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Chevron: a petroleira dos EUA que pode ganhar bilhões com o fim do governo Maduro

Única gigante americana na Venezuela, petroleira estaria em melhor posição para reconstruir a indústria petrolífera de lá

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Por quase duas décadas, a teimosa insistência da gigante do petróleo Chevron na Venezuela parecia uma tolice: investimentos de bilhões de dólares constantemente ameaçados pelo cabo de guerra entre Caracas e Washington.

Agora, porém, essa estratégia colocou o maior prêmio do petróleo mundial ao alcance da Chevron. Ela é a única grande petroleira global com acesso às imensas reservas de petróleo do país — as maiores do planeta.

Com a queda de Maduro, nenhuma empresa estaria em melhor posição para ajudar a reconstruir a indústria petrolífera devastada do país.

A Chevron produz cerca de 200 mil barris por dia em diversas joint ventures com a estatal venezuelana PDVSA e exporta sua parte da produção para refinarias americanas na Costa do Golfo. Trata-se de uma produção relativamente modesta: a Petrobras tira 2,5 milhões de barris por dia no Brasil.

“São águas muito difíceis de navegar”, disse Francisco Monaldi, diretor de política energética da América Latina na Universidade Rice, em Houston. “Mas a Chevron é uma parceira muito atraente para a Venezuela e para o governo dos EUA. Ela está em uma posição estratégica muito forte em praticamente qualquer cenário possível.”

Os escritórios da Chevron Corp. em Caracas, Venezuela, em 1º de dezembro de 2022. Fotógrafo: Matias Delacroix/Bloomberg

Governos americanos sucessivos impuseram sanções à Venezuela à medida que Maduro apertava seu controle sobre o poder. Mas a Chevron, que começou a explorar petróleo no país em 1923, obteve licenças especiais para contorná-las. E, embora o governo venezuelano tenha prendido (e depois libertado) dois funcionários da Chevron em uma investigação de suposta corrupção em 2018, Maduro frequentemente elogiava a empresa, dizendo queres que ela ficasse por “outros 100 anos”.

Um arranjo único

O arranjo da Chevron com a Venezuela incomodava inimigos tanto em Caracas quanto em Washington. Críticos americanos, que em alguns momentos incluíram o secretário de Estado Marco Rubio, acusam a empresa de ter canalizado bilhões de dólares para um regime brutal e corrupto. Alguns políticos do partido governista venezuelano, por sua vez, veem a Chevron como símbolo do imperialismo americano e querem acabar com a influência estrangeira sobre a maior indústria do país.

As reservas gigantes da Venezuela sempre atraíram empresas internacionais de petróleo. Isso mudou depois que Hugo Chávez, protegido do revolucionário cubano Fidel Castro, venceu a eleição presidencial em 1998. O paraquedista de personalidade grandiosa que virou ícone socialista aprovou leis exigindo que o Estado tivesse 51% de qualquer joint venture com empresas estrangeiras — na prática, nacionalizando a indústria. A ConocoPhillips, então maior investidora estrangeira no país, recusou os novos termos e saiu no início dos anos 2000. A Exxon Mobil fez o mesmo.

Nicolas Maduro, presidente da Venezuela, durante coletiva de imprensa no Palácio Miraflores em Caracas, Venezuela, em 2024. Fotógrafo: Gaby Oraa/Bloomberg

A Chevron decidiu ficar. Ali Moshiri, então chefe da empresa para a América Latina, tinha uma relação próxima com Chávez e buscou construir uma parceria em vez de sair. Em um evento da indústria em meados dos anos 2000, Chávez percebeu que Moshiri não tinha cadeira e, em tom de brincadeira, ofereceu a sua. Moshiri aceitou após um abraço e alguns tapinhas nas costas.

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“Você não pode ter uma atitude de ‘entra e sai’”, disse Moshiri à Bloomberg News em 2005. “Temos de ir aonde o petróleo está.”

A aposta deu certo, ao menos no início. Os preços do petróleo subiram de US$ 25 o barril em 1999 para o recorde de US$ 146 em 2008, o que significava que Chevron e Venezuela dividiam um bolo muito maior, ainda que a fatia da empresa americana fosse menor. A relação continuou sob Maduro após a morte de Chávez, em 2013.

As relações entre Maduro e o governo dos EUA, porém, se deterioraram de forma constante. Trump, em seu primeiro mandato, impôs sanções à indústria petrolífera venezuelana, e o presidente Joe Biden as manteve, desencadeando um período de intenso lobby da Chevron em Washington. A empresa argumentava que o petróleo venezuelano era crítico para a segurança energética dos EUA, porque as refinarias da Costa do Golfo foram projetadas para processar o petróleo pesado que a Venezuela produz. Deixar o país apenas entregaria mais ativos a Maduro e criaria um vazio que empresas russas e chinesas poderiam explorar, disseram pessoas familiarizadas com o lobby à época.

Diante de uma disparada nos preços da gasolina em 2022 após a invasão da Ucrânia pela Rússia, Biden afrouxou as sanções, permitindo que a Chevron aumentasse a produção. Para preservar a imagem diante de um regime com histórico deteriorado de direitos humanos, o governo Biden determinou publicamente que a Chevron não poderia pagar impostos ou royalties a estatais venezuelanas. Uma licença secreta, no entanto, revelada pela Bloomberg News em março, permitia esses pagamentos.

O petróleo da Venezuela continuou fluindo — ajudando a baixar os preços da gasolina nos EUA — enquanto as operações da Chevron permaneciam dentro da lei. O episódio mostrou o quanto os EUA ainda se beneficiam da presença da Chevron no país, mesmo enquanto tentam aumentar a pressão sobre Maduro.

O jogo de longo prazo

A Venezuela não é o primeiro país em que a Chevron aplica sua estratégia de “ficar onde está o petróleo”.

Como Standard Oil of California, fez a primeira descoberta comercial na Arábia Saudita em 1938 e manteve presença produtiva ali por sete décadas, mesmo com a maior parte da produção hoje nas mãos da estatal Saudi Aramco. A Chevron foi a primeira grande petroleira no Cazaquistão após o fim da União Soviética e enfrentou desafios técnicos e políticos ao elevar a produção para mais de 1 milhão de barris por dia ao longo de três décadas.

Mas a estratégia não vem sem custos. Ela expõe a Chevron a interrupções provocadas por conflitos ao redor do mundo. Ao mesmo tempo, críticos atacam a empresa por fazer parcerias com governos antidemocráticos que usam o dinheiro do petróleo para reprimir direitos humanos — incluindo a Venezuela.

Com a mudança de regime na Venezuela, é improvável que a Chevron seja a única grande petroleira interessada. A Exxon olharia qualquer oportunidade potencial, mas com cautela, já que seus ativos no país foram expropriados no passado, disse o CEO Darren Woods em entrevista no ano passado.

“Eu não colocaria na lista nem tiraria da lista”, disse Woods, quando o fim do regime era apenas uma hipótese. “Teríamos de ver quais seriam as circunstâncias no momento.”

Mike Wirth, CEO da Chevron, em contraste, seguia firme na convicção de que a empresa iria permanecer. “Nós não escolhemos onde está o recurso”, disse ele na cúpula de CEOs do Wall Street Journal no início de dezembro. “Se saíssemos toda vez que discordamos de um governo, acabaríamos saindo de todos os lugares — inclusive deste país.”

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