Autoridades ambientais brasileiras anunciaram nesta quinta-feira (28) uma grande operação que apreendeu cerca de 7 mil cabeças de gado ilegais na Amazônia. O governo também aplicou multas a vários pecuaristas e frigoríficos, incluindo a JBS, a maior fornecedora de carne do mundo.
A medida foi anunciada no mesmo dia em que uma análise separada revelou que os hambúrgueres americanos estão financiando cada vez mais a destruição da floresta amazônica. Quase um quarto das exportações de carne bovina do Brasil para os EUA vêm de frigoríficos localizados próximos a áreas onde o desmatamento ilegal é desenfreado, segundo a Earthsight, ONG britânica que investiga os vínculos entre crime ambiental e consumo.
A pecuária é o principal motor do desmatamento na Amazônia, ao lado da abertura de estradas. Entre 1985 e 2023, uma área um pouco maior que a França foi convertida em pasto. Proteger a floresta é um dos pontos centrais das negociações climáticas que ocorrerão ainda este ano no Brasil, mas as novas ações do governo e relatórios deixam claro o tamanho do desafio.
Atualmente, 13 frigoríficos localizados na Amazônia têm aprovação para exportar carne aos EUA. Cinco deles ficam em Rondônia, onde parlamentares aprovaram uma legislação que regularizou centenas de pecuaristas que haviam transformado uma área de conservação em pastagem para mais de 200 mil cabeças de gado.
O relatório afirma que a ampliação da autorização de frigoríficos para exportar aumenta a responsabilidade dos importadores americanos em garantir que suas cadeias de suprimento não estejam contaminadas por desmatamento ou ilegalidades.
Uma das empresas autorizadas a exportar é a JBS, que começou a negociar suas ações na Bolsa de Nova York em junho, apesar da oposição de ambientalistas. Nesta semana, o Ibama multou a companhia em US$ 75 mil, por supostamente comprar 810 cabeças de gado criadas em terras embargadas por desmatamento ilegal.
“Quem desmata sem autorização — e quem financia, cria ou compra gado de áreas embargadas — alimenta um ciclo de ilegalidade que pressiona ainda mais a floresta”, afirmou o Ibama em nota.
Essa é a terceira fase da operação de longo prazo do Ibama para coibir o desmatamento combatendo práticas ilegais na cadeia da carne bovina, batizada de Carne Fria. Um dos maiores desafios é o “lavagem de gado” por meio de fornecedores indiretos: criminosos transferem bois de áreas desmatadas ilegalmente para fazendas legais antes de vendê-los a frigoríficos, dificultando a rastreabilidade.
O Ibama também emitiu dois autos de infração contra a JBS pela compra de 1.209 cabeças que haviam passado por áreas embargadas antes de chegarem a fornecedores diretos e legais.
A primeira fase da Carne Fria ocorreu em 2017; a segunda, no ano passado — ambas com multas à JBS. Em outubro, a empresa já havia recebido uma penalidade de US$ 108 mil.
A companhia não respondeu de imediato ao novo auto de infração.
Desta vez, fiscais monitoraram cerca de 2.100 hectares de terras embargadas no Pará — estado que sediará a COP30 em novembro — onde a vegetação havia sido desmatada ilegalmente e deveria estar em recuperação. Além da JBS, outros cinco frigoríficos foram flagrados comprando gado criado nessas áreas. Ao todo, a operação aplicou mais de US$ 118,5 milhões em multas a empresas e pecuaristas.
Nos primeiros seis meses de 2025, o Brasil exportou cerca de 180 mil toneladas de carne bovina para os EUA — mais que o dobro do registrado no mesmo período do ano passado, segundo dados do governo. Os EUA são o segundo maior comprador de carne bovina brasileira, atrás apenas da China. Mas as tarifas de 50% impostas pelo presidente Donald Trump às exportações brasileiras podem afetar o setor.
Além da JBS, a Earthsight também identificou outras gigantes do setor, como a Marfrig Global Foods e a Minerva, como fornecedoras dos EUA ligadas a desmatamento, grilagem de terras e outros crimes ambientais. A Associação Brasileira de Exportadores de Carne não comentou, alegando falta de tempo.
Em nota enviada à ONG, a JBS afirmou que seus procedimentos de monitoramento da cadeia produtiva vão além das exigências legais e que aplica “uma política rigorosa de tolerância zero” em relação a commodities agrícolas, com fortes medidas contra o desmatamento. A empresa acrescentou que, a partir de janeiro próximo, só comprará gado por meio de uma plataforma que está desenvolvendo, na qual fornecedores diretos deverão registrar e indicar a origem dos animais adquiridos.
A Minerva também respondeu, dizendo que já alcançou “100% de monitoramento de todos os seus fornecedores diretos na região” e que está implementando iniciativas ligadas à rastreabilidade e monitoramento socioambiental.
A Marfrig, por sua vez, criticou a metodologia do relatório por “assumir que a existência de áreas mapeadas com risco de desmatamento nas zonas de fornecimento potenciais implica automaticamente em vínculo direto com fornecedores ou falta de mecanismos de controle por parte da companhia”. Afirmou ainda que, em regiões de alto risco, já atingiu “100% de rastreabilidade de fornecedores indiretos”.