Newsletter

Braskem queima R$ 5,9 bilhões do caixa e corre contra o tempo para reestruturar a dívida

Com alavancagem de quase 15 vezes, petroquímica depende de novo controlador e de reestruturação que ainda não avançou

Publicidade

A Braskem passou a última década praticamente paralisada por duas crises: a da família da Odebrecht, que não era sua, e a do desastre ambiental em Alagoas, de sua responsabilidade. Juntas, ambas acabaram consumindo a companhia por dentro. Agora, o tempo perdido cobra o seu preço.

Resta pouca margem de manobra para a IG4 e a Petrobras, que devem assumir o co-controle da companhia nas próximas semanas, assim que os últimos trâmites legais formalizarem a saída da Novonor (ex-Odebrecht).

A operação, que envolveu os cinco maiores bancos do Brasil, encerra um impasse societário que se arrastou por anos e ajudou a piorar a estrutura financeira da maior petroquímica do país.

E os números do quarto trimestre de 2025, divulgados na madrugada desta sexta-feira (27), mostraram o tamanho da conta acumulada de forma atualizada. A Braskem registrou prejuízo líquido de R$ 10,3 bilhões no trimestre e de R$ 9,9 bilhões no ano.

Leia também: Braskem: ações derretem com prejuízo bilionário e risco de descontinuidade das operações

O patrimônio líquido está negativo em R$ 16,5 bilhões. A alavancagem corporativa atingiu 14,74 vezes o resultado operacional (Ebitda), um indicador insustentável a longo prazo, o que torna inadiável uma reorganização do passivo.

“Não há discussão sobre a necessidade de fazer uma reestruturação”, disse o CFO da Braskem, Felipe Jens, durante teleconferência com analistas nesta sexta-feira (27). Hoje, a dívida líquida da companhia está em R$ 41,2 bilhões – considerando valor bruto, o montante é de R$ 51,8 bilhões.

A reestruturação poderá envolver um desconto na dívida (o chamado “haircut“, no jargão do mercado), uma conversão de dívida em ações e uma venda de ativos. A expectativa entre assessores financeiros e credores é que a reorganização envolverá uma combinação dessas medidas. 

A dúvida é sob qual instrumento isso se dará: se uma rolagem da dívida de curto prazo resolve, se por meio de uma recuperação extrajudicial, a exemplo da Raízen, ou pela via judicial, como optaram a Americanas e a própria Novonor.

Jens classificou a reorganização da estrutura de capital como “prioridade absoluta” e afirmou que a companhia trabalha no tema desde setembro de 2025, quando contratou o banco americano Lazard e os escritórios Cleary Gottlieb, também dos EUA, e o brasileiro E. Munhoz Advogados, este último referência em recuperações judiciais e extrajudiciais no país. 

Como é praxe para companhias nessa situação financeira, a consultoria KPMG, que auditou as demonstrações financeiras da Braskem, registrou no parecer uma “incerteza relevante relacionada à continuidade operacional da companhia”.

Publicidade

Jens reconheceu que o balanço parte da premissa de continuidade operacional num horizonte de 12 meses, mas que o plano de reorganização depende de terceiros para se concretizar. As iniciativas, segundo o executivo, “são imprescindíveis para a estabilização financeira” da empresa.

Na estrutura de capital, os sinais de alerta são ainda maiores. O consumo recorrente de caixa somou R$ 5,9 bilhões em 2025, o segundo ano seguido de queima de caixa.

A liquidez da companhia era de US$ 2,1 bilhões ao final de dezembro, mas US$ 1 bilhão veio do saque de uma linha de crédito stand-by realizado em outubro, com vencimento em dezembro de 2026. Na prática, metade do caixa é dívida de curto prazo.

Muito tempo

O pano de fundo da crise da Braskem é bastante conhecido para quem acompanha a empresa. Desde que a Odebrecht entregou suas ações da Braskem como garantia de empréstimos entre 2016 e 2018, a companhia ficou numa espécie de casa à venda que ninguém comprava. 

Passaram pelo processo LyondellBasell, Adnoc, J&F, Unipar, a gestora Apollo e o empresário Nelson Tanure. Nenhum fechou. A companhia ficou num limbo societário que inviabilizou investimentos estratégicos enquanto os concorrentes globais se estruturavam para um ciclo de baixa dos produtos petroquímicos mais intenso que o habitual.

Em paralelo, veio o desastre ambiental em Maceió, com R$ 18 bilhões em provisões acumuladas, e um ciclo de baixa da indústria petroquímica global que comprimiu as margens de lucro em toda a cadeia. A soma desses fatores produziu uma destruição de valor sem precedentes.

A resolução do impasse societário finalmente avançou em dezembro, quando a gestora IG4 Capital, do investidor Paulo Mattos, fechou acordo com os cinco bancos credores da Novonor (Itaú, Bradesco, Santander, Banco do Brasil e BNDES) para assumir o controle da Braskem.

