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No Assaí, canetas emagrecedoras mudam a cesta de compras e aceleram abertura de farmácias próprias

Belmiro Gomes, CEO do Assaí, diz que consumo de arroz já caiu com a mudança de hábito, enquanto cresce a demanda por proteínas e suplementos

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A mudança nos hábitos alimentares causada pela popularização do uso de medicamentos à base de GLP-1, como Ozempic, Wegovy e Mounjaro, já está transformando a cesta de compras dos consumidores e exigindo adaptação dos supermercadistas — da oferta nas prateleiras à criação de novos negócios.

Segundo o CEO do Assaí, Belmiro Gomes, esse novo cenário levou a companhia a acelerar o plano de inaugurar farmácias próprias. A venda de medicamentos em supermercados é uma bandeira defendida pelo setor há anos e ainda depende da aprovação de um projeto de lei em tramitação no Congresso.

Enquanto a liberação não vem, a rede de atacarejo estruturou o projeto da farmácia Assaí: serão inauguradas 25 unidades até julho, todas dentro do complexo comercial de suas lojas. Por estarem em locais onde a companhia já opera, os custos de implantação são reduzidos, afirma Gomes.

Caso a venda de medicamentos em supermercados seja aprovada, a farmácia passaria a operar dentro da área de mercado, ao lado de alimentos, produtos de limpeza e bebidas

“Com a mudança promovida pelo mercado de canetas [emagrecedoras], decidimos nos antecipar com as farmácias. Porque, além de medicamentos, quero vender suplementos e vitaminas [para esse público]”, afirmou o executivo durante evento promovido pelo UBS BB.

Sem arroz

No Assaí, a queda na venda de indulgências — as “besterinhas” do dia a dia — é mais evidente.
“Há menos consumo de álcool e, depois, de doces. Em contrapartida, aumenta o consumo de proteína”, diz o CEO.

Até mesmo alimentos tradicionalmente vistos como mais nutritivos, como o arroz, já refletem a mudança de comportamento alimentar estimulada pelos medicamentos. “Nos carboidratos primários há uma deflação muito maior do que o movimento comum dos preços de commodities. O preço do arroz tem caído mais pela retração da demanda do que pelo excesso de oferta”, afirma.

A inflação do arroz acumulou queda de 26,56% em 2025 e segue em trajetória descendente neste início de ano: o IPCA-15 — cujo período de coleta vai aproximadamente do dia 15 do mês anterior ao dia 15 do mês de referência — mostrou novo recuo de 2,20% em janeiro.

Em 2024, o preço do arroz havia subido 8,24%, o que indica que parte da queda recente também reflete uma correção. Ainda assim, a retração no faturamento com a venda do produto foi ainda mais intensa: queda de 36% em novembro, segundo dados da empresa de tecnologia de dados do varejo ScannTech, o que sugere também recuo nos volumes comercializados.

Na outra ponta, categorias como suplementos para academia registraram aumento de 47% na receita de vendas, de acordo com a ScannTech. A mesma base aponta crescimento de 11,6% na receita com carne bovina. Como já mostrou o InvestNews, a indústria de alimentos vem se preparando para ampliar a oferta de produtos ricos em proteína voltados ao consumidor usuário de GLP-1.

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“Estamos no início de uma mudança comportamental. Sinceramente, por que eu quis colocar açougue nas lojas há dois anos? Porque já começávamos a perceber esse movimento. Somos os maiores vendedores de carne do país. O volume de frango e de ovos também está crescendo”, diz Gomes.

Foco nas fibras

Para fabricantes de massas e biscoitos, a mudança nos hábitos de consumo exige cautela redobrada. Na M. Dias Branco, dona da marca de massas Adria, o carboidrato não é tratado como vilão, mas a avaliação é que o novo comportamento alimentar do brasileiro no pós-Ozempic tende a abrir oportunidades para a companhia.

“O GLP-1 tem impacto direto na estratégia e no portfólio que a empresa está tentando adaptar. Entender esse consumidor pode abrir um grande leque de possibilidades. Existe, por exemplo, bastante proteína na casca do trigo. Ajustando a composição, você consegue criar novos produtos”, afirmou Mateus Alencar, vice-presidente comercial da companhia, que também controla a marca de biscoitos Piraquê.

Em 2022, diante do aumento da demanda por alimentos mais saudáveis, a empresa adquiriu a fabricante de produtos naturais Jasmine. Um ano antes, em 2021, já havia comprado a Fit Food, voltada a snacks com apelo saudável.

“Acho importante nem subestimar nem superestimar a estratégia que a companhia está adotando. Sempre existe a tentação de falar em grandes tendências para não correr o risco de ficar de fora. Hoje, em regiões como São Paulo, a pauta já é fibras, por exemplo. A saúde intestinal, a busca por saciedade”, disse Alencar.

A empresa monitora as tendências e ajusta o portfólio, mas mantém atenção também à viabilidade financeira dessas apostas. “Na M. Dias Branco, temos uma tendência clara de trabalhar alimentos mais funcionais, mas é preciso adaptar o portfólio e alocá-lo em cada mercado de acordo com aquele consumidor. Existem vários ‘Brasis’.”

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