“Levou meses”, disse ao reconstituir a experiência que teve com a área de private banking de um grande banco. Mas o processo extenuante serviu como um lembrete do motivo pelo qual ela foi para os EUA.
“Nós sabemos como resolver esse tipo de problema”, afirmou, em entrevista.
A frustração com o sistema bancário tradicional no Brasil levou Junqueira a ajudar a fundar o Nubank, junto com David Vélez, em 2013. A companhia rapidamente se tornou a fintech mais valiosa da América Latina, com um valor de mercado próximo a US$ 73 bilhões, ao conceder crédito para clientes de diferentes faixas de renda. A próxima missão é fazer barulho na maior economia do mundo sem abrir nenhuma agência.
O Nubank obteve licença condicional para oferecer serviços bancários nos EUA no final de janeiro, em um primeiro passo para adquirir uma licença bancária. À época, a empresa esperava começar a operar em 18 meses.
Com mais de 130 milhões de clientes juntando Brasil, México e Colômbia, o Nubank vai começar do zero nos EUA, um mercado competitivo em que os consumidores têm milhares de bancos à disposição.
“Nada”, disse Junqueira, “será mais difícil do construir uma marca nos EUA”.
Ajuda o fato de que ela é uma espécie de celebridade. Junqueira, que tem 43 anos, mantém mais de 800.000 seguidores no Instagram atualizados sobre seus negócios, a vida familiar e a experiência de mudar-se para uma nova casa no sul da Flórida vindo de São Paulo, para encabeçar o projeto americano do Nubank.
“É por isso que eu estou aqui”, disse Junqueira. “Porque eu fui a principal pessoa na construção da marca no Brasil, ao longo dos anos, para o que ela é hoje.”
A marca atende mais de 60% da população adulta do Brasil e possui mais de US$ 40 bilhões em depósitos. Junqueira se tornou bilionária após a oferta pública inicial (IPO) do Nubank nos EUA, que levantou US$ 2,6 bilhões em 2021.
A fatia da empresária na companhia vale cerca de US$ 1,9 bilhão, e as ações sobem mais de 60% desde a estreia, comparadas a um ganho de 22% no KBW Bank Index, que acompanha bancos americanos de grande porte.
Base latina
Miami é uma base natural para a operação do Nubank nos EUA. É o epicentro de um condado majoritariamente latino, e o nome da fintech tem peso junto a milhões de americanos que têm ligações com a América Latina.
Ainda assim, o Nubank jogou alto para se fazer notar. O nome da fintech aparece no estádio de futebol em que o Inter Miami, que entre outros é o clube de Lionel Messi, manda seus jogos. Junqueira e Vélez fizeram uma aparição na partida inaugural no começo do mês.
A empresa também firmou acordo com uma equipe de Fórmula 1 ligada à Mercedes-Benz, pegando carona em um esporte cuja popularidade explodiu desde a estreia de uma série documental na Netflix em 2019.
Outra forma de chegar a novos clientes é conectar os americanos aos principais mercados do Nubank. A presença nos EUA pode se tornar um impulso para imigrantes que enviam dinheiro para seus países de origem com frequência.
“Posso ver um mundo em que, graças à capacidade de fazer transferências entre contas dos EUA para a América Latina, o Nubank ofereça remessas gratuitas para conquistar clientes”, disse Zachary Gunn, analista da Financial Technology Partners. “Isso não tem sido possível historicamente porque há diferentes redes nas pontas.”
Analistas do Citi dizem que o Nubank — que provavelmente focará em cartões de crédito e em crédito pessoal nos EUA que poderia chegar a cerca de US$ 21 bilhões em carteira de crédito até 2030 se atingir 2% de participação de mercado na Califórnia, no Texas e na Flórida, três estados com grande população hispânica. O montante equivale a cerca de 60% de sua carteira de crédito no Brasil, e é comparável aos bancos médios regionais dos EUA.
O Citi também projeta um retorno sobre o patrimônio de 20% para o Nubank nos EUA, acima da média de 12% para os bancos do país.
“A nossa visão é de que o Nubank pode ter desempenho acima da média dos EUA graças ao baixo custo de servir”, o analista Gustavo Schroden escreveu em relatório publicado em março.
Ainda que seja lógico cortejar americanos com ligações com países latinoamericanos, o Nubank tem ambições maiores. A empresa recentemente contratou uma executiva do TikTok para ajudar a capturar a atenção de pessoas que talvez não conheçam a fintech. Além disso, abriu postos em Washington e Palo Alto, na Califórnia, região próxima de muitas das elites do Vale do Silício.
“Estamos construindo a operação para os americanos”, disse Junqueira. “As primeiras pessoas que vão nos reconhecer serão brasileiros, mexicanos”, adicionou, “mas vamos construir para essa geração afluente mais jovem que está surgindo nos EUA”.
