O que emergiu foi um sinal mais incômodo: a política monetária americana pode estar à beira de uma guinada ou, ao menos, de consolidar uma polarização inédita no Fed desde os anos 1990.
A dissidência interna ficou escancarada na votação desta quarta-feira (29) na maior margem para uma decisão do Comitê Federal de Mercado Aberto (FOMC) desde a reunião de outubro 1992, ou seja, há mais de três décadas.
Três integrantes do comitê — Beth Hammack, do Fed de Cleveland, Neel Kashkari, de Minneapolis, e Lorie Logan, de Dallas — rejeitaram a sinalização de que cortes de juros seguem no radar. Não se trata de um detalhe técnico. É, na prática, um questionamento direto ao diagnóstico predominante dentro do banco central dos EUA: o de que a inflação caminha, ainda que lentamente, para a meta de 2%.
Os dissidentes enxergam outro cenário — e, tecnicamente, não sem fundamento. Indicadores recentes mostram uma inflação mais resiliente, com núcleos ainda pressionados e repasses persistentes, especialmente em serviços. O próprio comunicado reconheceu que “a inflação está elevada, refletindo, em parte, o recente aumento dos preços globais de energia”.
Os choques de preços de combustíveis e energia parecem longe de acabar em meio ao “vai e volta” das negociações na guerra entre EUA e Israel contra o Irã. Em território americano, a gasolina ja sobe quase 40%, e o diesel, mais de 45% desde o início dos ataques. Os efeitos indiretos do aumento dos custos de transportes já começam a se espalhar pela maior economia do mundo.
Ao contestar o viés mais brando da comunicação oficial, os dissidentes estão, essencialmente, recalibrando a função de reação do Fed. Em outras palavras: estão dizendo que o banco central pode estar subestimando o risco de ter que voltar a subir as taxas — ou, no mínimo, de manter os juros elevados por mais tempo do que o mercado precifica – e do que Donald Trump quer.
Se a inflação se mostrar persistente, a atual indicação do rumo da política monetária do Fed perde validade.
No fim das contas, o último encontro do banco central dos EUA com Jerome Powell na chefia revelou um Fed menos coeso. Ele deixa o cargo em 15 de maio, e a próxima reunião será em 16 e 17 de junho, já sob o esperado comando de Kevin Warsh, que ainda depende das aprovações do seu nome no Congresso.
Para o mercado, o recado é um pouco desconfortável: a trajetória de queda de juros, antes tratada como questão de tempo, volta a depender de variáveis cercadas de incertezas em meio a uma inflação cada vez menos previsível no curto e, eventualmente, médio prazos.
Pressões políticas ampliam rachaduras
Há também um componente institucional relevante. A proximidade do fim do mandato de Powell adiciona uma camada extra de incerteza. As divergências podem até aumentar.
Se o futuro chairman do Fed, indicado pelo presidente Trump, mostrar-se mais inclinado a manter a indicação de futuros cortes, mesmo em um cenário de inflação mais persistente, provavelmente haverá uma divisão mais evidente entre os integrantes da autoridade.
O diretor Stephen Miran, outro indicado de Trump, tem votado sistematicamente por cortes de juros desde que passou a votar nas decisões.
Mas outros integrantes com perfil mais técnico podem, futuramente, engrossar o coro de quem não enxerga mais espaço para cortes adicionais ao longo do ano. Ou até mesmo em 2027.
O próprio Powell, durante a entrevista coletiva de imprensa, afirmou ter tomado a decisão de não deixar o Fed imediatamente após Warsh assumir o posto. Vai permanecer como diretor do BC americano, com direito a voto no FOMC, por um tempo “indeterminado”.
Será o primeiro caso de um ex-chairman que continuará na instituição desde 1948.
Powell afirmou que pretende seguir na diretoria — board of governors — até que as investigações sobre a reforma da sede da autoridade monetária tenham se encerrado por completo. Na prática, a decisão tira o poder de voto de Stephen Miran, o diretor mais alinhado com os cortes de juros.
Em março, o Departamento de Justiça dos EUA (DOJ), sob pressão de Trump, abriu uma investigação criminal sobre o depoimento do presidente do Fed ao Congresso a respeito da reforma. O DOJ encerrou a investigação na última sexta-feira (24).
O dirigente foi acusado de dar testemunho enganoso ao Senado sobre os planos e os custos de construção, que foram descritos como excessivos. A investigação foi amplamente vista como uma manobra de pressão política de Donald Trump, que criticava frequentemente Powell por não reduzir as taxas de juros tão rapidamente quanto desejava.
Powell, no entanto, colocou como condição de ele deixar o Fed que a investigação seja concluída de maneira definitiva e transparente. O presidente do Fed citou não ter ficado claro, por exemplo, se o DOJ pode reabrir a investigação assim que ele deixar a instituição.
“Já disse que não deixarei o board até que essa investigação esteja completamente concluída, com transparência e de forma definitiva — e mantenho essa posição. Vejo com bons olhos os avanços recentes e acompanho atentamente os próximos passos desse processo”, declarou.
Embora ele tenha negado ver a permanência como uma pressão contra o governo, enquanto estiver no Fed, Powel tira a possibilidade de Trump indicar mais um nome que poderia ser mais favorável à visão do governo sobre o rumo dos juros – leia-se uma queda acelerada nas taxas.
