Newsletter

Procura dos brasileiros por fundos ‘estruturados’ explode. Faz sentido investir?

Publicidade

A procura dos investidores pelos chamados fundos de investimento em direitos creditórios (FIDCs) disparou em 2025. A categoria teve a maior taxa de crescimento no ano passado, de 122,8%, para R$ 51,9 bilhões.

É de longe o maior avanço em relação a outros instrumentos, como os ETFs (fundos listados em bolsa), títulos públicos e mesmo os gigantes fundos de renda fixa tradicionais. Mas vale a pena investir nesses produtos?

Os fundos “estruturados”, como podem ser chamados os FIDCs, são uma categoria à parte na renda fixa em que o retorno potencial é maior justamente porque o risco é proporcionalmente maior. Diferentemente dos fundos tradicionais, eles precisam ser avaliados sob outra ótica: o risco de crédito, e não de mercado.

Risco de mercado é o risco de perder dinheiro com a queda de um ativo, como uma ação. Risco de crédito é o risco do emissor de uma dívida não honrá-la.

Os FIDCs podem ser comprados diretamente nas plataformas das corretoras, onde também são oferecidos os chamados fundos de fundos (FOFs), veículos que compram vários fundos estruturados. E há, ainda, os FIDCs listados na bolsa, que trocam de mão como na negociação de ações.

Para o pequeno investidor, os FIDCs são uma alternativa de diversificação viável, mas exigem um cuidado a mais pela sua complexidade. A aquisição de FOFs é uma das melhores alternativas, porque avaliar a situação de crédito de cada produto é bastante difícil. E um FOF conta a curadoria de um gestor qualificado, que faz a seleção dos fundos e monta uma cesta com eles, pulverizando o risco.

E existe um cuidado a mais a ser tomado: diferentemente de um CDB ou produtos isentos, como as Letras de Crédito do Agronegócio (LCA) e Letras de Crédito Imobiliário (LCI), os FIDCs não têm a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Por que um FIDC não é um simples fundo de crédito?

Imagine uma empresa que precisa levantar dinheiro para pagar fornecedores, funcionários, aluguel do escritório e novos móveis. Em vez de procurar um banco para realizar um empréstimo, essa companhia pode antecipar o valor pago com cartão de crédito pelos clientes, por exemplo.

De que forma isso acontece? A empresa vende para um fundo o direito de receber esses pagamentos e levanta o dinheiro na hora. Os pagamentos são os recebíveis e o direito que o fundo passa é o que chamamos de direito creditório. Cada operação é feita especificamente para cada empresa – daí o nome “fundo estruturado”.

Depois de vender os recebíveis, o FIDC é colocado à disposição dos investidores. Quando os recursos são aplicados no fundo, o dinheiro é usado para financiar a empresa na outra ponta. Aí o ciclo se fecha: a empresa recebe o que precisa e o investidor passa a lucrar com os juros e retornos embutidos na operação.

Publicidade

Por que agora?

Se os FIDCs são tão interessantes para diversificação por essas características tão particulares, por que só começaram a cair nas graças do público agora?

Os órgãos reguladores avaliavam que esses produtos ofereceriam um risco muito grande para o varejo. Isso continua sendo verdade, mas o entendimento mudou: se respeitadas algumas regras, o mercado já é maduro o bastante para permitir que mais pessoas cheguem a esses produtos.

Existe uma camada de proteção aos investidores que torna o investimento em FIDCs uma alternativa viável: a classe das cotas. É uma estrutura que trabalha com níveis de prioridade, que definem quem recebe os rendimentos primeiro e quem absorve as perdas primeiro caso algo dê errado.

Pensando no exemplo da nossa empresa: cada mês, os clientes pagam o cartão de crédito e a companhia recebe os recursos vendidos à prazo. Se uma parte dos clientes não pagar, o primeiro impacto recai sobre as chamadas cotas subordinadas. O investidor dessas cotas perde o rendimento e até parte do capital.

Essas cotas não podem ser oferecidas ao varejo, conforme as regras da Comissão de Valores Mobiliários (CVM). O investidor pessoa física só tem acesso às cotas seniores, que continuam recebendo os rendimentos normalmente até que o nível de inadimplência seja alto o suficiente para esgotar toda a proteção oferecida pelas outras cotas.

No fim das contas, investir em FIDCs é emprestar dinheiro para empresas por caminhos menos tradicionais. Pode funcionar bem, desde que o investidor saiba onde está pisando.

Exit mobile version