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Bershka, do mesmo grupo da Zara, chega ao Brasil na briga pelo consumidor da Geração Z

Marca da Inditex é voltada para público mais jovem e tem preços mais baixos que sua marca-irmã Zara; primeira loja abre no Morumbi Shopping, em SP

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A Bershka, marca jovem do grupo espanhol Inditex, chega oficialmente ao Brasil nesta quarta-feira (18) com a abertura de sua primeira loja no Morumbi Shopping, em São Paulo, e uma plataforma de e-commerce que opera com atendimento para todo o país.

Ainda neste ano, a marca espanhola pretende abrir uma segunda loja no Rio de Janeiro, enquanto a Inditex promete trazer mais uma marca também neste ano: a Massimo Dutti, ampliando sua aposta local com uma proposta mais sofisticada, voltada a um consumidor de maior renda.

Criada em 1998, a rede cujo nome se pronuncia “bérxica” chega sob o guarda-chuva de um grupo que tem na Zara sua principal bandeira global, com cerca de 1.500 lojas no mundo ao fim de 2025. No Brasil, a operação da Zara conta com 45 lojas, além de nove unidades da Zara Home.

A estreia representa a entrada no país de uma rede que busca construir uma comunidade ao seu redor para ganhar autoridade e um público que seja engajado com seus produtos. Representantes da Bershka afirmaram ao InvestNews que a estratégia é se conectar ao público jovem por meio da cultura urbana, da música, das redes sociais e da expressão pessoal.

A ideia é se posicionar menos como uma simples varejista de moda e mais como uma marca com linguagem própria para um consumidor atento a tendências e sempre de olho nas novidades em redes sociais como o TikTok. Na sua chegada ao Brasil, a Bershka escolheu a cantora Marina Sena, que dialoga em particular com esse público, para vestir suas peças.

A cantora Marina Sena foi a escolhida na chegada da Bershka ao Brasil

A aposta no Brasil não é pequena.

Em 2025, a Bershka fechou o ano com 3,3 bilhões de euros em vendas e lucro antes de impostos de 657 milhões de euros. Terminou o ano com 852 lojas no mundo, com a Inditex a descrevendo como uma das suas plataformas principais de crescimento. Só ficou atrás das marcas da Zara na participação da receita.

A marca jovem da Inditex já tem intimidade com o público latino-americano: o México recebeu suas lojas já em 2000, e ela também está presente na Colômbia e no Equador.

No Brasil, o fato de o grupo já conhecer o país por meio da Zara foi um fator decisivo. A Bershka afirmou que a experiência ajudou a embasar a leitura de que existe por aqui uma base ampla de consumidores jovens interessados em música, cultura urbana e tendências — justamente os códigos que a marca busca ocupar.

Onde a Bershka quer jogar

O cuidado com a estratégia de desembarque no país faz sentido. A história recente do varejo de moda no Brasil mostra que a entrada de uma rede estrangeira nem sempre é simples.

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A Forever 21 tentou, mas não conseguiu se manter no país. A H&M só concretizou sua operação no ano passado, depois de ter ensaiado por algumas vezes sua chegada.

Com plano gradual de expansão, a marca sueca teve impacto inicial limitado para as vendas de varejistas nacionais e para outros grupos já estabelecidos há anos no Brasil, como a própria Zara.

A atenção de analistas, nesse caso, está para a evolução a partir dessa chegada, em questões como velocidade de expansão, sourcing (fornecimento) local e capacidade de execução.

Com a Bershka, o raciocínio adotado pela Inditex tende a ser semelhante. O buzz gerado pela chegada da marca é imediato. O efeito financeiro sobre concorrentes, não.

Isso acontece também porque a marca jovem espanhola desembarca em um mercado que segue disposto a consumir moda, mas com bastante seletividade.

Pesquisa do time de análise do UBS mostra que 59% dos consumidores brasileiros afirmaram ter aumentado os gastos com roupas em 2025, enquanto 63% disseram que pretendem gastar mais nos próximos 12 meses.

Ao mesmo tempo, o estudo alerta que o consumo continua cercado por restrições financeiras. Entre os que reduziram compras, pesam fatores como menos dinheiro disponível, necessidade de poupar para outras despesas, cautela e compromissos financeiros. O banco destaca ainda o endividamento das famílias, perto das máximas históricas, como um risco para o consumo neste ano.

