As companhias vêm discutindo uma possível combinação de parte ou da totalidade de seus negócios, incluindo uma aquisição integral por meio de troca de ações, segundo comunicados separados divulgados na quinta-feira (8). A notícia animou os investidores: as ações da Glencore dispararam cerca de 10% em Londres, enquanto os papéis da Rio Tinto recuaram 2,2%, após já terem caído 6,3% no pregão australiano.
O impacto se espalhou pelos mercados europeus. As bolsas da região operam em leve alta nesta sexta-feira, com o índice STOXX 600 avançando cerca de 0,39%, aos 606,19 pontos, impulsionado principalmente pelo salto da Glencore. Já a queda de cerca de 2% da Rio Tinto reflete a cautela dos investidores diante das negociações ainda preliminares. Mesmo em meio a balanços corporativos fracos e a novas tensões geopolíticas, o desempenho coloca o STOXX 600 no caminho de sua maior sequência de ganhos semanais desde maio. Entre os principais mercados, Londres sobe cerca de 0,36%, Paris avança 0,51% e Frankfurt registra alta moderada de 0,07%.
Maior negócio do setor de mineração
Uma união entre as duas empresas representaria o maior negócio já realizado no setor, que vem sendo tomado por uma onda de fusões e aquisições à medida que os maiores produtores buscam ampliar sua exposição ao cobre — um metal crucial para a transição energética e que está sendo negociado perto de máximas históricas. Glencore e Rio possuem grandes ativos de cobre, e a potencial transação criaria um novo gigante da mineração para rivalizar com o BHP Group, que há muito tempo detém o título de maior mineradora do mundo.
Analistas já haviam levantado questionamentos sobre possíveis obstáculos ao negócio. A Glencore é uma das maiores produtoras de carvão do mundo — um segmento do qual a Rio já saiu — e as duas empresas têm culturas corporativas bastante diferentes.
No entanto, pessoas familiarizadas com o assunto disseram na sexta-feira que a Rio está aberta a manter o negócio de carvão da Glencore caso as negociações tenham sucesso. A estrutura e o escopo de qualquer acordo ainda estão sendo discutidos, mas um dos principais cenários em análise é a aquisição de toda a Glencore, incluindo o negócio de carvão, segundo essas fontes, que pediram anonimato por se tratar de informações privadas. Nenhuma decisão final foi tomada, e a Rio também poderia optar por se desfazer do carvão em um momento posterior, caso o acordo avance.
A Rio Tinto tem uma capitalização de mercado de cerca de US$ 137 bilhões, enquanto a Glencore é avaliada em US$ 71 bilhões.
As duas empresas mantiveram discussões em 2024, mas as negociações foram abandonadas depois que não conseguiram chegar a um acordo sobre a avaliação. Desde então, a Rio trocou seu CEO, enquanto a Glencore passou a destacar publicamente suas perspectivas de crescimento no cobre. Em conversas privadas, o CEO da Glencore, Gary Nagle, descreveu uma união entre Rio e Glencore como o negócio mais óbvio do setor. Ainda assim, a diferença entre as avaliações das duas empresas havia aumentado desde as discussões anteriores.
Cobre em evidência
As negociações ocorrem em um momento em que o cobre nunca esteve tão em evidência. O metal subiu para máximas recordes acima de US$ 13 mil por tonelada no início desta semana, impulsionado por uma série de paralisações em minas e por movimentos para estocar o metal nos Estados Unidos antes de possíveis tarifas de uma administração Trump. Executivos do setor de mineração vêm alertando há anos que a oferta futura do metal será limitada, já que a demanda deve crescer fortemente enquanto a indústria enfrenta uma escassez de novas minas.
Isso reforçou o foco já existente entre executivos e investidores de que a oferta futura de cobre será apertada.
Uma união entre Rio e Glencore criaria a maior mineradora do mundo. As empresas têm valor de mercado combinado superior a US$ 200 bilhões.
Para a Rio, um acordo com a Glencore ampliaria significativamente sua produção de cobre e daria à empresa uma participação na mina Collahuasi, no Chile — uma das jazidas mais ricas do mundo e que a companhia cobiça há muito tempo. Embora a Rio já possua grandes ativos de cobre, ela e a rival maior, a BHP, ainda obtêm uma parcela substancial de seus lucros do minério de ferro, um mercado que enfrenta um futuro de demanda incerto à medida que o boom de construção de décadas da China se aproxima do fim.
“Faz muito sentido”, disse Ben Cleary, gestor de portfólio da Tribeca Investment Partners. “É o grande negócio de mineração que existe no momento.”
O novo CEO da Rio, Simon Trott, tem se concentrado até agora em cortar custos e simplificar os negócios, e a empresa prometeu se desfazer de algumas de suas unidades menores. O chairman Dominic Barton sinalizou que a Rio deixou para trás uma série de negócios desastrosos do passado, afirmando que a companhia será mais aberta quando se tratar de aquisições.
“Este é o primeiro teste de Simon como CEO, e eu esperaria que sua abordagem disciplinada fosse aplicada também às fusões e aquisições”, disse John Ayoub, gestor de portfólio da Wilson Asset Management, acionista da Rio.
As novas conversas ocorrem em meio a uma onda mais ampla de negociações no setor, mais recentemente com o acordo da Anglo American Plc para comprar a Teck Resources Ltd., após a Anglo ter conseguido barrar uma tentativa de aquisição pela BHP. O chairman da Rio, Dominic Barton, reiterou que a mineradora superou uma série de negócios malsucedidos do passado e será mais aberta a aquisições.
A própria Glencore foi uma das compradoras mais agressivas do setor no passado, incluindo uma proposta ousada para se combinar com a Rio em 2014, liderada pelo ex-CEO Ivan Glasenberg, que ainda detém cerca de 10% da empresa.
Mais recentemente, a Glencore tem enfrentado pressão crescente de investidores após suas ações terem ficado para trás no ano passado, afetadas por preços fracos do carvão e por questionamentos sobre sua estratégia. A empresa colocou suas minas de cobre no centro do negócio, e o CEO Nagle apresentou no mês passado planos para quase dobrar a produção de cobre ao longo da próxima década.
Embora os ativos de cobre da Glencore sejam provavelmente a principal atração, a empresa também é a maior transportadora de carvão do mundo. Além disso, minera metais como níquel e zinco e possui um gigantesco negócio de trading.
De acordo com as regras britânicas de aquisições, a Rio tem até 5 de fevereiro para confirmar se fará uma oferta ou se se afastará das negocões por seis meses.
O Financial Times foi o primeiro a noticiar as conversas.
