O movimento, anunciado com o lançamento do Amazon Supply Chain Services, coloca a big tech diretamente em rota de colisão com gigantes do setor como DHL, DSV e Kuehne+Nagel.
No Brasil, o impacto intensifica uma disputa já acirrada com o Mercado Livre, líder absoluto do e-commerce na América Latina.
A nova plataforma da companhia de Jeff Bezos reúne serviços de fulfillment: frete aéreo e marítimo, armazenagem e entrega de última milha (até a casa do cliente) em uma oferta unificada de logística terceirizada, o que o setor chama de 3PL (third-party logistics).
O mercado endereçável é estimado em US$ 1,3 trilhão globalmente.
A comparação com a Amazon Web Services (AWS) é inevitável.
A divisão de nuvem da empresa nasceu da necessidade interna de infraestrutura de servidores e se tornou o maior negócio de cloud computing do mundo. O racional agora é replicar esse modelo na logística: converter um centro de custo em uma fonte de receita de alta margem.
Em 2025, a Amazon já gerou cerca de US$ 172 bilhões em receitas de serviços prestados a vendedores terceiros (24% do faturamento total), indicando que a monetização da infraestrutura já está em curso.
Brasil ganha protagonismo
O Brasil deixou de ser um mercado periférico para a Amazon.
Nos últimos 18 meses, a empresa adicionou 240 hubs logísticos ao país, chegando a 300 unidades distribuídas pelos 26 estados. Com essa infraestrutura, oferece entrega no mesmo dia em mais de 200 cidades e no dia seguinte em cerca de 3.600 municípios.
O ritmo de expansão passou de aproximadamente um centro por semana ao longo dos últimos seis anos para três por semana em 2026. Nos últimos dez anos, a Amazon investiu cerca de R$ 55 bilhões no país.
Por trás dessa aceleração está uma mudança organizacional implementada no início deste ano.
A Amazon reduziu camadas hierárquicas e aproximou a operação brasileira da liderança global: o Senior VP Amit Agarwal passou a ter contato direto com a CEO local, Juliana Sztrajtman, eliminando dois níveis de gestão que, segundo analistas do BTG Pactual, retardavam decisões de capital e estratégia.
O time de analistas de varejo do banco, formado por Luiz Guanais, Yan Cesquim e Beatriz Cendon, escreveu sobre as mudanças da Amazon.
O resultado apareceu rapidamente e a empresa adicionou mais produtos cadastrados ao marketplace no primeiro trimestre de 2026 do que em todo o ano de 2025.
A mudança de governança alinha o Brasil ao chamado “playbook global” da Amazon: experimentação acelerada, subsídios pesados (como isenção de taxas de fulfillment para vendedores) e iteração rápida. É priorizar crescimento e aceitar margens menores no primeiro momento, como a empresa fez nos Estados Unidos.
O Brasil reúne os ingredientes que tornam essa aposta atraente: baixa penetração do e-commerce, ineficiências logísticas estruturais e uma classe média em expansão. São justamente as condições que historicamente favoreceram a Amazon em mercados onde entrou com força.
A distância para o Mercado Livre
A corrida doméstica, porém, começa com desvantagem.
Em infraestrutura física, o Mercado Livre segue muito à frente: opera cerca de 3,4 milhões de metros quadrados de área logística no Brasil, contra aproximadamente 709 mil metros quadrados da Amazon. A Shopee, outro competidor relevante, tem 1,2 milhão de metros quadrados, segundo estimativas do BTG Pactual.
Essa diferença numérica também se traduz em capacidade de armazenar produtos próximos aos consumidores, o que reduz custos e acelera entregas, que são dois fatores que determinam conversão no e-commerce.
Os resultados do Mercado Livre no quarto trimestre de 2025 ilustram o que essa escala produz. A rede absorveu um crescimento de 41% no volume de envios durante o ano (quase 500 milhões de pacotes adicionais). Quase 75% das entregas rápidas chegaram ao destino em até 48 horas.
E o custo unitário de frete no Brasil caiu 11% na comparação anual, indicando que a operação segue ganhando eficiência à medida que cresce.
O tamanho do negócio de comércio também ganha cada vez mais escala. O Mercado Livre encerrou 2025 com 121 milhões de compradores ativos únicos na América Latina e receita total de US$ 28,9 bilhões, um avanço de 39% em relação a 2024.
No Brasil especificamente, a venda bruta cresceu 35% em moeda local no último trimestre, com 45% mais itens vendidos e 26% mais compradores únicos. E isso com menos de um terço dos adultos brasileiros tendo comprado na plataforma no período — o que, na visão da empresa, sinaliza enorme espaço para crescer.
A Amazon aposta que a velocidade de expansão pode compensar o tamanho da lacuna. A taxa de abertura de novos centros logísticos (três por semana) é o argumento central dessa tese. Se mantido, o ritmo permitiria dobrar a infraestrutura atual em menos de um ano.
Mas a disputa vai além dos centros de distribuição. O Mercado Livre tem um ecossistema financeiro consolidado que a Amazon não replica facilmente. O Mercado Pago encerrou 2025 com 78 milhões de usuários ativos mensais (alta de 28% no ano) e uma carteira de crédito de US$ 12,5 bilhões, crescimento de 90% na comparação anual.
Esses números posicionam o braço financeiro do Meli como uma das maiores fintechs da América Latina, o que cria barreiras de saída que vão muito além do e-commerce.
A Amazon tenta responder com subsídios e condições favoráveis para atrair vendedores, mas ainda não tem no Brasil um produto financeiro com penetração comparável.
O modelo DSP (Delivery Service Partner) é outra peça da estratégia da Amazon. A empresa terceiriza a entrega de última milha para empreendedores locais, criando uma rede descentralizada de motoristas. A abordagem reduz custos fixos e adapta a operação às particularidades do território brasileiro, que é um país de grande extensão, com logística urbana complexa e infraestrutura rodoviária desigual.
Aposta de longo prazo
Os analistas do BTG Pactual alertam que a expansão logística no Brasil ainda deve pressionar as margens da Amazon no curto prazo, por causa dos investimentos em infraestrutura e dos subsídios oferecidos a vendedores.
A rentabilidade do negócio depende da chamada “convergência por densidade”: conforme o volume cresce e a rede é mais utilizada, os custos unitários caem e necessidade de subsídios é menor.
Há também riscos regulatórios.
A Amazon é simultaneamente plataforma de vendas e prestadora de serviços logísticos para os mesmos sellers que competem com seus produtos próprios. Essa dualidade já atrai escrutínio de autoridades em diferentes países e pode ganhar atenção crescente no Brasil à medida que a empresa amplia sua presença.
Para o BTG, o movimento consolida a Amazon não apenas como varejista ou empresa de tecnologia em nuvem mas como uma plataforma global de infraestrutura, com o Brasil funcionando como laboratório para esse modelo em mercados emergentes de alto crescimento.
A questão é se a velocidade de expansão será suficiente para transformar investimento em vantagem competitiva antes que o Mercado Livre consolide ainda mais sua posição.
