A fabricante brasileira assinou um acordo inicial com o grupo indiano Adani para montar por lá seus jatos — um passo que reforça a ambição de ganhar escala em um mercado que já figura entre os maiores do mundo em aviação civil e que pode dar ainda mais musculatura ao negócio de aviação comercial.
Os números de 2025 ainda não foram divulgados, mas a estimativa da companhia era de entregar de 77 a 85 aeronaves no ano. Um número que já mostrava ganhos sobre os 73 entregues em 2024. O anúncio de agora tem potencial para elevar essa faixa consideravelmente.
Internamente, a Embraer já tratava 200 aeronaves como a escala mínima para justificar uma linha de montagem de aviões comerciais na Índia. A empresa projeta uma demanda de 500 aviões ao todo para os próximos 20 anos no país, sendo que cerca de 300 unidades deverão ser requisitadas já na próxima década.
Agora, também vai exibir as aeronaves comerciais E195-E2 e E175 na Wings India 2026, em Hyderabad, a partir de 28 de janeiro. Também já tem mantido, desde a reunião da Iata, conversas com companhias indianas. Atualmente, o mercado local é liderado pela Air India e pela IndiGo.
O sócio indiano
O grupo Adani é um dos maiores conglomerados privados da Índia e concentra negócios de infraestrutura e energia — áreas que funcionam como “espinha dorsal” da economia.
Controlado pelo bilionário Gautam Adani, o grupo reúne empresas que operam desde portos e logística (um de seus pilares), transmissão e geração de energia — incluindo renováveis — até aeroportos e cimento, com presença crescente também em frentes de infraestrutura digital.
O desenho e o palco da cerimônia ajudam a dimensionar o recado. O convite do evento — realizado no Ministério da Aviação Civil, em Nova Déli — descreveu o acordo como um marco na jornada do “Make in India”, a política industrial que busca atrair produção, cadeia de fornecedores e empregos para dentro do país.
A Índia vem se apresentando ao setor global como um canteiro de obras da aviação. Em junho de 2025, quando o país sediou a assembleia anual da Associação Internacional de Transporte Aéreo (Iata), o primeiro-ministro Narendra Modi usou o encontro para reforçar a aposta em infraestrutura e conectividade.
O plano do governo é inaugurar 50 aeroportos até 2030 e acelerar a aviação regional com o UDAN, programa federal lançado em 2016 para estimular voos entre cidades pequenas e médias — um movimento que entrou no radar da Embraer.
A Embraer inaugurou em outubro um escritório no país e vinha reforçando a a tese de que sua presença na Índia ainda é pequena diante do tamanho do mercado. Em entrevista concecida no país, em junho de 2025, o CEO Francisco Gomes Neto resumiu essa assimetria:
“Nós temos 50 aeronaves aqui, mas é muito pouco, né? Nós temos 4 mil voando no mundo inteiro, 50 num país desse tamanho”, afirmou. Dessas 50, apenas 11 são aeronaves comerciais (ERJ145 e E175), operadas na Star Air.
A ambição da fabricante brasileira passa por defesa e jatos executivos, mas sobretudo pela aviação comercial regional, um espaço que a companhia considera subatendido. A leitura da Embraer é de que a Índia está entrando numa fase em que a aviação regional vira prioridade tanto por necessidade econômica quanto por política pública.
É nessa ponte entre infraestrutura, incentivos e desenho de frota que a empresa tenta encaixar seus jatos. Na prática, a tese é que existe um degrau mal resolvido entre os turboprops — mais lentos e com alcance menor — e os narrowbodies de 180 a 200 lugares que dominam as compras das grandes companhias.
O E175, com capacidade para cerca de 80 passageiros, atende à demanda das companhias aéreas que operam voos para cidades menores. Já o E2, modelo de nova geração, oferece maior eficiência e conforto para rotas regionais e maiores.
“Tem cidade pequena que não enche um avião desse. Há também lugares em que a demanda é por mais voos por dia”, disse Francisco, aproximando a lógica do que se vê no Brasil, onde rotas regionais costumam depender de aeronaves menores e mais eficientes. O alcance dos turboprops é de cerca de 500 km, enquanto os jatos da Embraer, como o E2, conseguem voar até 6.000 km, reduzindo significativamente o tempo de viagem: de duas horas ou mais para cerca de uma hora e meia de voo.
Entre analistas, o potencial do mercado endereçável é visto como uma nova alavanca para um papel que já negocia em bons múltiplos e que tem acumulado alta. Nos últimos cinco anos, a ação acumula alta de 1064%.
Desde abril de 2019, é comandada por Gomes, que, por três anos, foi CEO da Marcopolo. Pouco depois de chegar, Gomes teve de lidar com a desistência da Boeing na compra da unidade comercial e enfrentar uma das piores crises da fabricante brasileira.
E mais com a Defesa…
Em fevereiro de 2024, a Embraer já havia assinado um memorando de entendimentos com a Mahindra Defence Systems para potencial atuação em programas de defesa do governo.
A defesa é, atualmente, o segmento em que a Embraer está mais “bem posicionada” não só para venda, mas também pela parceria com a Mahindra.
A companhia projeta que a demanda por aeronaves do porte do KC-390 em todo o mundo é de 500 unidades nos próximos anos. Dessas, 23% devem ser justamente para a região da Ásia Pacífico. A Embraer compete para vende de 40 a 80 aeronaves de defesa na Índia, além de estar de olho na Arábia Saudita, que vai aposentar 60 aeronaves de defesa em breve.
