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A receita da Lituânia: como um país fadado à pobreza encontrou seus motores de crescimento

A ruptura com a Rússia após a anexação da Crimeia em 2014 acelerou a virada econômica do país báltico rumo ao Ocidente

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Com um passado ligado ao socialismo e à Rússia, a Lituânia hoje pensa no capitalismo e nas relações com a Europa Ocidental. Desde que deixou de ser uma república soviética, nos anos 1990, o país báltico passou por profundas transformações econômicas, encontrando na exportação de serviços uma forma de impulsionar um PIB de 95 bilhões de euros.

Greta Ilekytė, economista do Swedbank, lembra que, quando a Lituânia rompeu com a URSS, a renda per capita do país equivalia a cerca de 30% da média da União Europeia. Os lituanos não tinham indústrias pesadas, grandes conglomerados nacionais nem vantagens naturais óbvias que os colocassem no mapa do crescimento global.

“Nós éramos um país realmente pobre em 1990. Se não tivéssemos diversificado as exportações para fora da Rússia, provavelmente teríamos enfrentado uma grande recessão”, afirma. Quase quatro décadas depois, o retrato é outro. A Lituânia hoje se aproxima de 90% da renda média europeia – um dos saltos mais rápidos do continente, segundo a economista – e passou a figurar com frequência em rankings de inovação e dinamismo econômico.

Nos anos que se seguiram ao colapso da União Soviética, o país promoveu reformas amplas para migrar de um modelo socialista para uma economia de mercado. “Tivemos que reformar praticamente tudo – sistema legal, educação, saúde, eficiência do governo. Era a única forma de atrair investidores”, diz Greta.

A entrada na União Europeia e Otan, em 2004, e a adoção do euro, em 2015, consolidaram essa transformação. Foi nesse ambiente que a Lituânia passou a se posicionar como uma economia pequena, mas integrada ao comércio europeu.

A vocação exportadora ganhou ainda mais importância a partir de 2015, quando a anexação da Crimeia pelo regime de Vladimir Putin levou empresas lituanas a reduzir gradualmente sua dependência do mercado russo.

A diversificação de destinos – especialmente para a União Europeia e os Estados Unidos – funcionou como um teste de estresse antecipado, tornando a economia mais resiliente quando a guerra na Ucrânia explodiu, em 2022, e fechou de vez qualquer relação comercial com os russos.

“Não temos mais conexões com a Rússia. Tudo foi cortado”, afirma Rugilė Skvarnavičiūtė, estrategista da Invest Lithuania, a agência estatal para atração de investimentos. Atualmente, o fornecimento de petróleo e gás vem de outros países, como Arábia Saudita e Noruega.

Segundo ela, a resposta da Lituânia foi acelerar uma estratégia baseada na diversificação de mercados e de fontes de energia – especialmente para eliminar a dependência do gás russo – e em uma integração ainda mais profunda com o ecossistema europeu. 

Hoje os principais parceiros comerciais do país são os vizinhos bálticos Estônia e Letônia, além de Alemanha, Polônia, Holanda e Estados Unidos. A dinâmica da macroeconomia lituana é o tema da última reportagem da série especial do InvestNews sobre a Lituânia.

Mercado de capitais

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A abertura econômica também produziu um setor privado diverso, com empresas que operam em setores muito diferentes – energia, varejo, logística, tecnologia e farmacêutico – reduzindo a dependência de um único motor de crescimento.

Entre os maiores nomes estão o grupo de varejo Maxima, controlado pelo conglomerado Vilniaus prekyba, a refinaria Orlen Lietuva, ligada ao grupo polonês Orlen, e empresas de logística que figuram entre as maiores operadoras rodoviárias da Europa. 

No campo tecnológico, companhias como Vinted ajudaram a colocar a Lituânia no mapa do ecossistema digital europeu, como já mostramos nesta série. Para Greta, essa diversidade setorial é parte da explicação do sucesso recente. O país não apostou em um único setor, mas construiu uma economia com múltiplos vetores de exportação.

Apesar do dinamismo empresarial, o mercado de capitais local permanece proporcional ao tamanho da economia. “Não temos muitas empresas listadas. Se você olhar a Nasdaq Baltic, talvez haja cerca de dez empresas lituanas. No total, o mercado tem algo como 30 companhias. É muito pequeno”, afirma a economista.

A Nasdaq Vilnius integra a plataforma regional Nasdaq Baltic, ao lado das bolsas da Estônia e da Letônia. Para empresas que crescem rapidamente, a escala do mercado doméstico limita naturalmente a liquidez — e a internacionalização, com listagens em praças maiores como Londres, tende a ser o caminho esperado, afirma Greta, do Swedbank.

O maior grupo listado do país é a Ignitis, estatal de energia que lidera a transição energética lituana. Em 2022, no início da guerra na Ucrânia, cerca de 35% da eletricidade do país vinha de fontes renováveis. Hoje esse percentual já se aproxima de 70%, refletindo o esforço acelerado de independência energética após o rompimento com a Rússia.

Os empresários

A estrutura produtiva da Lituânia também se reflete em uma elite empresarial concentrada em poucos grupos domésticos — e menos midiática do que em economias maiores.

O empresário mais rico do país é Nerijus Numavičius, controlador do Vilniaus prekyba, que além de dono dos supermercado Maxima é também proprietário da cadeia farmacêutica Euroapotheca. O grupo domina o varejo báltico e fatura cerca de €8 bilhões por ano, funcionando como um dos pilares da economia doméstica.

Nerijus Numavičius, controlador do grupo Vilniaus prekyba (Foto: Verzlo Zinios)

Na logística – setor que transformou a Lituânia em potência continental de transporte rodoviário – o nome mais associado ao crescimento é Mindaugas Raila, ligado à Girteka, uma das maiores operadoras de transporte de mercadorias da Europa.

Já no campo tecnológico, a nova geração de riqueza vem de empresas digitais. Tomas Okmanas e Eimantas Sabaliauskas, fundadores da Nord Security (dona da NordVPN) e da Tesonet, simbolizam o salto do país para serviços de alto valor agregado. Além de bilionários, tornaram-se investidores estruturantes do ecossistema de startups local.

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Mas o personagem que melhor representa a internacionalização do capital lituano é Gediminas Žiemelis, fundador da Avia Solutions Group, conglomerado de serviços para aviação nascido em Vilnius e hoje instalado em Dublin. O grupo fornece aeronaves, tripulação, manutenção e infraestrutura operacional para companhias aéreas em dezenas de países.

Em 2025, a empresa concretizou sua entrada no Brasil com a criação da Avion Express Brasil, subsidiária certificada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para operar no modelo ACMI – aluguel de aeronaves com tripulação e serviços completos.

Gediminas Žiemelis, controlador do Avia Solutions Group (Divulgação)

Com mercado interno pequeno e sem abundância de recursos naturais, os empresários da Lituânia construíram crescimento a partir da exportação de serviços, da diversificação energética e de empresas voltadas desde o início para fora de suas fronteiras.

Esse arranjo ajuda a explicar por que logística, tecnologia, energia e aviação aparecem com tanto peso no setor privado local – e por que empresários lituanos operam com naturalidade em mercados maiores do que o próprio país.

O jornalista viajou à Lituânia a convite da Hostinger

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