca 11º recorde em 2026, mesmo após dados nos EUA inspirarem cautela entre investidores globais

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O fluxo de dinheiro de fora para o Brasil se manteve forte nesta quarta-feira (11) e sustentou novos recordes da bolsa. Isso mesmo após dados de emprego nos EUA consolidarem a expectativa de que não haverá retomada de cortes de juros lá fora em março.

O Ibovespa renovou o recorde e passou, pela primeira vez na história, dos 190 mil pontos. Às 15h20, o índice apresenta alta de 2,26% aos 190.125 pontos, mas na máxima da sessão chegou aos 190.561 pontos.

Vários fatores explicam esse fluxo quase inabalável de recursos para o Brasil. Primeiro, o dólar continuou a enfraquecer globalmente nesta quarta-feira.

O índice dólar, que acompanha o desempenho da moeda dos EUA comparado aos principais concorrentes do mundo desenvolvido, recua 1,54% só em 2026 até 11 de fevereiro. Isso depois de ter caído cerca de 10% em 2025.

As quedas da moeda americana ajudam a atrais recursos para os mercados onde as divisas locais ganham força. No momento, para os emergentes.

Isso acontece porque os investidores ganham em dobro: com avanço dos preços dos ativos e com o câmbio favorável.

Quer um exemplo? O Ibovespa já acumula 18% de valorização em 2026 até 11 de fevereiro. Mas, em dólar, o ganho sobe para mais de 24%.

Estrangeiros ainda veem pechinchas

Outro ponto é que a bolsa brasileira ainda está barata comparada às americanas mesmo com os recordes recentes.

Com a nova marca histórica nominal do Ibovespa de 190.561 pontos, o múltiplo preço por lucro (P/L) do índice, o mais usado para avaliar se a bolsa ou uma ação está cara ou barata, sobe para 13,7 vezes.

Está acima da média dos últimos 20 anos, de 12 vezes. Então a bolsa está cara? Para os padrões internos, um pouco acima da média, mas nada tão discrepante.

No entanto, comparado ao S&P 500, da bolsa de Nova York, ainda parece uma pechincha. O referencial da Nyse tem sido negociado a um múltiplo de mais de 30 vezes. Isso representa o dobro da sua média histórica em duas décadas.

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Tem um fator pontual. O preço do petróleo sobe com força nesta quarta-feira. O barril do petróleo Brent, que é a referência global da commodity, tem alta de 1,31% a US$ 69,70 por volta de 15h.

A alta do petróleo ajuda a atrair recursos para as petroleiras do país. A Petrobras, que também tem uma das ações mais líquidas do mercado local, apresenta avanço de 2,30% com o papel preferencial (PN) cotado a R$ 38,20 no mesmo horário.

Diversificação estrutural

A entrada de recurso de fora no Brasil segue um movimento global de diversificação fora dos mercados americanos. Não que os investidores estejam fugindo de lá. Mas, sim, reduzindo a concentração.

Essa tendência de diversificação vem desde o ano passado e ganhou impulso com os arroubos geopolíticos do presidente dos EUA, Donald Trump, que enfileirou episódios que foram de uma intervenção armada na Venezuela a ameaça de invadir a Groenlândia.

O petróleo, por exemplo, sobe hoje diante das tensões entre o Irã e os EUA, que pode afetar a oferta da commodity se houver uma escalada do conflito.

Mas tem mais. Os principais BCs globais, como o Banco Central Europeu, o Banco da Inglaterra e o próprio Federal Reserve (Fed, o BC dos EUA), engrenaram um movimento de queda de juros ao longo de 2025. Com a renda fixa global rendendo menos, o dinheiro busca alternativas de maior potencial de ganho, entre as quais ações brasileiras.

Como resultado, os recursos de fora continuam a fluir. Só em 2026, de janeiro a 9 de fevereiro, os estrangeiros já colocaram cerca de R$ 30 bilhões na bolsa brasileira.

Emprego mais forte, mas com sinais ambíguos

E porque os números do payroll, basicamente, ficaram no zero a zero em termos de impacto sobre os mercados?

Só para relembrar, analistas esperavam uma adição de 65 mil vagas em janeiro na economia americana. O relatório trouxe um número bem maior: 130 mil. E a taxa de desemprego em lugar de subir 0,1 ponto, como os economistas estimavam, caiu para 4,3% da leitura anterior de 4,4%.

São boas notícias para a economia. Mas nem tanto para a expectativa de que o Fedvolte a cortar juros já em março.

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A ferramenta FedWatch, que permite acompanhar as apostas do mercado nos rumos da política monetária dos EUA, mostra que, após o payroll, o mercado basicamente abandonou a ideia de que o Fed possa cortar os juros no mês que vem.

Cerca de 92% dos investidores agora veem o Fed mantendo as taxas no intervalo entre 3,50% e 3,75% na próxima reunião. Na terça-feira, o percentual era de 79%.

Mas, mesmo diante da perspectiva de o BC americano manter o juro alto por mais tempo, os mercados globais reagiram de maneira quase neutra. E os emergentes mantiveram a rotina de altas recordes.

O que explica essa reação? O próprio payroll traz parte das respostas. O relatório divulgado nesta quarta-feira revisou os números de 2025 de um ganho de 584 mil postos de trabalho para 181 mil em todo o ano passado.

Não se trata de um mero ajuste. O ritmo revisado de 181 mil vagas abertas em um ano é o menor, fora de períodos de recessão, desde 2003.

Então o crescimento acima do esperado em janeiro traz um alívio importante: afasta receios de uma recessão, mesmo às custas de o juro demorar mais para voltar a cair.

Tanto que o índice S&P 500 sobe 0,02% por volta de 15h20, enquanto o Nasdaq recua 0,20%. São reações modestas diante da surpresa do payroll.

Além disso, como mostra o FedWatch, a maior parte dos investidores já descartava um corte do Fed em março. E, como o mercado costuma dizer, a manutenção da pausa já estava, em boa parte, nos preços.

Agora, com os sinais de que o mercado de trabalho americano está mais saudável, as atenções estarão todas voltadas aos dados de inflação. O Índice de Preços ao Consumidor (CPI, na sigla em inglês) de janeiro está programado para ser divulgado na sexta-feira (13).

Se vier acima do esperado, pode deflagrar uma onda de aversão ao risco. Isso porque muitos investidores passarão a considerar a possibilidade de o Fed ter de voltar a subir juros em algum momento, se as pressões sobre preços não diminuírem em leituras futuras.

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