O estopim foi a startup de IA Anthropic, que lançou novas ferramentas desenhadas para automatizar tarefas de trabalho em vários setores, de serviços jurídicos e de dados a pesquisa financeira. Os anúncios acenderam o temor de que as inovações condenariam incontáveis negócios. Em resposta, investidores despejaram um amplo conjunto de ações — de Expedia Group a Salesforce e London Stock Exchange.
Na sexta-feira, compradores em busca de “pechinchas” entraram, ajudando o iShares Expanded Tech-Software Sector ETF, mais conhecido pelo ticker IGV, a se recuperar da queda de 12% registrada nas quatro sessões anteriores. Mas, para profissionais de Wall Street de olhos cansados, abalados por dias de negociações voláteis, o recado foi claro: esta é a nova realidade.
“Coisas estão sendo lançadas semanalmente, diariamente”, disse Daniel Newman, CEO do Futurum Group. “O raio de impacto sobre as empresas que podem ser afetadas pela IA vai crescer todos os dias.”
Mesmo com a recuperação no fim da semana, o estrago foi grande. As ações da Thomson Reuters listadas no Canadá despencaram 20% na semana, a maior queda semanal da história. A empresa de pesquisa financeira Morningstar teve sua pior semana na bolsa desde 2009. Fabricantes de software como HubSpot, Atlassian e Zscaler caíram mais de 16% cada.
No total, um conjunto de 164 ações dos setores de software, serviços financeiros e gestão de ativos perdeu US$ 611 bilhões em valor de mercado na semana passada. (A Bloomberg LP, controladora da Bloomberg News, compete com LSEG, Thomson Reuters e Morningstar no fornecimento de dados financeiros e notícias. A Bloomberg Law vende ferramentas e softwares de pesquisa jurídica.)
O potencial disruptivo da IA é tema de conversa desde a estreia do ChatGPT, da OpenAI, no fim de 2022. Mas, até a semana passada, a maior parte da atenção estava nos vencedores. Com centenas de bilhões de dólares sendo gastos para aumentar a capacidade de computação, investidores compraram com entusiasmo ações de empresas vistas como beneficiárias desse movimento — de fabricantes de chips e empresas de rede a fornecedoras de energia e produtoras de materiais.
Essa estratégia rendeu muito. Um índice que acompanha ações ligadas a semicondutores mais do que triplicou desde o fim de 2022, contra alta de 61% do IGV e avanço de 81% do índice S&P 500.
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Embora a chamada aposta de “picaretas e pás” (as empresas que fornecem a infraestrutura da corrida da IA) ainda esteja dando certo, o ritmo acelerado de novas ferramentas chegando ao mercado — por startups como Anthropic e OpenAI, além de Alphabet, dona do Google — faz a disrupção, antes muito teorizada, parecer bem mais próxima. Só no último mês, o Google chacoalhou ações de empresas de videogame com o lançamento de uma ferramenta capaz de criar um mundo digital imersivo a partir de simples comandos de imagem ou texto. E outro lançamento da Anthropic, um assistente de trabalho baseado no seu serviço de programação Claude, fez ações de software despencarem.
Os acontecimentos aumentaram a angústia já alimentada por uma safra de resultados decepcionantes de empresas de software no fim do mês passado. O maior baque foi na Microsoft, que perdeu US$ 357 bilhões em valor de mercado em um único dia depois que a desaceleração do crescimento de receita do seu negócio de computação em nuvem ampliou as ansiedades sobre o gasto pesado com IA. A ServiceNow caiu 10% e a SAP SE tombou 15% após resultados igualmente mornos.
“Foram os pilares que nos decepcionaram”, disse Jackson Ader, analista de software do KeyBanc. “Se o seu resultado e o seu guidance não estão à altura, é meio que: que confiança deveríamos ter no restante do setor?”
Embora vários nomes novos tenham se machucado na semana passada, poucos foram tão punidos quanto empresas tradicionais de software, que já vinham sob pressão desde o ano passado. A Salesforce, dona do popular serviço de colaboração Slack, acumula queda de 48% em relação ao recorde de dezembro de 2024. A ServiceNow, que faz software para recursos humanos e operações de TI, recuou 57% desde o pico de janeiro de 2025.
“Suspeito que algumas empresas vão resistir, abraçar a IA e prosperar, mas outras verão disrupção permanente em seus modelos de negócio ou perspectivas”, disse Jim Awad, diretor-executivo sênior da Clearstead Advisors. “É muito difícil saber, agora, qual é qual.”
Esse medo tem levado investidores a correr para a saída. Software é, de longe, o grupo com maior saldo líquido de vendas entre todos os setores desde o começo do ano, segundo dados da mesa de prime brokerage do Goldman. A exposição líquida dos hedge funds a software caiu para um recorde de menos de 3% em 3 de fevereiro, ante um pico de 18% em 2023.
Ainda assim, há pouca evidência fundamental de piora. Na verdade, aos olhos de analistas de Wall Street, a perspectiva para lucros está melhorando. Os lucros de empresas de software e serviços no S&P 500 devem crescer 19% em 2026, acima da projeção de 16% de alguns meses atrás, segundo dados compilados pela Bloomberg Intelligence.
Estimativas de lucros para software estão subindo
“Todo mundo está assumindo que o fundo vai cair, em termos de métricas operacionais. Eu sou cético em relação a isso”, disse Michael Mullaney, diretor de pesquisa de mercado global da Boston Partners. “Pode acabar acontecendo de lucros e margens ficarem bem, mesmo que haja disrupção. Se eu fosse um gestor de crescimento, eu compraria na queda.”
A venda incessante empurrou ações de software para uma área em que operadores mais “técnicos” costumam esperar uma recuperação. O índice de força relativa (RSI) de 14 dias do iShares ETF chegou a 15 na quinta-feira, o nível mais baixo em quase 15 anos, e agora está por volta de 24. Qualquer coisa abaixo de 30 é considerada “sobrevendida”.
Enquanto isso, as avaliações continuam ficando mais baratas. Um cesto de ações de software acompanhado pelo Goldman Sachs caiu para um recorde de 21 vezes os lucros estimados, abaixo do pico de mais de 100 no fim de 2021, segundo dados compilados pela Bloomberg. A Salesforce está sendo negociada a 14 vezes o lucro esperado para os próximos 12 meses, ante uma média de 46 vezes na última década.
Valuações de software seguem afundando
“Continuamos testando o piso de valuation e depois atravessamos esse piso direto”, disse Ader, do KeyBanc. “As pessoas estão receosas e ariscas para dizer que essas ações estão baratas demais, porque, pelos múltiplos históricos, você poderia ter feito esse argumento em cada ponto por muitos e muitos meses, e isso não teria te ajudado em nada.”
