A troca de CEO, promovida pela companhia na semana passada, e a compra bilionária dos ativos da Petronas na Bacia de Campos, anunciada na última sexta (16), deixaram claro que o grupo fundado pelo empresário pernambucano José Cantarelli vem conseguindo impor sua agenda estratégica.
Dona de usinas termelétricas no Nordeste, a Ebrasil (sigla para Eletricidade do Brasil) tem 6,9% da Brava é hoje o único acionista relevante ali com atuação direta no setor de energia — uma característica que passou a fazer diferença em um capital até então dominado por investidores financeiros e de infraestrutura, como a gestora JiveMauá, a família Queiroz Galvão e o Bradesco (maior acionista individual, com 12%).
A nomeação de Richard Kovacs, executivo ligado à própria Ebrasil, para o cargo de CEO da Brava no lugar de Décio Oddone — profissional de mercado e ex-diretor geral da ANP — é o capítulo mais recente de uma sequência de movimentos da Ebrasil que redesenhou a governança da petroleira nos últimos meses: a derrubada da poison pill, a articulação de um bloco acionário e, agora, o comando da gestão executiva.
Com as mudanças anunciadas em 12 de janeiro, que entram em vigor no início de fevereiro, Kovacs deixará a presidência do conselho de administração da Brava. Seu lugar será ocupado por Alexandre Cruz, CEO da JiveMauá, que assumirá como chairman da companhia.
Oportunidade
A aproximação da Ebrasil com a Brava começou em 2024, por meio do fundo Yellowstone, criado pelo grupo de José Cantarelli para investir em empresas listadas. Capitalizado após a venda de sua metade na Celse — complexo termelétrico em Sergipe adquirido pela Eneva por R$ 6,7 bilhões em 2022 —, o fundador da Ebrasil passou a buscar oportunidades de diversificação no mercado de capitais.
A estratégia inicial, segundo uma pessoa próxima da companhia, era semelhante à de um investidor tradicional: identificar empresas descontadas, com potencial de valorização. Nesse movimento, o fundo montou posições em companhias como Cosan, Eneva, Sabesp e Sanepar. A Brava, porém, rapidamente se tornou o principal investimento da carteira.
Nascida da fusão entre Enauta e 3R Petroleum, em agosto de 2024, a petroleira opera como uma corporation, com capital pulverizado. Esse perfil abriu espaço para a entrada de um acionista estratégico, acrescenta a mesma fonte ouvida pelo InvestNews.
Quem identificou a oportunidade foi o próprio Kovacs, que trabalha na Ebrasil desde 2016 e se tornou um dos executivos de confiança de Cantarelli. No primeiro mês de operação do fundo, em novembro de 2024, o Yellowstone investiu R$ 37 milhões na Brava, adquirindo 1,86 milhão de ações (0,20% de participação).
Ao longo de 2025, a posição foi sendo ampliada. Em maio, o fundo já havia aportado R$ 352 milhões; em setembro, o montante chegou a R$ 481,5 milhões, equivalentes a 26,8 milhões de ações. Atualmente, o veículo de investimento da Ebrasil detém 31,9 milhões de papéis, que lhe dá os 6,9% atuais. Essa fração coloca o Yellowstone como terceiro maior acionista individual da companhia, ao lado da Jive.
Dados mais recentes do fundo na CVM mostram que 70% do patrimônio do Yellowstone está investido hoje em ações da petroleira.
Mudanças
O avanço da posição veio acompanhado de movimentos mais assertivos na governança. Em maio de 2025, a Yellowstone protocolou pedido para que a Brava convocasse uma assembleia com o objetivo de retirar a cláusula de poison pill do estatuto.
A regra obrigava qualquer acionista que ultrapassasse 25% do capital a lançar uma oferta pública de aquisição (OPA) por 100% das ações da companhia, com prêmio de 25% sobre o valor de tela. À época, a Yellowstone detinha pouco mais de 5% do capital da Brava. Em julho, a assembleia de acionistas aprovou a retirada da cláusula.
Já era uma amostra de que o grupo de Cantarelli pretendia aumentar sua participação na empresa. A partir dali, iniciou-se uma reorganização mais explícita da governança, com a articulação de um acordo de acionistas liderado pelo fundo da Ebrasil, pela Jive e a família Queiroz Galvão.
Na prática, o grupo passou a exercer influência determinante sobre as principais decisões estratégicas da empresa. Pouco depois, Kovacs assumiu a presidência do conselho de administração e, agora, chega à cadeira de CEO.
