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Saque dos fundos de ações soma R$ 54 bilhões em 2025. É realmente hora de ir para a bolsa?

Num ano em que o Ibovespa subiu 34%, investidores fugiram dos fundos de ações. Por quê?

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Uma parte do mercado quer acreditar que o estrondoso ganho da bolsa em 2025 vai se repetir em 2026. Tudo por conta da famigerada expectativa de juros menores no exterior, como foi ano passado, e também aqui, como parece “prometido”.

Só que as pessoas físicas seguem fazendo o movimento oposto: os fundos de ações registraram saques bilionários, evidenciando um descompasso crescente entre o discurso otimista sobre a bolsa e o comportamento efetivo do dinheiro. Quem está certo, afinal?

Enquanto o Ibovespa entregou um retorno de 34% no acumulado de 2025, os investidores de varejo sacaram dos fundos de ações R$ 54,5 bilhões. É o segundo ano seguido de retirada de recursos. No caso dos multimercados, que investem em várias classes de ativos, a situação é ainda pior: as saídas foram de R$ 58,9 bilhões, o quarto ano seguido de retiradas. Os dados foram divulgados hoje pela Anbima, entidade do mercado de capitais.

Está claro que a concorrência com os ETFs pesou. Os fundos negociados em bolsa cobram taxas menores, sem perda de desempenho na comparação com a maior parte dos fundos. Os grandes ETFs são de renda variável – seguem índices de ações. O crescimento deles (+R$ 22,9 bi no ano), então, mostra que houve algum apetite pela bolsa, mas por outra via.

Já os multimercados concorrem de algum modo com os fundos de renda fixa. Com a Selic no maior nível em 19 anos, é natural que a competição tenha sido dura – mais ainda levando em conta que os de RF cobram taxas menores. Isso ajuda a explicar a alta captação deles (+ R$ 84,3).

Outro concorrente foram os FIDCs (Fundos de Direitos Creditórios). Trata-se de um produto de renda fixa, mas voltado a dar mais retorno que os tradicionais (ainda que ofereça mais risco). Eles têm atraído investidores de bolsos mais fundos, enxugando ainda mais o dinheiro que iria para os fundos de ações e os multimercados.

Para onde a bolsa vai?

De volta para o futuro da renda variável.

Quem vê espaço para a bolsa se valorizar ao longo deste ano se pauta sobretudo pelo corte de juros no Brasil, esperado logo para o primeiro semestre. O boletim Focus, pesquisa do Banco Central com economistas, não deixa mentir: a expectativa é de uma Selic em 12,25% no fim de 2026. Para uma taxa que começa o ano em 15% não parece muito, mas há quem veja como suficiente para dar fôlego às ações.

“A tendência é de recuperação porque partimos de uma base muito grande de saída de dinheiro”, diz Pedro Rudge, diretor da Anbima, durante a apresentação de resultados hoje. “À medida que os fundos apresentarem ou continuarem apresentando retornos, o investidor vai voltar a procurá-los.”

E tem também o movimento dos juros lá fora. Em setembro do ano passado, o Federal Reserve (Fed, o banco central americano) começou a dar seus passos no corte das taxas, levando-as para a faixa de 3,50% a 3,75% ao ano.

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A matemática é: juros menores lá fora empurram dinheiro dos estrangeiros para outros mercados considerados mais arriscados. Afinal, se for para ganhar menos na renda fixa americana, melhor procurar outra coisa. Em um momento em que o mercado se questiona o quão caras estão as ações americanas, especialmente as de tecnologia, o Brasil e os demais emergentes ainda parecem estar na rota do dinheiro vindo de fora.

Mas quem encara a bolsa como uma classe de investimento com menos apelo se pauta justamente pelo fato de que os juros no Brasil estão – e ficarão – em níveis altos. Não há motivo para sair da confortável renda fixa nesse contexto.

De 15% para 12,25% a conta ainda não fecha. A conta fechava mesmo em 2020: com o juro em um dígito, os fundos de ações e multimercados viram uma entrada gigantesca de recursos – foram R$ 73 bilhões para o primeiro e R$ 103 bilhões para o segundo.

E aí vem o argumento sobre o momento no exterior agora: se o impulso dos juros menores em economias desenvolvidas foi essencial para trazer o investidor estrangeiro para a bolsa brasileira, esse ano o cenário é um pouco diferente. A expectativa é de que o Fed adote uma postura mais cautelosa: apenas 11,6% do mercado espera um corte dos juros na primeira reunião do ano, no dia 28, segundo dados da ferramenta CME FedWatch.

Entre otimismo e cautela, o investidor que evitou tentar acertar o momento de entrar ou sair do mercado acabou ganhando mais. Para refrescar a memória: em 2024, quando o dólar subiu 27% e a bolsa caiu 10%, boa parte dos analistas acreditava que o movimento rumo ao fundo do poço continuaria em 2025. É comum que aconteça: esperar que a realidade atual seja a do futuro próximo.

O investidor que decidiu comprar bolsa naquele momento de queda das ações – que é justamente o que manda o “manual” do bom investimento – colheu os 34% de alta. Quem demorou e esperou chegar no fim do semestre, por exemplo, ganhou 19%. A ver o que o futuro reserva.

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