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Apple retira metas ESG da remuneração de Tim Cook e outros executivos

O mecanismo permitia ao conselho elevar ou reduzir os bônus em até 10%, conforme o desempenho da empresa em metas como corte de emissões e uso de energia renovável na cadeia de fornecedores

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Há dois anos, muitas das maiores empresas dos Estados Unidos começaram a retirar metas de diversidade dos pacotes de remuneração de executivos. Agora, métricas ambientais, incluindo objetivos ligados a emissões de carbono, começam a enfrentar destino semelhante.

A Apple removeu discretamente um chamado “componente ESG na remuneração” de seus pacotes de remuneração de 2025 para o CEO Tim Cook e outros altos executivos, segundo documento corporativo divulgado no mês passado.

A regra, em vigor desde 2021, permitia ao conselho ajustar bônus anuais para cima ou para baixo em até 10%, dependendo do desempenho da companhia em diferentes métricas, incluindo redução de gases de efeito estufa e uso de energia renovável por fornecedores.

O movimento da Apple segue decisões semelhantes adotadas por dezenas de empresas, entre elas Starbucks, Salesforce, Mastercard e Procter & Gamble, que recentemente enfraqueceram ou romperam os vínculos entre desempenho ambiental e o tamanho da remuneração de seus executivos.

A mudança já aparece nos números. A fatia de empresas do S&P 500 que vinculam remuneração executiva a métricas ambientais caiu para 46,7% em 2025, ante um pico de 52,6% dois anos antes, segundo dados do The Conference Board e da consultoria ESGAUGE.

O recuo é modesto se comparado à debandada das métricas de diversidade, que estavam presentes em quase três quartos dos planos de remuneração do S&P 500 em 2023, antes de despencar para 34% no ano passado. Ainda assim, a retirada recente de metas climáticas por empresas de grande porte pode encorajar outras a seguir o mesmo caminho, avalia Brian Bueno, da Farient Advisors.

“Estamos vendo essa reversão pública de forma mais explícita no lado de diversidade e inclusão, mas certamente há mudanças também na parte climática”, disse Jannice Koors, da consultoria Pearl Meyer.

Apple, Starbucks e P&G afirmaram que seguem comprometidas com suas metas ambientais, embora tenham evitado entrevistas. A Mastercard também reiterou avanços em seus objetivos. A Salesforce não respondeu aos pedidos de comentário.

O recuo representa um revés para um mecanismo visto como promissor para impulsionar ações corporativas em temas como clima e conservação da água.

Para muitos especialistas, atrelar remuneração ao desempenho ambiental faz sentido porque riscos climáticos podem se traduzir em problemas financeiros — seja por interrupções na cadeia de suprimentos, escassez de recursos hídricos ou regulações mais rígidas. Vincular parte do pagamento dos executivos a esses indicadores garante que o tema entre nas discussões sobre operações e alocação de capital, afirma Namrita Kapur, da Yale School of Management.

“Se algo não está refletido na remuneração, raramente recebe atenção sustentada no nível da liderança”, disse Kapur. “Vincular pagamento a esses resultados sinaliza que eles são centrais para o desempenho, não projetos paralelos.”

Michael Garland, responsável por governança corporativa no gabinete do controlador da cidade de Nova York — que supervisiona US$ 311 bilhões em fundos de pensão — afirma que esses vínculos ajudam a evitar que empresas negligenciem a transição climática. “As pessoas fazem aquilo pelo que são pagas”, afirmou.

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Mas a oposição política tem se intensificado. Ativistas conservadores há anos criticam iniciativas corporativas ligadas a clima e diversidade como “woke”. Após decisão da Suprema Corte dos EUA em 2023 que derrubou ações afirmativas em admissões universitárias, muitas empresas eliminaram métricas de diversidade atreladas à remuneração. A tendência pode ganhar força após a revelação de que o governo dos EUA investiga a Nike por seus esforços de diversidade, incluindo vínculos com a remuneração executiva.

Regulações climáticas

Agora, com o presidente Donald Trump revogando regulações climáticas e criticando esforços de redução de emissões, algumas companhias podem temer manter conexões explícitas entre pagamento e metas ambientais.

Com menos regulação climática no horizonte, a pressão de investidores também esfriou. Acionistas têm cobrado menos as empresas sobre questões ambientais do que há alguns anos, diz Bueno. “Isso faz com que esses temas fiquem menos no topo das prioridades da companhia e do conselho. Se não há tanto foco, é o tipo de coisa que acaba saindo.”

O recuo também sugere que algumas empresas nunca integraram plenamente metas ambientais à estratégia de negócios, avalia Koors. “Vimos muito efeito manada”, disse. “Quando os ventos mudaram de direção, simplesmente retiraram.”

Mesmo antes desse movimento, parte dos planos de remuneração ligados a ESG tinha impacto limitado. Muitos estabeleciam metas fáceis de alcançar, segundo estudo de 2024 de professores da Universidade da Califórnia em Berkeley e da Universidade Stanford. As empresas do S&P 500 falharam em todas as métricas ESG apenas 2% das vezes, contra 22% de falhas nas metas financeiras — o que levantou questionamentos sobre aumentos salariais com pouco progresso ambiental.

Em muitos casos, o peso das métricas ambientais também era reduzido. O modificador ESG da Apple, por exemplo, elevou a remuneração de Tim Cook em US$ 747.450 em 2023 — valor que representou apenas 1,2% de sua compensação total naquele ano.

Ainda assim, algumas empresas afirmam que o vínculo entre desempenho ambiental e remuneração veio para ficar. A Xcel Energy, empresa de energia com sede em Minneapolis, associa a remuneração executiva a metas ambientais há duas décadas. Sua meta de emissões responde por cerca de 20% do pagamento potencial dos principais executivos.

A companhia opera em oito estados, três deles com metas rígidas de redução de emissões. Diversos municípios em sua área de atuação também adotaram objetivos climáticos ambiciosos.

“Esses estados e comunidades pedem metas e métricas ambientais há muito tempo”, disse Jeff Lyng, vice-presidente de assuntos externos e políticas da empresa. “Para nós, desempenho ambiental e desempenho financeiro estão totalmente conectados.”

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