A investigação surgiu a partir de uma reportagem do InvestNews, publicada em dezembro de 2025, que mostrou como a Lecar captava dinheiro de consumidores por meio da chamada “Compra Programada”, sem autorização do Ministério da Fazenda.
A Lecar oferece os modelos Campo e Lecar 459 por R$ 159,3 mil em planos de até 72 meses. Até o momento, nenhum carro foi produzido.
A existência da investigação foi revelada pelo colunista Tácio Lorran, do Metrópoles. O MPF pediu à Fazenda e à Comissão de Valores Mobiliários que informassem se havia apuração em curso contra a Lecar e se a empresa chegou a solicitar autorização para operar o modelo de venda antecipada.
A resposta da Fazenda veio em 27 de março, na Nota Informativa SEI nº 671/2026/MF. A Secretaria de Prêmios e Apostas informou que nunca autorizou a Lecar a captar dinheiro antecipado de consumidores — e que nunca poderia ter autorizado, nos moldes em que o negócio foi montado. A conclusão vai além: a operação da Lecar não se enquadra sequer como captação de poupança popular. Na avaliação do ministério, o que a empresa faz tem características de pirâmide financeira.
“A denúncia foi instruída por reportagem do portal InvestNews, que detalha a ausência de fábrica, a inexistência física dos veículos e a operação de captação de recursos sem as garantias legalmente exigidas. O responsável apontado é Flávio Figueiredo de Assis, com histórico de participação em outras empresas de perfil semelhante, como Lebank e Lecard”, diz a nota técnica
O documento, elenca quatro elementos.
- O Programa Executivo Lecar cobra taxa de adesão para que o participante atue como revendedor — paga para trabalhar.
- Os veículos à venda não existem fisicamente: não há protótipo funcional, fábrica construída ou cronograma verificável.
- Os materiais de divulgação empregam gatilhos de urgência e escassez para pressionar adesões.
- E a própria empresa declara depender da entrada de novos compradores para honrar compromissos com os anteriores — o que a Fazenda lê como admissão de estrutura piramidal.
A Portaria 7.660/2022, que a Lecar cita no topo de seus contratos e repete em vídeos e apresentações como se fosse um selo de legitimidade, exige autorização expressa do governo, fiança bancária e capacidade industrial comprovada. A Lecar não atende a nenhum desses requisitos.
Em nota publicada no Instagram, a empresa afirmou que nenhum cliente alegou prejuízo e que, sem vítima, não há base legal para imputar ilícitos. Disse que não foi notificada pelo MPF nem pela Receita Federal e que desconhece a existência e o conteúdo da nota técnica da Fazenda. A Lecar declarou atuar em conformidade com a legislação e se reservou o direito de adotar medidas para proteger sua reputação. Também se comparou à Gurgel e disse que querem impedi-la de nascer.