Na prática, isso significa que há espaço para novidade, mas não para erro de posicionamento. O estudo mostra que qualidade do produto segue como o principal fator de decisão na compra de roupas, seguido por custo-benefício e preço.

Ou seja, o consumidor não olha apenas o menor valor na etiqueta mas quer perceber valor na compra. Ainda assim, o preço continua sendo um divisor de águas: 71% dos consumidores dizem que cortariam gastos com roupas e acessórios se os preços subissem 10%.

É aí que está um dos principais testes da Bershka no Brasil. A marca fala com um público jovem e, por isso, precisa trabalhar com preços “democráticos”. No e-commerce da Bershka, o preço de tops variam entre R$ 129 e R$ 149, por exemplo. Grande parte das calças jeans está à venda por R$ 250.

Estratégia com importados

Há uma pressão importante no custo da operação, já que ela começa abastecida exclusivamente por produtos importados. A empresa diz que isso não impede eventual fabricação no país no futuro, mas, por ora, a equação passa por importação, impostos e adaptação de preço a um mercado notoriamente sensível a custo.

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A Zara, que está no país desde 1999, já produziu localmente, mas nos últimos anos conta apenas com peças importadas.

A Bershka é antes de tudo uma marca de vestuário, mas tem também exposição relevante a calçados e acessórios, categorias que, segundo estimativas de mercado, respondem por cerca de 20% a 25% da receita. É uma fatia importante para uma operação que tenta combinar tendência de moda, tíquete mais alto em alguns itens e compra por impulso.

Esse ponto também ajuda a explicar por que a Bershka provavelmente vai disputar atenção em mais de uma frente ao mesmo tempo. No chamado mass market, a plataforma de e-commerce chinesa Shein continua relevante, mas já não parece carregar o mesmo fôlego dos últimos anos.

O levantamento do UBS mostra que a plataforma chinesa segue forte em percepção de marca, mas perdeu terreno em vários atributos, enquanto a Renner melhorou e avançou em intenção de compra. Nessa equação, C&A e Riachuelo também avançaram e a H&M chegou.

Disputa de mercado

No Brasil, algumas marcas dispontam como concorrentes diretas no universo da Bershka. É o caso da Youcom. Controlada pela Renner e igualmente voltada ao público mais jovem, a marca brasileira se tornou uma das principais apostas de crescimento do grupo justamente por ocupar esse espaço que combina moda, identidade e linguagem de geração.

Em 2025, a Renner fez reformas em lojas da Youcom que dobraram a metragem de algumas unidades, em movimento para ganhar escala e reforçar a experiência de marca. A ambição é chegar a 300 lojas.

“Em número de abertura de lojas, há potencial maior do que a da própria Renner. É uma vertente importante desse crescimento”, diz o CEO da companhia, Fabio Faccio.

Youcom: marca voltado ao público jovem do grupo Renner deve abrir até 25 lojas em 2026

O estilo da Bershka também remete à Baw Clothing, uma marca nativa digital criada em 2014 no Bom Retiro, em São Paulo, e que chegou a fazer parte do Azzas 2154, maior grupo de moda do país.

A marca lança coleções quinzenais e tem forte tração nas redes sociais: já vestiu celebridades como Bruna Marquezine, Marcos Mion e Maísa e soma hoje 1,4 milhão de seguidores no Instagram.

Ainda assim, depois de ter sido comprada pela então AR&Co em 2021, acabou sendo revendida aos fundadores em meio à reorganização de portfólio da Azzas 2154, grupo nascido da fusão entre Arezzo e Soma e liderado por Alexandre Birman.

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A volta da Baw ao comando original veio acompanhada do discurso de resgate de autenticidade, reconexão com a comunidade e retomada da essência da marca, que tinha ficado “perdida” dentro de um grupo muito maior.

A Bershka, na teoria, tem uma vantagem nesse ponto: já nasceu dentro de uma máquina global de moda, com cadeia, escala e branding muito mais estruturados.

No desembarque no Brasil, a Bershka afirmou ao InvestNews que a marca não criou uma coleção específica para o país, mas fez uma curadoria do sortimento global para escolher as peças mais adequadas ao clima e ao momento comercial local.

“É uma adaptação mais de edição do mix do que de tropicalização”, diz o porta-voz.

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