Segundo o CEO Gustavo Werneck, a companhia enfrenta no país um cenário comparável ao das crises mais agudas de sua história recente. No quarto trimestre, a margem operacional da operação brasileira foi a segunda pior em mais de 20 anos, atrás apenas do fim de 2015. “Estamos debaixo da linha d’água na maioria das operações”, disse Werneck durante a coletiva sobre os resultados quarto trimestre.
No último quarto do ano, o resultado operacional (Ebitda) no Brasil caiu para R$ 509 milhões, contra R$ 1,4 bilhão um ano antes, enquanto a margem recuou de 18,5% para apenas 7,1%. “Este é o segundo pior trimestre da operação da Gerdau no Brasil desde que me entendo por gente aqui na companhia”, reforça o CFO Rafael Japur, que está na empresa há mais de 20 anos.
Os executivos da Gerdau afirmam que o problema não está na atividade econômica, mas na competição com o aço importado.“A demanda de aço segue sólida. A questão é essa penetração muito intensa de aço importado, especialmente da China”, criticou Werneck.
Werneck lembrou ainda que a participação do aço importado no mercado brasileiro saltou de cerca de 10% a 11% historicamente para aproximadamente 25%, um patamar considerado incompatível com a rentabilidade da indústria local.
Ociosidade
O impacto já aparece diretamente na operação. A utilização de capacidade no Brasil está em torno de 58% na laminação e 73% na produção de aço, níveis bem abaixo do intervalo considerado saudável pela companhia, normalmente entre 80% e 85%.
A ociosidade levou a Gerdau a reconhecer baixas contábeis (“impairment”) de cerca de R$ 2 bilhões em ativos ligados à operação brasileira, incluindo plantas paradas ou com baixa utilização.
Segundo Werneck, a decisão reflete a deterioração das perspectivas de rentabilidade no país. “Esse imobilizado que eu tinha no meu balanço provavelmente não vale tanto quanto eu imaginei”, afirmou o executivo, ao explicar o impairment.
O CEO acrescentou que a baixa contábil também reflete “a falta de perspectiva futura de rentabilidade” de parte dos ativos.Sem efeito caixa, o ajuste indica que parte da capacidade instalada pode levar tempo para voltar a níveis normais de utilização.
Operação nos EUA
Enquanto o Brasil perde rentabilidade e força baixas contábeis, a operação norte-americana vem assumindo um peso cada vez maior nos resultados da Gerdau. A companhia mantém na região uma ampla base industrial, com 13 usinas de aço – dez nos Estados Unidos e três no Canadá – além de centros de reciclagem, unidades de processamento e escritórios comerciais espalhados por diversos estados.
“Aqui foi pior do que a gente imaginava que seria. E lá na América do Norte está melhor do que a gente imaginava”, afirmou Werneck.
No quarto trimestre, a América do Norte respondeu por 73% do Ebitda consolidado, reforçando a dependência crescente da siderúrgica em relação à região. Segundo a companhia, o resultado operacional na América do Norte aumentou cerca de R$ 1 bilhão em 2025, enquanto a operação brasileira registrou queda de aproximadamente R$ 1,5 bilhão.
O executivo destacou que a demanda no mercado americano segue aquecida e a carteira de pedidos permanece elevada. No quarto trimestre, o backlog – indicador que mede o volume de pedidos já contratados e ainda não entregues – chegou a cerca de 85 dias de produção, acima da média histórica de cerca de 70 dias, um sinal de demanda aquecida e maior previsibilidade de produção.
Investimentos
O avanço das importações também passou a influenciar diretamente os planos de investimento da companhia no Brasil. Segundo Werneck, novos aportes dependerão da efetividade das medidas de defesa comercial em discussão. “Se as medidas não forem suficientes, não se justifica a gente avaliar voltar a investir um pouco mais aqui no Brasil”, avaliou.
Para 2026, a companhia prevê investimentos globais de R$ 4,7 bilhões, abaixo dos R$ 6,1 bilhões aplicados em 2025, quando cerca de 77% do capex foi direcionado às operações brasileiras. O plano para este ano não detalha a distribuição regional dos recursos.
Segundo o executivo, um ambiente de competição mais equilibrado poderia destravar novos projetos no país, mas a companhia ainda aguarda os efeitos das investigações antidumping em curso – processos que podem levar à aplicação de tarifas adicionais sobre importações vendidas a preços considerados artificialmente baixos.
A expectativa é que decisões definitivas sobre essas medidas sejam tomadas a partir do meio do ano, com impacto mais relevante esperado apenas a partir de 2027.
