Nos casos de Raízen, GPA e Braskem, investidores em cerca de R$ 15,5 bilhões em debêntures e certificados de recebíveis do agronegócio (CRA) e imobiliários (CRI) tiveram prejuízos relevantes.
As recuperações extrajudiciais das duas empresas, Raízen e GPA, vão representar aos detentores dos papéis perdas em torno de 60% em relação ao valor original investido.
Um levantamento feito pelo InvestNews a partir de dados da Anbima (associação que reúne entidades do mercado de capitais) mostra que há 96 debêntures e 57 CRIs e CRAs – sem considerar as companhias em recuperação judicial ou extrajudicial – que têm sido negociados com descontos acima de 10% no mercado secundário. Veja as listas no fim da reportagem.
No caso da renda fixa, esses descontos significam que os títulos estão sendo vendidos por preços abaixo do valor original e, em alguns casos, bem abaixo.
Nesse grupo, empresas vistas como mais endividadas vêm sendo penalizadas pelos investidores. São os casos da CSN, da Kora Saúde, da Hapvida e até da Dasa.
A debênture com vencimento em 2031 da siderúrgica, por exemplo, tem sido vendida com desconto de 32% a uma taxa de IPCA + 14% ao ano.
Aqui vale reforçar que a queda de preço do título reflete uma subida da taxa do papel. Ou seja, quando a remuneração está subindo, o valor em reais do ativo está em queda.
Já a debênture com vencimento em 2030 da Kora Saúde tem desconto de 55%. Esse nível de redução de preço representa uma taxa de CDI + 48% ao ano.
Os descontos das debêntures da Hapvida têm oscilado entre 18% e 28%. O papel com vencimento em 2030 tem pagado uma taxa de CDI +9,3% ao ano. Já a debênture com prazo até 2032 tem sido ofertado com taxa de CDI + 10,2% no secundário, conforme a Anbima.
Já o CRI com vencimento em 2032 da Dasa está com desconto de 24% e taxa de IPCA + 13,7% ao ano. Outro certificado imobiliário da rede de medicina diagnóstica, com taxa prefixada e vencimento em 2031, tinha desconto de 16% no mercado secundário com taxa nominal de 19% ao ano, o que representa um nível de 129% do CDI atual.
O cenário de aumento de risco para ativos de crédito privado, que já estava sob pressão no ambiente de quatro anos de juros elevados, acima de 10% ao ano, ficou mais agravado com a Guerra do Irã.
A escalada do preço do barril de petróleo desde o fim de fevereiro gera impactos que não tendem a não ser passageiros sobre a inflação global e brasileira. Como consequência, amplia a possibilidade de o Banco Central interromper prematuramente o ciclo de corte da Selic.
Nesse ambiente adverso, companhias em diferentes setores ficaram sob escrutínio maior do mercado. São empresas vistas como mais vulneráveis tanto por causa do endividamento elevado ou de fundamentos financeiros mais frágeis quanto pela mudança de cenário para juros e inflação.
Ajuste de expectativas afeta preços
Há ainda um efeito colateral trazido pela perspectiva de juros altos por mais tempo. Os títulos do Tesouro, considerados os mais seguros do mercado, têm sido oferecidos a investidores com taxas prefixadas perto de 14% ao ano e acima de IPCA + 7% anuais para os papéis atrelados à inflação.
Como consequência, até alguns ativos de companhias vistas como aquelas com melhor perfil de crédito podem passar por correções no mercado secundário para se nivelar às taxas oferecidas pelo Tesouro em vencimento semelhantes.
É o caso da debênture da Petrobras com vencimento em 2034. O título chega ao secundário com desconto de 19% e uma taxa de IPCA + 7% ao ano.
Outro exemplo é a debênture da transmissora de energia Equatorial com vencimento em 2039. O título é oferecido no secundário com taxa de IPCA+ 7,58% ao ano, o que representa um desconto de 15% comparado ao valor original.
No Tesouro Direto, o título disponível com prazo mais próximo das duas debêntures é o Tesouro IPCA+ 2040, que paga uma taxa de IPCA+ 7,25% ao ano.
O que o investidor pode fazer nesse cenário?
O momento é de muita cautela na hora de aplicar em títulos de crédito privado. Os eventos recentes colocaram sob os holofotes uma verdade incômoda: o risco do crédito privado tem aumentado desde, pelo menos, o ano passado. E os juros altos não poupam ninguém.
Mesmo grandes companhias, se tiverem um nível elevado de endividamento, estão vulneráveis a sofrer rachaduras em momentos de estresse nos mercados, como a Raízen e a Braskem mostraram.
Especialistas avaliam que, em cenários de grandes incertezas, o investidor pode reduzir a exposição a empresas vistas como cíclicas. O juro alto por mais tempo, por exemplo, pesa sobre o consumo e, como consequência, sobre os resultados do varejo, de empresas de turismo e serviços.
No ambiente atual, títulos emitidos por companhias pouco endividadas, que tenham receitas recorrentes e previsíveis, como as de serviços públicos, ajudam a reduzir os riscos da carteira.
O momento é o de diversificar o portfólio por meio de títulos de companhias com perfil mais defensivo, como as do setor de energia: as transmissoras Taesa e Isa CTEEP, ou geradoras, como Engie, CPFL e EDP. Nessa lista também entram empresas de saneamento, como Sabesp e Copasa.
E quem já tem os papéis na carteira?
O melhor a fazer é segurar a ansiedade e evitar vender os títulos.
O momento atual requer sangue frio para esperar uma janela de oportunidade melhor, se você realmente quiser ou precisar desmontar a posição antes do prazo.
Mesmo se o cenário da guerra piorar, se desfazer dos papéis agora pode significar tornar realidade um prejuízo que existe, por enquanto, apenas na tela do computador ou celular.
Essa variação dos preços acontece por meio do mecanismo conhecido como a marcação a mercado, que serve justamente para que o investidor possa saber qual o valor do ativo naquele momento.
No caso do crédito privado, os preços dos títulos vão variar conforme uma série de variáveis, que vão desde as expectativas para juros e inflação até questões específicas de cada empresa.
Com a Guerra do Irã, por exemplo, investidores tendem a pedir prêmios mais altos para companhias expostas aos impactos de alta dos combustíveis, para as mais endividadas e assim por diante. Mas a marcação a mercado é uma referência, e não uma perda de fato. Só vai se tornar prejuízo para quem se desfizer do papel antes do vencimento e nas condições adversas de mercado.
E sempre vale a lembrança de que quem carregar os títulos até o vencimento vai receber exatamente o que foi contratado. Portanto, para os investidores que podem manter os recursos aplicados e têm visão de longo prazo, o momento é favorável para “travar” taxas historicamente elevadas.
Quem aplicar R$ 10 mil em um título prefixado que pague 14,5% ao ano, por exemplo, vai dobrar seu capital em cinco anos. E, em dez anos, o investimento vai quase quadruplicar de valor em termos nominais (sem considerar a inflação): esses R$ 10 mil vão se tornar R$ 38,7 mil.
Conheça as debêntures e os CRIs e CRAs com desconto:
