Newsletter

Espaço na cesta de compras: Assaí aponta bets e juros como vilões do consumo

Atacadista mantém margem estável e reduz alavancagem ao menor nível desde 2021, mas SSS cai 0,9% com queda de 12% nos preços de commodities essenciais

Publicidade

O dinheiro gasto em juros está fazendo falta nos carrinhos de compra, segundo Belmiro Gomes, CEO do grupo de atacarejo Assaí. O alto endividamento das famílias — mais de 80% delas declaram algum tipo de dívida, recorde histórico — tem freado o consumo tanto das classes C, D e E quanto dos pequenos comerciantes que se abastecem no atacarejo para revender em mercearias e restaurantes.

O diagnóstico veio junto com a divulgação dos resultados do primeiro trimestre de 2026, nesta terça-feira (28). A companhia faturou R$ 20,6 bilhões no período, uma alta de 1,7% em relação ao mesmo trimestre do ano anterior. Mas as vendas nas mesmas lojas recuaram 0,9%, queda mais intensa do que analistas de mercado projetavam.

O principal ofensor do faturamento foi a queda de preços. Arroz, feijão, açúcar, leite UHT, óleo de soja e farinha de trigo — categorias que respondem por fatia relevante do mix do atacarejo — registraram deflação média de 12% no trimestre, segundo dados do IBGE. Para um canal que responde por 50% do mercado alimentar brasileiro e por 65% das vendas de commodities no varejo, esse movimento tem impacto direto e inevitável na receita nominal.

Quando o preço do arroz cai de R$ 28 para R$ 12, a loja vende o mesmo volume físico por muito menos dinheiro — e o crescimento de vendas fica automaticamente abaixo da inflação. Uma alternativa seria tentar compensar essa queda abrindo mão de margem para atrair mais volume.

Mas Gomes descartou essa estratégia. “Tentar forçar isso significaria gastar margem num momento em que o mercado não está comprador”, afirmou durante a teleconferência com analistas.

A estratégia adotada foi preservar rentabilidade em vez de perseguir volume. O EBITDA ajustado foi de R$ 1,0 bilhão, com margem de 5,5%, estável em relação ao primeiro trimestre de 2025, mesmo com o faturamento crescendo abaixo da inflação.

Além da deflação, o Assaí enfrentou um consumidor com menos espaço para gastar. Com juros na casa de 14% ao ano, uma parcela crescente da renda vai diretamente para o serviço da dívida. O fenômeno das apostas esportivas agrava ainda mais esse quadro.

Segundo pesquisa da Scanntech em parceria com a McKinsey, cerca de 12% dos brasileiros tratam as apostas como fonte de renda. Esse percentual que sobe para 36% entre as famílias de menor renda. “O Brasil tem um bilhão de acessos mensais a sites de apostas. É mais do que WhatsApp ou YouTube”, afirmou Gomes. “Esse dinheiro tem faltado no carrinho.”

Para o executivo, é esse impacto das apostas que tem ampliado o chamado “efeito K”, em que o consumo de alta renda segue aquecido enquanto a base da pirâmide retrai. Enquanto o setor voltado à classe média e alta cresceu nominalmente entre 3% e 4%, os formatos mais expostos à baixa renda registraram queda de cerca de 9% em volume.

Novos caminhos

Diante do cenário adverso no consumo, o Assaí avançou em iniciativas de diversificação. A parceria com o iFood chegou a 104 lojas, com as vendas pelo canal last mile mais que dobrando na comparação anual. Um piloto com o Mercado Livre no modelo de fulfillment foi iniciado no final de março.

A companhia lançou os primeiros 25 itens de marca própria e anunciou entrada no segmento de farmácias a partir de julho, com previsão de 25 unidades implantadas até o fim de 2026, concentradas em São Paulo.

Publicidade

Como as lojas já existem, o custo de implantação das farmácias deve ser cerca de um terço do que a companhia gastou para instalar os açougues, o que, segundo Gomes, torna a iniciativa pouco intensiva em capital – ponto relevante enquanto a companhia busca reduzir seu endividamento. A alavancagem financeira, por exemplo, recuou para 2,52 vezes, ante 3,15 vezes no primeiro trimestre de 2025 — o menor nível desde o quarto trimestre de 2021.

Há ainda uma aposta na mudança de hábitos do consumidor. Em 93 lojas nos estados de São Paulo, Rio de Janeiro e Distrito Federal, o Assaí criou corredores dedicados a suplementos alimentares, whey protein, creatina, barras proteicas, aveia, granola e bebidas funcionais.

A iniciativa responde à migração de parte dos clientes de carboidratos para proteínas — tendência acelerada, segundo Gomes, pelo crescimento no uso de medicamentos para controle de peso como o Ozempic.

As novas iniciativas têm capacidade de gerar receita adicional, mas Gomes foi cauteloso ao avaliar seu impacto no curto prazo. Quando categorias core do atacarejo registram quedas de 20% a 30% nos preços, nenhuma iniciativa digital ou de diversificação consegue compensar essa perda no faturamento.

A recuperação relevante de receita, na visão do executivo, depende da reversão do ciclo deflacionário — e ele acredita que esse ajuste virá. No caso do arroz, por exemplo, a saca chegou a ser vendida por R$ 53, enquanto o custo de produção é de R$ 75. “O produtor também não consegue vender abaixo do custo de produção indefinidamente”, disse.

O CEO sinalizou que a deflação de commodities deve dar lugar a pressões inflacionárias já no segundo trimestre, a partir dos efeitos do conflito no Oriente Médio sobre o preço do petróleo e derivados. “Abril ainda tem impacto menor, mas devemos ver movimentos mais fortes em maio e junho”, disse Gomes.

Exit mobile version