A operação envolveu a transferência de cerca de R$ 20 bilhões em créditos garantidos por ações da petroquímica para um fundo ligado à gestora. A IG4 ficará com 50,1% do capital votante e dividirá o controle com a Petrobras. A Novonor ficará com cerca de 4% em preferenciais, sem voto.

O Cade aprovou a operação sem restrições em 6 de março de 2026, após 73 dias de análise, demora que fez a gestora de Mattos cogitar desistir do negócio. O risco agora parece pacificado. Faltam aprovações no México e na União Europeia, esta última esperada para meados de abril. Na teleconferência, Jens confirmou que a due diligence da IG4 continua em andamento.

A IG4 é conhecida por entrar em empresas em situação de estresse financeiro e reestruturá-las. O caso mais emblemático é o da Iguá Saneamento, antiga CAB Ambiental, que Mattos reorganizou e transformou em uma das maiores operadoras privadas de água do país e que foi vendida para os fundos de pensão candense CPP e AimCO. Fora do Brasil, a gestora controla a empresa de infraestrutura peruana Aenza.

Publicidade

Tempo curto

Mas o turnaround precisa de tempo, e tempo é exatamente o que a Braskem não tem de sobra. 

A parede de vencimentos de dívida é alta. Além do crédito stand-by de US$ 1 bilhão que vence em dezembro de 2026, a Braskem tem US$ 1,4 bilhão em dívidas com vencimento em 2028, US$ 1,6 bilhão em 2030 e mais US$ 1,6 bilhão de 2035 em diante. Com o endividamento atual, o mercado de capitais está fechado para novas captações de recurso.

A situação da Braskem Idesa, joint venture da Braskem no México, adiciona uma camada de risco a mais. A subsidiária deixou de pagar juros de seus bonds em novembro de 2025 e em fevereiro de 2026, o que levou as agências de classificação de risco a rebaixarem sua nota para o equivalente a calote.

A dívida bruta da Braskem Idesa é de US$ 2,25 bilhões, contra um caixa de apenas US$ 35 milhões. A alavancagem está em 23,5 vezes. No quarto trimestre de 2025, a Braskem registrou uma perda contábil de US$ 272 milhões nos ativos da subsidiária mexicana.

A Braskem Idesa negocia com detentores de seus bonds uma reorganização da estrutura de capital que pode envolver um pedido de Chapter 11, o equivalente a uma recuperação judicial nos Estados Unidos. Até o momento, as partes não chegaram a consenso.

Operacional

Por trás da crise de endividamento, a engrenagem industrial da Braskem também roda em marcha lenta. O Ebitda recorrente, indicador que mede quanto a companhia gera de caixa com suas operações antes de pagar juros e impostos, recuou 28% no quarto trimestre, para R$ 589 milhões. 

No acumulado do ano, a queda foi de 45%, para R$ 3,2 bilhões, o pior resultado desde o início do atual ciclo de baixa. A receita líquida caiu 9% em 2025, para R$ 70,7 bilhões. 

As vendas de resinas no mercado doméstico recuaram 5% em 2025, as de químicos caíram na mesma proporção. Os spreads petroquímicos, que tratam da diferença entre o preço de venda dos produtos e o custo das matérias-primas, fecharam o ano em queda de 6% para resinas e 13% para químicos. 

Por outro lado, o conflito no Oriente Médio, iniciado por Estados Unidos e Israel contra o Irã e que escalou nas últimas semanas com ataques iranianos a Dubai, Bahrein e Qatar e restrições no Estreito de Ormuz, está provocando alta nos preços do petróleo e da nafta e, por consequência, nos spreads petroquímicos. Para a Braskem, é uma rara boa notícia em meio a um cenário nebuloso.

Publicidade

O CEO Roberto Ramos argumentou que o conflito tem dimensões maiores do que as incursões anteriores e que isso pode prolongar o momento de alta nos preços do setor. Rosana Avoglio, diretora de Relações com Investidores, disse que consultorias externas projetam aumento de quase 50% nos spreads do segundo trimestre de 2026 em relação ao primeiro.

Sem dar guidance formal, Rosana mencionou que o Ebitda histórico da Braskem entre 2014 e 2025 foi de cerca de US$ 2,4 bilhões, e que os spreads esperados para 2026 se aproximam dessa média.

Se a companhia de fato alcançar esse patamar de resultado operacional, a alavancagem cairia matematicamente de quase 15 vezes para cerca de 3 vezes, já que a dívida não muda, mas a outra ponta da conta, o Ebitda, quadruplicaria.

Mas o cenário depende inteiramente de uma guerra que ninguém controla. “É um cenário dinâmico que muda o tempo todo, o dia inteiro”, acrescenta a executiva.

Exit mobile version