A estratégia da multinacional combina o aumento da procura por televisores em um ano de Copa do Mundo com uma inflexão mais estrutural na chamada linha branca — que inclui geladeiras, máquinas de lavar e outros eletrodomésticos —, marcada pela inauguração de uma fábrica bilionária no Paraná no segundo semestre.
Segundo Rodrigo Fiani, vice-presidente de vendas da LG no Brasil, é justamente nos segmentos de refrigeradores e lavadoras que está a principal fonte de receita da companhia no mundo, mas que ainda não se traduziu em escala no mercado brasileiro. “No Brasil, essa presença ainda é tímida porque praticamente todo o portfólio é importado”, diz.
Brasil na tela
Para as fabricantes de TV, como a LG, há um momento que funciona como espécie de Copa do Mundo: a própria Copa do Mundo. É nesse período que os brasileiros tendem a adiantar a troca de aparelho, m migrando para modelos maiores.
Na avaliação da companhia, porém, o consumidor está mais seletivo. Passou a valorizar características que vão além do tamanho e do preço.
Qualidade de imagem em ambientes iluminados, taxas de atualização mais altas para esportes e games e integração com plataformas de streaming ganharam mais peso na decisão de compra. Segundo Fiani, em um mercado maduro o consumidor não troca mais a TV apenas por necessidade, mas pelo tipo de uso que espera fazer do aparelho.
O mercado brasileiro de televisores é liderado pela Samsung, que construiu ao longo dos anos uma posição dominante tanto em volume quanto em percepção de marca, apoiada em escala e forte presença no varejo.
A LG aparece logo atrás entre os principais players, disputando espaço sobretudo nos segmentos de maior valor agregado. Enquanto isso, fabricantes chinesas como a TCL avançam com força nas categorias intermediárias e aumentam a pressão competitiva sobre preços.
Mas, para a LG, o verdadeiro salto não está apenas no calendário esportivo. A aposta em TVs ajuda a ganhar fôlego no curto prazo, enquanto a virada mais estrutural da operação brasileira começa a ser preparada para a segunda metade do ano.
Fábrica bilionária
Se a Copa ajuda a impulsionar o curto prazo, é na linha branca que a LG aposta suas fichas — mais precisamente R$ 1,5 bilhão em fichas. O valor está sendo investido na construção de uma nova fábrica no Paraná, com inauguração prevista para o segundo semestre, voltada à produção local de refrigeradores e lavadoras.
O projeto marca a primeira tentativa consistente da companhia de ganhar escala em um mercado no qual, até aqui, sua presença era marginal. Hoje, o setor é dominado pela americana Whirlpool, dona das marcas Brastemp e Consul, além da sueca Electrolux. A LG possui 3% de participação em linha branca no país. A meta declarada é chegar a 20% de market share nos próximos anos.
Com 770 mil metros quadrados, a fábrica no Paraná nascerá focada na produção de geladeiras e terá capacidade inicial para fabricar até 500 mil unidades por ano, segundo a empresa. A partir de 2027, o plano prevê a entrada de máquinas de lavar e das lava e seca, ampliando o portfólio local.
A ofensiva começa pelos refrigeradores, com o lançamento de 25 modelos já no primeiro ano de operação, cobrindo do segmento intermediário ao premium. A ideia, segundo Rodrigo Fiani, não é disputar apenas nichos de maior valor agregado, mas massificar a oferta e ganhar escala no varejo. O Brasil vende quase 5 milhões de geladeiras por ano, movimentando mais de R$ 15 bilhões a cada 12 meses, com forte concentração nos produtos de preço intermedário.
Um dos símbolos dessa abordagem é a aposta em geladeiras bivolt — uma característica ainda pouco disseminada no mercado brasileiro. Mais do que um diferencial técnico para o consumidor, o recurso tem impacto direto na cadeia de vendas. “Para o varejista, ter um único produto que funciona em qualquer voltagem simplifica muito a operação e reduz erros na hora da compra”, diz Fiani.
Até aqui, a atuação da LG na linha branca no Brasil era limitada pela dependência de produtos importados, o que restringia o portfólio aos modelos mais caros. “Quando tudo vem de fora, não faz sentido eu encher o contêiner com produtos de menor preço. O custo logístico acaba empurrando a operação para o topo do portfólio”, afirma o executivo.
Com a produção local, essa lógica muda. A fabricação no Brasil permite ampliar o leque de modelos, reduzir custos e tornar os preços mais competitivos. Hoje, a geladeira mais barata da LG custa cerca de R$ 3 mil, enquanto modelos equivalentes de concorrentes partem de R$ 2 mil — uma diferença que a companhia espera reduzir à medida que a nova planta entre em operação.
Hoje, a principal fonte de receita — e, sobretudo, de lucro — da LG é a divisão de Home Appliance Solution, responsável pela linha branca do grupo. No terceiro trimestre do ano passado, a unidade faturou US$ 4,9 bilhões gloobalmente, e registrou lucro operacional US$ 270 milhões.
O contraste aparece quando se olha para o negócio de TVs. A divisão de Media Entertainment, que reúne televisores e outros produtos de entretenimento doméstico, foi a segunda maior em receita no mundo, com US$ 3,4 bilhões no 3T25. Ainda assim, o segmento encerrou o período com prejuízo operacional, refletindo a pressão de preços e a competição acirrada.
No consolidado, a LG global registrou receita líquida US$ 16 bilhões — e lucro operacional US$ 500 milhões. A empresa não divulga números específicos da operação brasileira.
