Entenda como o PCC lavou bilhões com combustíveis e fintechs

Operação revela envolvimento do PCC, uso de mais de mil postos de combustível e também fintechs para lavagem de dinheiro

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A Polícia Federal deflagrou uma grande operação contra o crime organizado que atua na cadeia de combustíveis e no setor de fintechs no Brasil, revelando transações ilícitas de pelo menos R$ 52 bilhões.

As investigações — batizadas de Quasar, Tanque e Carbono Oculto — têm como objetivo desmantelar esquemas sofisticados de lavagem de dinheiro ligados a organizações criminosas, segundo nota da PF divulgada nesta quinta-feira. Integrantes do Primeiro Comando da Capital (PCC) estão entre os investigados, de acordo com o Ministério Público de São Paulo, que também participou da operação.

A Operação Tanque

Foram cumpridos 14 mandados de prisão e 42 de busca e apreensão nos estados do Paraná, São Paulo e Rio de Janeiro. A rede criminosa atua desde 2019 e movimentou mais de R$ 23 bilhões por meio de centenas de empresas — de postos de combustíveis a distribuidoras, holdings, financeiras de cobrança e até instituições de pagamento autorizadas pelo Banco Central.

Segundo os investigadores, pelo menos R$ 600 milhões foram efetivamente lavados nesse período.

Na manhã desta quinta-feira (28), dezenas de viaturas ocuparam a Avenida Faria Lima, em São Paulo, considerada a “Wall Street brasileira”. Cerca de 1,4 mil agentes têm como alvo 350 pessoas e empresas citadas na investigação. Entre os crimes apurados estão fraudes econômicas, adulteração de combustíveis, crimes ambientais, lavagem de dinheiro e sonegação fiscal.

Em um dos casos, foi descoberto um esquema de importação de metanol pelo porto de Paranaguá (PR), que deveria seguir para destinatários registrados, mas era desviado clandestinamente para postos e distribuidoras.

O tamanho do esquema

Segundo a Receita Federal, o crime organizado movimentou pelo menos R$ 52 bilhões em operações ilícitas que cruzavam o setor de combustíveis e fintechs. O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, afirmou que o crime está cada vez mais sofisticado e que o Estado precisa se modernizar para combatê-lo.

A investigação também revelou que mais de mil postos e quatro refinarias foram infiltrados por criminosos. Em pelo menos 300 casos, os proprietários foram forçados a entregar seus negócios a grupos criminosos sem receber pagamento, sob ameaça de morte.

Na esteira da operação, as ações de distribuidoras de combustíveis dispararam na Bolsa. A Raízen, que opera a marca Shell no Brasil, subiu até 8,5%; a Vibra Energia, 4%; e a Ultrapar, 5,5%. O setor foi um dos destaques positivos do Ibovespa no dia.

O papel das fintechs

Segundo os procuradores, os criminosos usavam fintechs controladas por eles para movimentar os recursos. Essas empresas mantinham sistemas paralelos de contabilidade, permitindo transferências entre empresas e pessoas físicas sem identificar os beneficiários finais.

Uma das instituições teria movimentado mais de R$ 46 bilhões entre 2020 e 2024, recebendo inclusive depósitos em dinheiro vivo. A Receita aplicou multas superiores a R$ 8 bilhões e afirmou que novas autuações estão a caminho.

Para dificultar o rastreamento, o esquema usava contas de fintechs em bancos comerciais e ocultava lucros e recursos em fundos de investimento. De acordo com as autoridades, o grupo criminoso controla ao menos 40 fundos, com ativos de R$ 30 bilhões, incluindo participações em terminal portuário e quatro usinas de etanol.

Até 2024, fintechs e instituições de pagamento não eram obrigadas a declarar operações de clientes à Receita. Reformas que aumentariam a transparência foram revogadas no início deste ano após divulgação de informações falsas, segundo a própria Receita.

Empresas na mira

As financeiras Reag Investimentos e Cia Brasileira de Serviços Financeiros confirmaram que foram alvo de mandados de busca e apreensão. Ambas afirmaram colaborar com as autoridades.

Fundos geridos por Banco Genial e Trustee DTVM também estão sob investigação. O Genial declarou que não recebeu notificação oficial, defendeu sua reputação e repudiou “insinuações infundadas”. A Trustee não comentou.

Já a Operação Quasar cumpriu 12 mandados em São Paulo, Campinas e Ribeirão Preto, focando em lavagem de dinheiro e gestão fraudulenta de instituições financeiras, com indícios de ligação direta com facções criminosas.

Vista aérea do cruzamento das avenidas Faria Lima e Rebouças, no bairro da Vila Olimpia, São Paulo. Foto: Adobe Stock Photo

Repercussões políticas e empresariais

A operação foi celebrada por grandes distribuidoras, que há anos denunciam prejuízos causados pela criminalidade. O Instituto Combustível Legal, apoiado por Petrobras, Shell e Vibra, destacou que o crime organizado impacta não só a segurança e a lavagem de dinheiro, mas também a arrecadação de impostos e a concorrência justa no setor.

Segundo a associação de revendedores, cerca de 11% dos 45 mil postos de combustíveis do Brasil estariam comprometidos pelo crime organizado.

O ministro da Justiça, Ricardo Lewandowski, disse que outras áreas da economia também podem ser alvo de operações semelhantes. Já a ministra Gleisi Hoffmann, em rede social, destacou a importância da atuação conjunta entre órgãos do governo, alinhada à estratégia do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Lula chamou a operação de “a maior resposta da história do governo brasileiro ao crime organizado”.

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas — cotado como possível candidato à Presidência em 2026 — também exaltou a ação, classificando-a como um “dia histórico no combate ao crime organizado”.

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