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Regulação tirou de um lado e deu do outro — e a Cogna buscou aproveitar com diversificação

Queda no EAD por mudança regulatória foi compensada por ganho de mercado no PNLD e aumento do ticket médio no presencial

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As empresas de educação estão – naturalmente, como setor regulado – entre as mais expostas às decisões de governo sobre políticas e regras para o seu funcionamento. No último ano, mudanças e novas exigências impactaram a dinâmica dos negócios em áreas relevantes, do ensino superior à distância à educação básica, além dos cursos de medicina.

Para a Cogna, um dos maiores grupos de educação do país, com mais de 1,1 milhão de alunos no ensino superior e venda de soluções para mais de 2 milhões de alunos no ensino básico, não foi diferente.

Houve impactos positivos e outros que afetaram negativamente as receitas. E o saldo tem sido positivo até aqui, com uma dinâmica de negócios que permite sustentar uma perspectiva favorável muito em razão de decisões estratégicas – de diversificação – adotadas ao longo dos últimos anos.

Um dos exemplos se deu na educação básica, sob impulso do PNLD, o Programa Nacional do Livro e do Material Didático, que voltou a ser priorizado pelo atual governo. A Cogna ganhou oito pontos de market share no programa voltado para alunos do ensino médio, alcançando 30% do mercado, com a força de editoras tradicionais como Saraiva, Ática e Scipione.

As receitas com o PNLD somaram R$ 307,7 milhões no primeiro trimestre, muito acima dos R$ 160 milhões que haviam sido projetados (guidance) ao mercado – e dos R$ 6,5 milhões um ano antes; uma parte importante do aumento ocorreu em razão de efeito calendário que “escorregou” a demanda do quarto trimestre de 2025 para o primeiro de 2026, mas parte foi com o ganho de mercado.

O ganho de market share no PNLD se traduz, além da compra grande em 2026, em recompras pelos próximos três anos, o que reforça as perspectivas relacionadas ao programa.

As receitas com vendas de soluções customizadas para secretarias estaduais e municipais de educação, que não incluem o PNLD, saltaram da ordem de R$ 30 milhões em 2023 para cerca de R$ 400 milhões em 2025, como parte da estratégia de vender não só para escolas privadas como para governos.

“A Cogna já trabalhava com o PNLD, mas vendia pouco para governos, apesar de contar com time editorial, conteúdos e competências. Hoje essa frente se tornou uma área relevante”, disse Roberto Valério, CEO da Cogna, em entrevista ao InvestNews.

“Eram teses há quatro ou cinco anos e hoje se mostram não só realidades para o negócio como fortalezas. Nossa tese de ambidestria já está bem provada em números e o mercado hoje reconhece isso [a ação subiu 219% em 2025 e teve a maior alta do Ibovespa]”, afirmou.

O executivo faz referência a uma tese que ganhou força entre lideranças de diferentes setores nos últimos anos – e que busca colocar em prática na Cogna desde que assumiu como CEO no começo de 2022: é preciso cuidar do resultado do presente ao mesmo tempo em que novas áreas de negócios são desenvolvidas para diversificar e reforçar o crescimento nos anos futuros.

Valério disse que novos ganhos devem vir de sinergias da reorganização da unidade de negócios de educação básica, que passou a reunir a Somos Educação – após a deslistagem da Vasta, da qual fazia parte, da Nasdaq no começo deste ano – e a Saber. Um exemplo vem da integração de pessoas, com eliminação de redundâncias, pois havia times que vendiam para governos nas duas marcas.

Impacto de marco regulatório em EAD

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Outra mudança relevante do Ministério da Educação (MEC) que impactou os resultados do grupo foi o novo marco regulatório do ensino superior à distância, instituído em maio de 2025, que colocou exigências do uso dessa modalidade para cada formato – presencial (até 30% de EAD), semipresencial (até 50%) e à distância (até 80%); e que impôs a proibição de EAD para cursos como medicina e enfermagem (este a Cogna oferecia de forma semipresencial em 420 polos).

