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Acordo da Porto com a Oncoclínicas prevê nova empresa com ‘joia da coroa’ e dívida menor

Aporte cria nova empresa com as clínicas oncológicas sob o controle da Porto, mas sem que o grupo tenha que assumir ou se expor tanto às dívidas

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A negociação da Oncoclínicas com a Porto para que o grupo injete R$ 1 bilhão em investimentos está desenhada como algo que remete mais à venda do principal negócio da rede criada pelo médico Bruno Ferrari, com passivo menor, do que de simplesmente a criação de uma joint venture.

As empresas assinaram um memorando de entendimentos na última semana e terão 30 dias de exclusividade para negociar os termos da transação. Pelo plano, a nova empresa, que terá a Porto como principal acionista, ficará com as 150 clínicas da Oncoclínicas.

A atual Oncoclínicas manterá os hospitais – atualmente já à venda – e a unidade na Arábia Saudita. São negócios que, diferentemente das clínicas, hoje mais queimam recursos do que geram caixa.

O negócio é considerado pouco usual para o grupo da família Garfinkel.

A Porto tem interesse nas clínicas oncológicas da Oncoclínicas, que atendem sua base de clientes na vertical de planos de saúde – a Porto Saúde – a custos mais competitivos do que concorrentes, mas prefere não se associar ao CNPJ que carrega os problemas financeiros da empresa. 

A Oncoclínicas acumula cerca de R$ 4 bilhões em dívidas e ainda busca digerir os efeitos do envolvimento com o Banco Master: a instituição antes liderada por Daniel Vorcaro chegou a deter 15% da companhia, que, por sua vez, mantinha quase R$ 480 milhões aplicados em CDBs do banco e colocou a rede em um embate com o BRB pelas ações que pertenciam ao banqueiro.

A Oncoclínicas concentra cerca de 18% dos oncologistas do país e atua em uma especialidade médica sensível para a população, cuja demanda tende a crescer, segundo especialistas. A Porto paga cerca de R$ 500 milhões ao ano à rede e ela é hoje sua principal parceira no tratamento oncológico. Montar uma rede equivalente do zero tornaria qualquer entrada no setor extremamente custosa.

“Sem a Oncoclínicas, eles [a Porto Saúde] vão ficar dependentes da Rede D’Or, que tem um custo mais alto e, de certa forma, é um concorrente em planos de saúde”, diz uma fonte ouvida pelo InvestNews, lembrando que a Rede D’Or adquiriu a SulAmérica em 2022.

Os (poucos) detalhes

No domingo (15), a Oncoclínicas confirmou em fato relevante a assinatura de um memorando de entendimento entre as empresas e deu alguns (poucos) detalhes do negócio.

A Porto faria um aporte de R$ 500 milhões na nova companhia, subscrevendo (comprando) ações ordinárias em montante suficiente para garantir o controle do capital votante.

A estrutura apresentada também prevê que a nova empresa faça a emissão de outros R$ 500 milhões em debêntures conversíveis em ações, que ficariam nas mãos da Porto. A debênture será conversível em 48 meses e será remunerada a 110% do CDI.

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O principal ponto de insegurança de investidores em torno da Oncoclínicas é pouco explicado no documento: “um determinado montante do endividamento da Oncoclínicas seria transferido à nova empresa”, diz o texto assinado por Marcel Cecchi Vieira.

Vieira é sócio da Latache, gestora que é a segunda maior acionista da Oncoclínicas, com mais de 14% do capital social. O executivo assumiu como CFO (Chief Financial Officer) interino da Oncoclínicas, que no mesmo domingo anunciou o pedido de renúncia de Camille Faria.

Não foi a negociação que afastou a executiva do negócio, mas a falta de clareza sobre o desenho do negócio, segundo apurou o InvestNews.

Camille Faria chegou à empresa de saúde no começo de fevereiro com uma espécie de supercargo, à frente de diretorias corporativas e de negócios e o currículo de quem comandou a Americanas em seu processo de recuperação judicial e, antes disso, da Oi na mesma situação.

Desafio da dívida

A avaliação de acionistas da empresa, no entanto, era a de que havia uma solução a ser negociada com os credores, o que motivou a contratação de Faria, dada sua experiência nessa frente.

“A companhia suporta a dívida, mas precisa de um cronograma [de pagamentos] mais alongado”, diz uma pessoa com conhecimento do negócio.

A negociação com a Porto, porém, leva a solução do quadro financeiro para outro caminho. Há uma expectativa, de acordo com o Brazil Journal, de que credores poderiam migrar parte da dívida para a nova companhia, mas isso não foi esclarecido no fato relevante.

Segundo apuração do InvestNews, a Oncoclínicas hoje listada na B3 ficaria com parte relevante do passivo, apesar de potencialmente concentrar apenas os negócios – hospitais – que consomem caixa.

Um gestor com papéis da Porto diz acreditar ser difícil que o negócio saia do papel, dada a necessidade de “atender a muitas condições”.

Para ele, a condição para o acordo ser concretizado é que isso acontecesse com uma Oncoclínicas “limpa”, nas suas palavras, o que significaria deixar na nova empresa apenas os bons ativos.

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