Nova agenda
Sob a nova gestão, a expectativa é que a Brava avance em uma agenda mais pragmática de alocação de capital. Internamente, a companhia avalia a venda de ativos considerados não estratégicos — como a operação de gás natural — e estuda aquisições com foco em geração de caixa mais imediata.
Foi nesse contexto que a Brava viu a oportunidade para efetuar a compra, na sexta (10), de uma participação de 50% no campo de Tartaruga Verde e no Módulo III do campo de Espadarte, ambos na Bacia de Campos. O negócio aguarda aprovação do Cade e da ANP. De qualquer forma, a fatia pertence à Petronas, que é a Petrobras da Malásia – os demais 50% dos campos continuam com a Petrobras daqui mesmo.
A Prio e a BW Energy também analisaram a investida no ativo, segundo a Bloomberg. A Petrobras, como sócia na operação, poderia exercer seu direito de preferência para cobrir a proposta.
A unidade conta com 14 poços produtores — 11 em Tartaruga Verde e três no Módulo III de Espadarte. Em 2025, a produção média do complexo todo foi de cerca de 55,6 mil barris de óleo equivalente por dia (boed, ou seja, contando os volumes de óleo e de gás). O grosso ali é petróleo mesmo, com parcela residual de gás natural escoada pelo gasoduto de Enchova até um terminal em Macaé (RJ).
A Brava produz 92 mil boed, atrás apenas da Prio entre as junior oils, que registra 155 mil barris diários de óleo equivalente, e bem à frente da PetroReconcavo, com 27 mil.
Com a compra de 50% do complexo de extração, a Brava adiciona uma PetroReconcavo inteira à sua produção – que vai saltar para perto de 120 mil boed.
E não é só volume, nesse caso. É qualidade também. A produção da Brava concentra-se hoje em óleo pesado, mais difícil de refinar – e, por isso, mais barato no mercado internacional. Já o óleo de Tartaruga Verde e Espadarte é de grau API médio (27º), mais valorizado.
Redução da alavancagem
Embora o acordo com a Petronas pelo ativo envolva o pagamento de US$ 450 milhões, a petroleira entende que o deal irá ajudá-la no processo de desalavancagem da companhia. É que o potencial de geração de caixa do ativo seria maior, na visão de pessoas ligadas à Brava, do que o valor empregado na negociação. “O foco dessa aquisição é desalavancar a companhia no dia do closing. O ativo já está gerando caixa e já está produzindo”, disse uma fonte com trânsito na empresa.
Para este ano, o objetivo central é reduzir o endividamento. No terceiro trimestre de 2025, a petroleira reportou dívida líquida de US$ 1,7 bilhão (R$ 7,4 bilhões), com alavancagem de 2,3 vezes dívida líquida pelo lucro operacional (Ebitda). A ideia é reduzir a alavancagem para algo em torno de 1,5 vez este ano.
Em paralelo, a Brava promoveu uma reorganização interna em outubro, com simplificação da estrutura executiva e eliminação de posições duplicadas, sobretudo em nível gerencial – ainda uma das etapas de integração entre 3R Petroleum e Enauta.
Debate estratégico
Pessoas que acompanham a Brava afirmam que o diferencial trazido pela Ebrasil não se limita à governança, mas também à forma de enxergar o negócio. Fundado por José Cantarelli em 2001, em meio à crise de escassez de energia durante o governo Fernando Henrique Cardoso (1995-2002), o grupo atua em setores intensivos em capital e regulação.
Na área de energia, controla três usinas termelétricas no Nordeste: a Epasa, na Paraíba, com 342 megawatts (MW) de capacidade instalada; a Epesa, em Pernambuco, com 356 MW; e uma participação minoritária na TermoCabo, em Cabo de Santo Agostinho (PE), com 48 MW.
O grupo também possui investimentos em rodovias e saneamento, além de participação indireta na Ocyan — antiga Odebrecht Óleo e Gás —, responsável pela operação do navio-sonda de Papa-Terra, um dos principais projetos da Brava no offshore.
Embora a Ebrasil negue qualquer intenção de integração operacional direta entre suas termelétricas e a Brava — como contratos de fornecimento de gás —, fontes do setor avaliam que a simples presença de um acionista com esse perfil lá dentro já altera o debate estratégico dentro da companhia.
Procuradas pelo InvestNews, Brava e Ebrasil não comentaram.
Colaborou Rikardy Tooge
