A tendência de Musk a apostar em planos futuristas levou analistas a enxergar a Tesla mais como uma empresa de robótica do que como uma montadora, além de abrir caminho para a SpaceX buscar uma avaliação de US$ 2 trilhões quando abrir capital nas próximas semanas. Céticos apontam para valuations estratosféricos, mas, depois de o mercado apostar nas ambições da Tesla com dinheiro real, muitos já decidiram que o maior risco no IPO da SpaceX é ficar de fora.
Aswath Damodaran, professor de finanças da Universidade de Nova York conhecido pelo olhar analítico afiado, não está convencido da avaliação pretendida. Embora diga que não compraria ações da SpaceX a US$ 2 trilhões, preferindo algo próximo de US$ 1 trilhão, ele acredita que a empresa ainda tem enorme potencial de valorização.
“A opcionalidade é mais rica na SpaceX do que na Tesla neste momento”, disse ele em entrevista. “Hoje a SpaceX está tão à frente da concorrência que está em melhor posição do que a Tesla para entregar essa opcionalidade.”
O prêmio de valuation que analistas atribuem aos negócios mais especulativos da Tesla se baseia no histórico de transformação de Musk, em resumo, ele fez muita gente ganhar dinheiro. Para a SpaceX justificar uma avaliação superior a US$ 2 trilhões, como a Bloomberg News informou que a empresa busca, qualquer modelo precisará incorporar esse “prêmio Musk”.
Damodaran destacou o sucesso da Tesla e da SpaceX até aqui: “É preciso reconhecer o mérito dele, porque criou duas empresas que são verdadeiras maravilhas tecnológicas.”
O potencial da Tesla
Há anos a Tesla negocia com um valuation muito acima até mesmo das empresas mais caras do grupo das “ Sete Magníficas”, com um múltiplo preço/lucro projetado mais de cinco vezes superior ao atribuído à Apple.
Nenhum analista de Wall Street dá muito crédito de longo prazo ao negócio de automóveis da Tesla. Poucos se importam que a companhia planeje gastar mais de US$ 25 bilhões neste ano. Para enxergar potencial adicional sobre o valor de mercado atual de US$ 1,59 trilhão, analistas focam em inteligência artificial, carros autônomos e no projeto de robôs humanoides Optimus, desenvolvido há mais de quatro anos.
Mais de duas dezenas de analistas com recomendação de compra valorizam projetos ainda atrasados, como o Cybercab e o Optimus, mais do que o crescimento modesto das vendas de carros.
Os otimistas da Tesla apostam que a montadora conseguirá lançar robotáxis em escala nacional e robôs humanoides. Uma análise de relatórios de analistas mostra que Optimus e robotáxis respondem por mais da metade das projeções de valor somadas. E a maioria está disposta a olhar décadas à frente para que essas ofertas gerem lucro.
Por exemplo, o analista Alexander Potter, da Piper Sandler, classificou as vendas de veículos como uma “fonte menor de receita no longo prazo” em relatório de 10 de maio sobre o futuro da Tesla e sua visão de que “a Tesla não é uma empresa de carros”. Segundo ele, as vendas de veículos devem atingir o pico em cerca de cinco anos, enquanto corridas de robotáxi, licenças de direção autônoma, assinaturas e seguros responderiam pela maior parte das receitas nas décadas seguintes.
Os céticos também têm voz forte. Joseph Spak, analista do UBS, alertou clientes sobre o alto custo de construir infraestrutura física para IA, afirmando que os US$ 25 bilhões de investimentos previstos para este ano são apenas o começo. Ele também considerou os comentários de Musk na teleconferência de resultados de abril “mais moderados” sobre o ritmo de desenvolvimento do Robotaxi e do Optimus.
As ambições da SpaceX são ainda mais difíceis de avaliar. Além dos negócios centrais, como contratos com o governo dos EUA para lançamentos de foguetes e a internet via satélite da Starlink, boa parte de um valuation de US$ 2 trilhões provavelmente dependeria dos planos declarados de Musk de colocar data centers no espaço, construir uma base na Lua e eventualmente uma colônia em Marte. O mercado potencial teórico é infinito, ao menos para os entusiastas.
O fato de as ações da Tesla terem subido quase 3.000% na última década e enriquecido investidores muito além do imaginado dá ao discurso da SpaceX algo mais tangível, o medo de ficar de fora.
“Muitos analistas já decidiram previamente que vão comprar SpaceX porque acreditam que não podem se dar ao luxo de ficar fora”, disse Damodaran. “O FOMO é forte porque eles viram o que acontece quando perdem uma oportunidade.”
A Ark Investment Management, investidora da SpaceX e acionista de longa data da Tesla, argumentou que uma avaliação de US$ 1,75 trilhão é “baseada em uma trajetória plausível” para os principais negócios da empresa de foguetes e IA.
“As metas de Musk são ambiciosas por qualquer padrão histórico, e a SpaceX demonstrou repetidamente capacidade de acelerar cronogramas que os céticos consideravam impossíveis”, escreveu a gestora em 20 de abril. “Não é garantia, mas acreditamos que esse histórico é um dado relevante.”
Céticos x Musk
A capacidade de Musk de provar que críticos estavam errados, ou ao menos convencer investidores de longo prazo a embarcar em sua visão, não convence todos os detratores, que enxergam projeções difíceis de sustentar.
Para Michael O’Rourke, estrategista-chefe de mercado da Jonestrading Institutional Services, com mais de 30 anos de experiência em Wall Street, o discurso é difícil de justificar.
“Estamos falando de 100 vezes a receita”, disse ele sobre a avaliação buscada pela SpaceX, considerando relatos de que a empresa gerou cerca de US$ 20 bilhões em vendas no ano passado.
Mesmo que data centers no espaço se tornem realidade, investidores ainda têm poucas indicações de que eles serão mais eficientes em custo do que instalações na Terra.
“Você está pagando por um sucesso que ainda não foi conquistado. É uma situação cercada de hype e, seja entusiasmo de investidores de varejo ou não, isso não se relaciona com investir em uma empresa baseada em geração de retorno lucrativo”, afirmou.
Independentemente de fazer sentido ou não atribuir múltiplos tão elevados a negócios em estágio inicial e claramente especulativos, uma questão-chave é se investidores individuais fiéis a Musk participarão em massa do IPO e dos primeiros dias de negociação. A empresa planeja vender até 30% das ações para investidores de varejo, o que, em uma oferta de US$ 75 bilhões, representaria US$ 22,5 bilhões.
Esse valor mais do que dobraria todas as compras líquidas feitas por investidores individuais em ações da Tesla no último ano, segundo dados da Vanda até 14 de maio. Na verdade, seria superior ao total de entradas líquidas em todos os ativos, de ações individuais a ETFs, no último mês, mostram os dados.
Para O’Rourke, da Jonestrading, o IPO da SpaceX pode ser um sinal de que os bons tempos não durarão para sempre.
“São coisas que vemos perto do topo dos mercados e em bolhas”, disse. “Quando olharmos para trás daqui a um ano, acho que isso será visto como um sinal importante.”
