Por semanas, banqueiros do JPMorgan acompanharam com apreensão os desdobramentos no Oriente Médio enquanto tentavam estruturar o financiamento do maior leveraged buyout – uma aquisição de empresas com uso de dinheiro emprestado – da história: a aquisição de US$ 55 bilhões (R$ 290 bilhões) da desenvolvedora de jogos Electronic Arts por fundos de private equity.
Até o domingo, 22 de março, ainda havia o risco de os Estados Unidos atacarem a infraestrutura energética do Irã, o que poderia derrubar os mercados.
O alívio veio na manhã seguinte, quando Trump anunciou nas redes sociais que adiaria qualquer ataque por cinco dias. A mensagem interna no banco foi direta: é agora.
O risco era elevado tanto para o banco quanto para os investidores envolvidos. A volatilidade dos mercados, somada à deterioração do sentimento em relação a empresas de software, vinha dificultando o timing da operação.
O temor era de que uma falha na distribuição da dívida pudesse travar não apenas a compra da EA, mas também uma fila de cerca de US$ 100 bilhões em financiamentos de fusões e aquisições que Wall Street tenta executar neste ano.
A forma como o JPMorgan conseguiu fechar o negócio ilustra como o mercado financeiro tem operado em meio ao conflito. Com os mercados instáveis, banqueiros passaram a monitorar cada postagem em redes sociais ou declaração oficial para identificar janelas de oportunidade para negócios bilionários — e agir rapidamente.
Avançar, apesar de tudo
O post de Trump em 23 de março foi o empurrão final para que o JPMorgan avançasse com a venda de US$ 6,4 bilhões em títulos e concluísse uma operação de empréstimos alavancados de US$ 8,125 bilhões iniciada uma semana antes.
O banco havia concedido inicialmente US$ 20 bilhões para viabilizar a aquisição da EA por um consórcio liderado pelo fundo soberano da Arábia Saudita, além da Silver Lake e da Affinity Partners, ligada a Jared Kushner.
Internamente, o clima era de confiança. Executivos do banco, incluindo o CEO Jamie Dimon, viam com bons olhos a liderança do CEO da EA, Andrew Wilson.
Durante uma conferência do banco em Miami, Wilson e o CFO Stuart Canfield apresentaram a empresa a investidores, respondendo principalmente a dúvidas sobre inteligência artificial — tema que tem pressionado as avaliações do setor de tecnologia.
A meta era garantir pelo menos US$ 500 milhões de grandes investidores como State Street e Invesco.
Executivos da EA argumentaram que a IA, longe de ser uma ameaça, pode acelerar o desenvolvimento de jogos e impulsionar o crescimento da empresa — especialmente em um setor com altos investimentos em pesquisa e desenvolvimento.
Em poucas horas, a captação estava concluída.
Termos mais atraentes
Com a guerra se intensificando, o mercado seguia sensível. Havia a opção de adiar a operação, mas sem garantia de melhora no cenário.
Em uma reunião virtual na madrugada de 16 de março, banco, empresa e investidores decidiram seguir em frente.
Após um fim de semana tenso, o alívio veio com o anúncio de Trump — e, no dia 23, a oferta de títulos foi oficialmente lançada.
Entre segunda e quarta-feira, equipes trabalharam em três fusos horários para distribuir a dívida, com mais de 500 investidores demonstrando interesse.
O JPMorgan ajustou a estrutura da operação algumas vezes, priorizando empréstimos em detrimento de títulos, o que dá mais flexibilidade à EA para reduzir sua dívida no futuro.
Os empréstimos foram oferecidos com desconto (98,5 centavos por dólar), enquanto os títulos pagavam rendimentos superiores aos de papéis comparáveis. As concessões refletem o ambiente desafiador: volatilidade, impacto da guerra nos preços do petróleo e pressões inflacionárias.
No fim, a demanda superou US$ 50 bilhões para uma oferta de US$ 15 bilhões — e os papéis valorizaram já no primeiro dia de negociação.
Mudança de humor
Segundo David Kinsley, gestor da Impax Asset Management, o JPMorgan conseguiu aproveitar uma rara janela de calmaria em meio à turbulência.
“No curto prazo, tudo depende do conflito no Oriente Médio. Mas, olhando mais amplamente, a demanda por esse tipo de operação continua forte. A questão não é acesso ao mercado, mas preço”, afirmou.
Ainda assim, o cenário mudou em relação ao início do ano, quando operações semelhantes conseguiam condições mais favoráveis.
O ambiente para novos leveraged buyouts segue incerto. Um exemplo é a tentativa de financiamento da Qualtrics, que foi suspensa após resistência de investidores preocupados com o impacto da inteligência artificial.
O JPMorgan também lidera outras operações relevantes, incluindo o financiamento de US$ 4,7 bilhões para aquisição da Sealed Air e a emissão adicional de US$ 2,45 bilhões em títulos de alto risco (high yield)
A grande dúvida agora é se os investidores terão apetite para absorver ainda mais dívida após a operação da EA.
