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Após reportagem do InvestNews, MPF investiga Lecar por suspeita de pirâmide financeira

Apuração partiu de denúncia baseada em reportagem do InvestNews publicada em dezembro. Fazenda aponta indícios de pirâmide no caso Lecar

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A Lecar, a montadora sem fábrica que vende carros que ainda não existem, agora é alvo do Ministério Público Federal. A procuradora da República Lisiane Cristina Braecher, de São Paulo, abriu procedimento preparatório para apurar se a empresa opera um esquema de pirâmide financeira.

A investigação surgiu a partir de uma reportagem do InvestNews, publicada em dezembro de 2025, que mostrou como a Lecar captava dinheiro de consumidores por meio da chamada “Compra Programada”, sem autorização do Ministério da Fazenda.

A Lecar oferece os modelos Campo e Lecar 459 por R$ 159,3 mil em planos de até 72 meses. Até o momento, nenhum carro foi produzido.

A existência da investigação foi revelada pelo colunista Tácio Lorran, do Metrópoles. O MPF pediu à Fazenda e à Comissão de Valores Mobiliários que informassem se havia apuração em curso contra a Lecar e se a empresa chegou a solicitar autorização para operar o modelo de venda antecipada.

A resposta da Fazenda veio em 27 de março, na Nota Informativa SEI nº 671/2026/MF. A Secretaria de Prêmios e Apostas informou que nunca autorizou a Lecar a captar dinheiro antecipado de consumidores — e que nunca poderia ter autorizado, nos moldes em que o negócio foi montado. A conclusão vai além: a operação da Lecar não se enquadra sequer como captação de poupança popular. Na avaliação do ministério, o que a empresa faz tem características de pirâmide financeira.

“A denúncia foi instruída por reportagem do portal InvestNews, que detalha a ausência de fábrica, a inexistência física dos veículos e a operação de captação de recursos sem as garantias legalmente exigidas. O responsável apontado é Flávio Figueiredo de Assis, com histórico de participação em outras empresas de perfil semelhante, como Lebank e Lecard”, diz a nota técnica

O documento, elenca quatro elementos.

  1. O Programa Executivo Lecar cobra taxa de adesão para que o participante atue como revendedor — paga para trabalhar.
  2. Os veículos à venda não existem fisicamente: não há protótipo funcional, fábrica construída ou cronograma verificável.
  3. Os materiais de divulgação empregam gatilhos de urgência e escassez para pressionar adesões.
  4. E a própria empresa declara depender da entrada de novos compradores para honrar compromissos com os anteriores — o que a Fazenda lê como admissão de estrutura piramidal.

A Portaria 7.660/2022, que a Lecar cita no topo de seus contratos e repete em vídeos e apresentações como se fosse um selo de legitimidade, exige autorização expressa do governo, fiança bancária e capacidade industrial comprovada. A Lecar não atende a nenhum desses requisitos.

Em nota publicada no Instagram, a empresa afirmou que nenhum cliente alegou prejuízo e que, sem vítima, não há base legal para imputar ilícitos. Disse que não foi notificada pelo MPF nem pela Receita Federal e que desconhece a existência e o conteúdo da nota técnica da Fazenda. A Lecar declarou atuar em conformidade com a legislação e se reservou o direito de adotar medidas para proteger sua reputação. Também se comparou à Gurgel e disse que querem impedi-la de nascer.

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