Como efeito, a captação de novos alunos no ensino à distância caiu 32,2% no primeiro trimestre na comparação anual, o que levou à base da modalidade a encolher 6,6%. Mas isso foi compensado pelo aumento da captação em ensino presencial (+14,4%) e semipresencial (+4,6%), que possuem mensalidades mais caras em razão da sua estrutura física e com professores.

Nos cursos de EAD, o ticket médio no primeiro trimestre da Cogna ficou próximo de R$ 200, enquanto no presencial superou o patamar de R$ 1.100.

No consolidado, o ticket médio dos alunos de graduação – que integram a divisão de negócios de ensino superior, antes conhecida como Kroton – subiu 19,4% nos três primeiros meses do ano versus o mesmo período de 2025, de R$ 355 para R$ 424, como reflexo dessa nova dinâmica.

O resultado dessa equação foi um crescimento de 10,9% na receita líquida da Kroton, para R$ 1,2 bilhão, e de 3,4% no Ebitda recorrente (uma métrica de geração de caixa operacional), para R$ 403 milhões; mas com pressão sobre a margem Ebitda recorrente em razão do aumento da carga horária.

Segundo Valério, há receitas contratadas para o segundo semestre, como dos cursos de enfermagem de forma presencial: a Cogna pediu autorização para 122 polos e já obteve autorização do MEC – até o momento – para 53, o que vai se refletir em novos alunos nos próximos vestibulares.

A Cogna foi afetada – de forma limitada – também pelos resultados do novo exame nacional instituído pelo MEC para avaliar o aprendizado de alunos de medicina: estimativa de analistas do Goldman Sachs apontam sanções ao equivalente a 3,4% das vagas ofertadas pela KrotonMed em razão de notas aquém do esperado pelo governo. Esse efeito não foi dimensionado no resultado trimestral.

De modo consolidado, a Cogna cresceu em dois dígitos altos nas principais métricas observadas por investidores e analistas – e apontados pelo CEO como relevantes no plano estratégico: a receita líquida cresceu 31,9% na base anual, para R$ 2,1 bilhões, enquanto o Ebitda recorrente avançou 22,2%, para R$ 679,6 bilhões, também com piora da margem pelo efeito citado no ensino superior.

O lucro líquido ajustado aumentou 30%, para R$ 200,8 milhões, enquanto a geração de caixa livre teve expansão de 68,7%, para R$ 252,5 milhões – em trajetória de melhoria que dialoga com a decisão anterior de voltar a distribuir dividendos: foram R$ 120 milhões em fevereiro.

A alavancagem voltou a cair e ficou equivalente a 1,13x o Ebitda no trimestre, versus 1,28x um ano antes, o que é um sinal de alívio financeiro em uma economia com juros de dois dígitos desde 2022.

Cogna: impacto da IA para retenção de aluno

Segundo o executivo, que está na área de educação desde o começo da década passada, houve ganhos – não divulgados por razões estratégicas – também com uso de IA (inteligência artificial) em diferentes frentes que se traduzem em maior engajamento e níveis de aprendizado, o que no fim do dia se traduz em menores níveis de abandono de cursos e, portanto, em mais receitas para o grupo.

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Outra frente de crescimento apontada como promissora é a franquia de escolas bilíngues Start-Anglo, lançada em 2023 e que chegou no começo de 2026 a 13 unidades e mais de 2 mil alunos. Segundo Valério, há mais de 60 contratos já assinados para a abertura de novas unidades.

“Há muito valor ainda a ser capturado. Por exemplo, temos muitos alunos de graduação que não se matriculam mas que poderiam fazer cursos técnicos que nos habilitamos para oferecer pelo programa Juros pela Educação. Começamos a fazer isso e, quando acertarmos a mão, será uma oportunidade de centenas de milhões de reais”, disse o CEO da Cogna em referência ao programa federal que financia alunos em ensino técnico em troca de redução de juros da dívida de estados com a União.

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