Desenhos à la Studio Ghibli reforçam a dominância da OpenAI junto ao grande público

Febre dos desenhos ao estilo do estúdio japonês e investimento recorde coroam a OpenAI como nova gigante da tecnologia de consumo

Studio Ghibli: Quais são so limites das obras de arte (re)produzidas por IA

Parece brincadeira, mas os desenhos criados no ChatGPT que inundaram as redes sociais nos últimos dias são possivelmente o evento mais importante para a inteligência artificial desde o lançamento do próprio ChatGPT, em novembro de 2022.

Por duas razões: A) elas reforçam a dominância da OpenAI no campo da inteligência artificial e B) ilustram a noção de que, em se tratando de aplicações de IA, o B2C (os negócios voltados ao consumidor final) pode ser no momento mais relevante que o B2B (negócios para empresas). E não há problema nisso.

Há um medo generalizado de que a IA seja uma bolha. Aswath Damodaran disse recentemente que “para a maioria das empresas, IA será custo, não receita”.

O sentimento comum entre muitos líderes empresariais nasce de uma certa impaciência, de ver experimentos com agentes de inteligência artificial aqui e ali, com poucos ganhos no resultado da empresa no fim do dia. A IA generativa não tem sido tão transformadora para os negócios como muitos esperavam.

Motivo: apesar de uma melhora significativa dos modelos de linguagem — DeepSeek v3, Claude 3.7 e outros LLMs já são melhores que humanos na maioria dos testes de conhecimento e “raciocínio” —, ainda há grandes desafios de integração da IA em sistemas legados, antigos, e bancos de dados mal estruturados.

Esses não são um problema para o uso de IA no ChatGPT. Se a resposta para uma pergunta parece incorreta, o usuário pode perguntar de novo, ou checar as fontes. Se o chatbot não deu uma resposta adequada para uma pergunta escolar, muda-se ligeiramente o prompt. 

O modelo pode ainda ser falho para ser integrado em call-centers, ou muito caro, mas a “alucinação” é um feature, não um bug, se o uso for textos mais criativos ou imagens mais divertidas. 

Em outras palavras, há bons motivos para crer que os casos de uso para o consumidor final estão mais maduros. 

E nesse campo a OpenAI tem ampla dominância. De acordo com dados da similarweb, o ChatGPT já é o sexto site mais acessado do mundo, e tem 500 milhões de pessoas entrando pelo menos uma vez por semana no serviço. No auge da trend do estúdio Ghibli, o ChatGPT chegou a acrescentar 1 milhão de novos usuários por hora. Não há qualquer precedente para essa velocidade de aquisição de clientes. 

O mercado de serviços que concentram assistentes de IA terá outros players, mas a verdade é que eles ainda estão bem atrás. Há bastante competição no segundo lugar, que ora é ocupado pelo Gemini, do Google, ora, pelo DeepSeek — mas o Grok, da xAI de Elon Musk, tem ganhado bastante popularidade, especialmente por ser rápido e não se furtar de discutir temas polêmicos. 

Google Trends / Abril de 2025

Ao incluirmos o ChatGPT na comparação de interesses em buscas na web vemos que ele está em outra escala:

Essa imensa popularidade reforça a tese de que a OpenAI, graças ao ChatGPT, pode ter mais sucesso sendo a “empresa de tecnologia de consumo acidental”, como o analista Ben Thompson definiu em um influente artigo. Era pra ser apenas um laboratório de pesquisa sem fins lucrativos, e pode acabar virando o novo Google.

É claro que a OpenAI pode continuar avançando no campo da inteligência artificial, criando novos modelos de linguagem e licenciar o uso de seus produtos para outras empresas, via API. Mas a oportunidade de ser o destino para quem quiser fazer tudo relacionado à IA — com o Google é para a busca — parece igualmente grande, senão maior, no curto e médio prazos.

Atualmente, o ChatGPT é o melhor lugar para quem quer fazer perguntas para estudo, pesquisas na web, produzir relatórios aprofundados (via Deep Research); ou conversar por voz. Grok, Gemini e Claude são bons em usos específicos — em alguns casos, melhores que o ChatGPT —, como criação de mapas mentais e código de programação (caso do Claude).

Os usos típicos do ChatGPT podem parecer pouco sérios, que não avançam muito a produtividade — em alguns casos, como no da geração de imagens fofas, acabam fazendo o oposto. Mas se olharmos alguns dos últimos gigantes de tecnologia, eles também não começaram com usos muito relevantes para a economia. 

O Facebook era um site para confraternizar com colegas de faculdade antes de virar uma plataforma que revolucionaria a publicidade. O Youtube era um site de “vídeo blogs” antes de ocupar a sala de TV. A Nvidia foi criada para que donos de PCs pudessem experimentar jogos com gráficos mais bonitos, antes de seus chips serem usados para descobrir a cura do câncer via IA.

Ou seja: a validação como empresa amada por pessoas físicas pode ser o caminho para um crescimento duradouro, de expansão de oferta para outros mercados. Os US$ 40 bilhões levantados pela OpenAI — um recorde no mundo das rodadas de investimento — dão fôlego para essa estratégia, que parece estar dando certo. Tanto que o faturamento deve triplicar este ano, e chegar a US$ 12,7 bilhões. Talvez nem seja o suficiente para cobrir os crescentes custos em datacenters e energia, mas serve perfeitamente para mostrar que Sam Altman não está pra brincadeira. 

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